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Dialógicas

Março 25, 2013

A parte mais interessante da utilização de Proust para uma teoria das ciências sociais (como a vimos ser utilizada por Lahire, por exemplo) é contrastá-la com uma perspectiva bakhtiniana. Não se trata do tempo e das suas múltiplas inscrições na memória; tão-pouco do exercício de rememoriar perante o acaso dos estímulos exteriores que se apresentam como tantas outras ocasiões para a tomada de consciência de um determinado momento, objecto, acção, pessoa, situação. A perspectiva segundo Bakhtine é a da polifonia, e neste sentido não é uma consciência que se apresenta armada perante o tempo, um tempo-consciência que se dá a ver no pormenor, nas ínfimas sensações de um quotidiano comezinho, mas sim uma consciência multinivelada  construída através da participação das diversas consciências em presença. Uma consciência nunca vem determinada, acabada, do ponto de vista autoral. A consciência é o produto dialógico da consciencialização da multiplicidade de consciências que existem dentro de uma só; a compreensão da ambiguidade que existe numa determinada acção só é então possível porque dessa acção participam diversas consciências e não apenas uma que nos devolvesse o representação única e unívoca dessa mesma acção.

A polifonia bahktiniana é mais heurística para uma teoria da acção do que a estratigrafia temporal proustiana que nos ensina apenas aquilo que se vai construindo, inacabado é certo, mas que se vai construindo dentro de uma visão acabada de apenas um sujeito. A revolução coperniciana de Dostoievski  como lhe chamou Bakhtine, foi ter posto os seus personagens em diálogo permanente uns com os outros fugindo assim à monologia do romance clássico até então. O exemplo que Bakhtine dá é o de Tolstoi e como este é monológico por oposição à dialogia do primeiro. Com efeito, em Três Mortes, cada uma das mortes é tomada como objecto em si, e se bem que elas se oferecem às consciências, apenas o fazem isoladamente umas das outras. Para Dostoievski cada um dos personagens teria que experimentar o grau de consciencialização dos outros dois, cada um deles teria que falar pelos outros e nunca a morte de nenhum seria assumida como um acto acabado.

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