O regresso do reprimido… e desinteressante

E lá apareceu o Sócrates, apesar dos atenienses lhe terem dado cicuta a beber, o homem tem mais vidas que um gato e resistiu estoicamente. A entrevista foi, previsivelmente, um enfado. Sócrates nunca foi um grande orador; tão-pouco um animal político como gostam de o classificar. A sua conversa arrasta-se, é um portento de lugares-comuns e de déjà vu políticos, e nesse aspecto não surpreendeu ninguém. Julgar-se-ia que os anos de passeatas pela rive gauche a consultar cartapácios compulsados com a avidez de um maître a penser o teriam devolvido ao mundo dos mortais purificado, lustral, imortal. Mas não: aquilo foi mais do mesmo. Desta feita sem a pressa moralizadora dos lugares institucionais, sem o peso tribunício dos cargos governamentais, enfim sem razão de Estado atrelada aos interrogatórios do grande inquisidor da opinião pública. Diga-se que o trabalho dos jornalistas fez jus a esses tempos. Em que entrevista se viu tamanha sanha na perseguição da presa? Que momento duma velha entrevista a Passos Coelho se aproximou sequer daquela vontade de sangue exibida ontem pelos dois chacais? Bem, e isto já seria cair na esparrela da narrativa da vitimização a que Sócrates lança mão como se de uma segunda pele se tratasse.

Os encómios que lhe foram prodigalizados  – meu deus! Que disparate insano. Uns era porque uma mão atrás dos arbustos insinuava verve poética; outros, era porque a sua endurance notável o fazia ir em crescendo até uma apoteose de pirotecnia política. Não sabem mais o que dizer. Facto é que a entrevista foi sensaborona, tal e qual um Sócrates que nós já nem no horizonte de expectativas pressentíamos. A mão atrás dos arbustos sugere qualquer coisa entre o voyerismo e o onanismo, mas nunca poesia. O crescendo de Sócrates é um crescendo por exaustão, porque os jornalistas actuaram como se lhes tivessem atirado para a arena um bom naco de lombo. E por aí afora. Depois foi a ênfase dada ao uso do termo narrativa – ora porque foi estudado, ora porque tinha com certeza segundas intenções. Ninguém pensou – porque ninguém pensa – que aquilo é o reflexo de um modismo intelectual, que nas lides das filosofias políticas e suas adjacentes, é narrativa para cá e narrativa para lá, e que na sua intenção expletiva, Sócrates tenha comezinhamente usado o palavrão com a taumatúrgia das invocações do (verdadeiro) nome de Deus!

Esperemos então que, no futuro, Sócrates se desinvista do papel de primeiro-ministro e calce os velhos coturnos do comentador oficial do regime. Só isso faria a sua aparição suportável. Uivemos –disse o cão.

Pop bible

Aos espertos que dizem, Ah o Ecclesiastes – está lá contida toda a humanidade. Ou, O Ecclesiastes é o livro da minha vida! Saibam que aos réprobos não se faria maior favor do que enjeitá-los na espiritualidade encartada de uma sabedoria internáutica. Não me digam, O Ecclesiastes, e tudo é vão, e vaidade de vaidades, porque tudo é vão perante a morte… Alto lá! O Ecclesiastes é um livro de ordens. De ordens no sentido mais autoritário da palavra, no sentido de dominação. Está lá o espanto pela vanidade da existência? Está. Mas como contornar esse vazio infinito que se instala no interior da consciência do ser? Com deus. Obedecendo a Deus. Vivendo conforme a lei de Deus. Tudo é vão… excepto a lei de Deus. E isto faz toda a diferença contra a leitura yuppster, pop new age, que gosta de ver no Ecclesiastes a sua inspiração medíocre para um niilismo de cabeceira. O Ecclesiastes é a grande oração pela conformação. Tudo é vão, e nada podes contra a vontade de Deus – por isso conforma-te! Nada do que faças na terra fará mais sentido, porque a vontade de Deus é soberana. Se te conformares com a tua condição – de rico ou de servo, afortunado ou aziago, homem ou mulher, sábio ou tolo, rei ou peão – então podes viver em paz porque vives conforme a vontade de Deus, a única, a mais soberana, a indiscutível. O Ecclesiastes é o livro da sujeição por definição. O livro onde a rebelião se encontra em definitivo castrada.

