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Um discurso excrementício lavra na sociedade portuguesa

Outubro 10, 2012

Um discurso perigoso começa a disseminar-se na sociedade portuguesa. A propósito da factura da crise recair sobre quem trabalha, ouve-se por diversas vezes e nos mais diversos sectores, a comparação entre o sacrifício de quem trabalha e aqueles que vivem à custa de subsídios. Quanto a estes últimos, as vozes críticas referem-se as mais das vezes a quem recebe subsídio de desemprego. O discurso é assim: “andam os empreendedores a esfalfarem-se para não verem dinheiro nenhum, e os que mamam no subsídio de desemprego, não fazem nada e chegam a ganhar mais!”. Ouvi isto – esta mesma estrutura argumentativa – ao fiscalista Tiago Caiado Guerreiro e tenho visto declarações semelhantes no facebook.

É a classe média-alta em todo o seu esplendor! Para eles um desempregado é um fardo, um desperdício. Do ponto de vista da sociedade e da sua potencial contribuição é um facto inegável. Assacar-lhe as culpas da sua condição de desempregado é que me parece perverso.

O desemprego em Portugal incide mais sobre quem tem uma menor taxa de escolaridade relativa, sobretudo quem apenas tem o 9º ano. Todavia, assiste-se a um aumento exponencial da percentagem de jovens desempregados quer estejam à procura do primeiro emprego quer procurem reintegrar-se no mercado de trabalho com qualificações intermédias e terciárias. Destes dificilmente se pode dizer que sejam madraços ou que queiram iniciar as suas vidas profissionais na calacisse do subsídio de desemprego. Por outro lado, é também nesta coorte que os ordenados são mais baixos, ilustrado pela chamada geração dos 500 euros. Em síntese, o desemprego em Portugal é composto por um contingente mal pago e de baixas qualificações. E são estes que a classe média-alta estima andarem a viver à conta deles.

Dois vícios argumentativos, que são na verdade dois espetos ideológicos na garganta dos desvalidos. Primeiro, a classe média-alta, os empreendedores, ergo quem dá trabalho e o exige em troca, exime-se estranhamente de responsabilidades do engrossar deste contingente. A razão pela qual aumentam os desempregados – os tais que vivem à mama do subsídio – é, muito laplacianamente, porque são despedidos. Ora como o tecido económico português é constituído em 70% por pequenas e médias empresas, não custa concluir que são despedidos dessas mesmas pequenas e médias empresas. A rudimentariedade do raciocínio contrasta – e pretende-se que assim seja – com a brutalidade da acusação. Isto porque quem assim acusa tem uma enorme probabilidade de ser quem assim despede.

O segundo aspecto possui contornos de especial perversidade. Se enquanto empreendedor estabeleço com o meu projecto uma vontade de gradual e consistente crescimento então seria o primeiro a querer retirar pessoas do desemprego para com elas engrossar esse mesmo projecto. Sabemos no entanto que em virtude de nos confrontarmos cada vez mais com uma mão de obra excedentária, gradualmente reduzida pelo duplo efeito da flexibilização-acumulação – menos pessoas a fazerem uma diversidade de tarefas e a acumularem várias responsabilidades permite reduzir os custos do trabalho – estes tais empreendedores estarão pouco interessados em ir buscar novas aquisições ao mercado. Por outro lado, sendo o modelo de crescimento económico vigente baseado sobretudo em baixos salários, estes mesmos empreendedores gostam que a situação assim permaneça podendo ter um exército de reserva que possibilite a flexibilização – para baixo – do salário.

É por isso que heroicizar o empreendedor sem nesse laudo apensar o esforço de quem para ele trabalha é puro exercício da mais excrementícia hipocrisia e, em termos mais analíticos, função ideológica de quem tem a faca e o queijo na mão

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