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Até amanhã camaradas…

Março 26, 2013

Zizek, em entrevista à Carta Maior, publicação marxista brasileira, mostra aquele pudor patético da esquerda bem pensante em conceder a necessidade de um Estado regulador. O entrevistador da Carta Maior mostra aquele despudor da esquerda bem pensante em achar que tudo o que seja solução de compromisso é uma traição à revolução. E no entanto ficamos com a sensação que ambos estão errados. Que do lado do papismo da Carta Maior, não integrar o Brasil como um dos modelos mais interessantes de limitação do neoliberalismo – tacteante, tímido, por vezes experimental, é certo – afigura-se uma radical injustiça. Do lado de Zizek, que diz quase tudo sobre qualquer coisa, a tibieza das declarações de admiração pelo modelo brasileiro são francamente desconcertantes  E são-no sobretudo porque quando interpelado – em quase modo de censura autofágica -, a propósito de umas suas declarações onde teria elogiado o Brasil e o governo PT, Zizek apresta-se a “quase” desmentir, que é uma forma de não desmentir enfaticamente, afirmando que aquilo que disse não deve ser tomado literalmente. Recusando a imagem do Brasil carnavalesco e sambista, da festa do “estrepe” canarinho ao sexo desenfreado e epidérmico, vai dizendo que o Brasil mesmo assim serve de imagem contra-hegemónica ao poder dos bancos e à cartilha neoliberal. Talvez opondo a este either/or ideológico uma dialéctica comezinha se possa postular, como o faz Emir Sader, que a imagem do Brasil carnavalesco é tão verdadeira como a do Brasil injusto e desigual. Em verdade, se há país cuja auto-referencialidade se construiu em torno de dicotomias, esse é com certeza o Brasil. Desde o Brasil do interior ao Brasil do litoral, passando pelo Sul desenvolvido versus o Norte subdesenvolvido e acabando no país rico que não conhece o Brasil pobre assim como cantava Elis Regina, o Brasil sempre se pensou em oposições. O importante é que assim como se pensou em dicotomias, nunca as considerou irredutíveis. É por isso que Sader sugere que o Brasil do carnaval não é mera impostura ideológica, mas que é tão verdade como o Brasil da desigualdade e da miséria. Ambos são verdadeiros e é preciso compreendê-los na sua interrelação contraditória.

Não obstante, o Brasil de Lula e de Dilma inverte, como já o fazia a Venezuela de Chavez e a Bolívia de Morales, a tendência neoliberal instalada pelos seus predecessores. Isto não é de somenos. Com efeito, se Cardoso efectuou uma pirueta teórica e prática enveredando por caminhos que contradiziam a sua própria matriz académica e intelectual, aprofundando a lógica do Estado mínimo e da financeirização do capital; Lula e Dilma expandem o Estado para níveis não aconselháveis segundo a doutrina do Banco Mundial e do FMI. É certo que a esquerda brasileira tomou para si a função crítica tendo por alvo os governos petistas e aquilo que identificam como a traição aos ideais da esquerda, em particular a descontinuidade actual entre o partido e os movimentos de base que deram a presidência a Lula em 2002. Concessões, é um facto, são várias e por vezes menos escorreitas em termos de uma ortodoxia militante. Contudo, negligenciar que um país como o Brasil apresentava em 2010 uma taxa de desemprego a rondar os 10%, que em dez anos diminuiu a informalidade em 9%, que o número de postos de trabalho aumenta na ordem dos 3 milhões ao ano e que a desigualdade medida pelo índice de Gini não para de diminuir, é deitar fora o bebé com a água do banho, o sabonete e mais o pato de borracha.

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