Compreende-se por que razão as crianças prodígio da new age pop yuppster com ele tanto se encantam. É o Harry Potter dos eruditos da nova geração.

Até amanhã camaradas…

Zizek, em entrevista à Carta Maior, publicação marxista brasileira, mostra aquele pudor patético da esquerda bem pensante em conceder a necessidade de um Estado regulador. O entrevistador da Carta Maior mostra aquele despudor da esquerda bem pensante em achar que tudo o que seja solução de compromisso é uma traição à revolução. E no entanto ficamos com a sensação que ambos estão errados. Que do lado do papismo da Carta Maior, não integrar o Brasil como um dos modelos mais interessantes de limitação do neoliberalismo – tacteante, tímido, por vezes experimental, é certo – afigura-se uma radical injustiça. Do lado de Zizek, que diz quase tudo sobre qualquer coisa, a tibieza das declarações de admiração pelo modelo brasileiro são francamente desconcertantes  E são-no sobretudo porque quando interpelado – em quase modo de censura autofágica -, a propósito de umas suas declarações onde teria elogiado o Brasil e o governo PT, Zizek apresta-se a “quase” desmentir, que é uma forma de não desmentir enfaticamente, afirmando que aquilo que disse não deve ser tomado literalmente. Recusando a imagem do Brasil carnavalesco e sambista, da festa do “estrepe” canarinho ao sexo desenfreado e epidérmico, vai dizendo que o Brasil mesmo assim serve de imagem contra-hegemónica ao poder dos bancos e à cartilha neoliberal. Talvez opondo a este either/or ideológico uma dialéctica comezinha se possa postular, como o faz Emir Sader, que a imagem do Brasil carnavalesco é tão verdadeira como a do Brasil injusto e desigual. Em verdade, se há país cuja auto-referencialidade se construiu em torno de dicotomias, esse é com certeza o Brasil. Desde o Brasil do interior ao Brasil do litoral, passando pelo Sul desenvolvido versus o Norte subdesenvolvido e acabando no país rico que não conhece o Brasil pobre assim como cantava Elis Regina, o Brasil sempre se pensou em oposições. O importante é que assim como se pensou em dicotomias, nunca as considerou irredutíveis. É por isso que Sader sugere que o Brasil do carnaval não é mera impostura ideológica, mas que é tão verdade como o Brasil da desigualdade e da miséria. Ambos são verdadeiros e é preciso compreendê-los na sua interrelação contraditória.

Não obstante, o Brasil de Lula e de Dilma inverte, como já o fazia a Venezuela de Chavez e a Bolívia de Morales, a tendência neoliberal instalada pelos seus predecessores. Isto não é de somenos. Com efeito, se Cardoso efectuou uma pirueta teórica e prática enveredando por caminhos que contradiziam a sua própria matriz académica e intelectual, aprofundando a lógica do Estado mínimo e da financeirização do capital; Lula e Dilma expandem o Estado para níveis não aconselháveis segundo a doutrina do Banco Mundial e do FMI. É certo que a esquerda brasileira tomou para si a função crítica tendo por alvo os governos petistas e aquilo que identificam como a traição aos ideais da esquerda, em particular a descontinuidade actual entre o partido e os movimentos de base que deram a presidência a Lula em 2002. Concessões, é um facto, são várias e por vezes menos escorreitas em termos de uma ortodoxia militante. Contudo, negligenciar que um país como o Brasil apresentava em 2010 uma taxa de desemprego a rondar os 10%, que em dez anos diminuiu a informalidade em 9%, que o número de postos de trabalho aumenta na ordem dos 3 milhões ao ano e que a desigualdade medida pelo índice de Gini não para de diminuir, é deitar fora o bebé com a água do banho, o sabonete e mais o pato de borracha.

A humana consciência da Europa civilizada

Os refugiados sempre foram um problema para a Europa. Não é de agora que Portugal tem uma particular reserva em relação aos refugiados que o procuram. Primeiro, porque é imigração que custa dinheiro; e Portugal gosta particularmente da imigração que dá dinheiro, ou em virtude da exploração ou do diabolicamente atractivo empreendedorismo. Portugal foi de uma eficácia irrepreensível a ganhar os favores de uma Europa babada que encontrou nele uma espécie de Estado mínimo para a imigração. Daí os prémios, os rankings, os primeiros lugares ex aequo com a Suécia, esse país em vias de desenvolvimento e à beira da bancarrota. Uma operação de charme bem-sucedida, pois então. Mas quando se trata de refugiados, o excessivo contingente de 42 prima pela sua magnificência humanitária. Se é certo que Portugal é o país da Europa que aceita menos refugiados, não é menos certo que lhes dá as mesmas condições que muitos dos outros bem-intencionados irmãos do espaço europeu; ou seja, menos que zero. Dir-se-ia que se são tão poucos, as condições deveriam ser melhores. Mas não é assim.

A lógica europeia relativamente aos refugiados tem sido, desde pelo menos Schengen, de dissuasão. E essa começa pelas condições com que os recebemos. Ora as cláusulas da convenção de Genebra são uma espécie de grilhetas para as consciências libertárias neoliberais da Europa actual. O empecilho de obedecer a ditames humanitários forjados noutras, pretéritas, conjunturas históricas, pesa no ideário de livre circulação incremental do mercado neoliberal. Por isso se começou com o jogo de passa-culpas relativamente ao controlo de fronteiras. Introduziu-se a responsabilidade do primeiro país por onde passa o refugiado, acabando em verdadeiras estâncias de luxo em Lampedusa ou Chipre, portas de entrada privilegiadas que funcionam como campos de detenção desobrigados do escrutínio das instâncias legais.

Porém, a Europa signatária da convenção é uma Europa nervosa. Tenho para mim que muitos responsáveis rasgariam a malfazeja convenção e corriam com os refugiados para os países que os sopraram da sua condição de cidadania para fora caso lhes fosse dada essa imponderável oportunidade. Só que a consciência humanitária dos europeus, ou a sua consagração enquanto automatismo cultural (vejam bem, a Europa das tradições humanas e humanistas!), não permite rasgar o documento. A estratégia escolhida é a de reduzir ao mínimo as condições de acolhimento para que os próximos refugiados a socorrerem-se do instituto do asilo não tenham a veleidade de escolher a Europa como destino.

Dialógicas

A parte mais interessante da utilização de Proust para uma teoria das ciências sociais (como a vimos ser utilizada por Lahire, por exemplo) é contrastá-la com uma perspectiva bakhtiniana. Não se trata do tempo e das suas múltiplas inscrições na memória; tão-pouco do exercício de rememoriar perante o acaso dos estímulos exteriores que se apresentam como tantas outras ocasiões para a tomada de consciência de um determinado momento, objecto, acção, pessoa, situação. A perspectiva segundo Bakhtine é a da polifonia, e neste sentido não é uma consciência que se apresenta armada perante o tempo, um tempo-consciência que se dá a ver no pormenor, nas ínfimas sensações de um quotidiano comezinho, mas sim uma consciência multinivelada  construída através da participação das diversas consciências em presença. Uma consciência nunca vem determinada, acabada, do ponto de vista autoral. A consciência é o produto dialógico da consciencialização da multiplicidade de consciências que existem dentro de uma só; a compreensão da ambiguidade que existe numa determinada acção só é então possível porque dessa acção participam diversas consciências e não apenas uma que nos devolvesse o representação única e unívoca dessa mesma acção.

A polifonia bahktiniana é mais heurística para uma teoria da acção do que a estratigrafia temporal proustiana que nos ensina apenas aquilo que se vai construindo, inacabado é certo, mas que se vai construindo dentro de uma visão acabada de apenas um sujeito. A revolução coperniciana de Dostoievski  como lhe chamou Bakhtine, foi ter posto os seus personagens em diálogo permanente uns com os outros fugindo assim à monologia do romance clássico até então. O exemplo que Bakhtine dá é o de Tolstoi e como este é monológico por oposição à dialogia do primeiro. Com efeito, em Três Mortes, cada uma das mortes é tomada como objecto em si, e se bem que elas se oferecem às consciências, apenas o fazem isoladamente umas das outras. Para Dostoievski cada um dos personagens teria que experimentar o grau de consciencialização dos outros dois, cada um deles teria que falar pelos outros e nunca a morte de nenhum seria assumida como um acto acabado.