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O misticismo histórico de Clara Pinto Correia

Outubro 2, 2012

Clara Pinto Correia e a história (versão) das descobertas portuguesas, é todo um programa. A jornalista anuía com o júbilo patetinha da gesta pátria às estórias de casinhas à beira mar plantadas que segundo CPC os portugueses foram disseminando por essas praias. O mundo era o beiral da profícua inseminação portuguesa por terras de indígenas e estranhos animais. Para CPC o português foi um arauto da miscigenação, e perante ele os demais povos colonizadores apenas podiam expressar espanto. “O mundo que o português criou” gerou suspeição e admiração por mentes tão distantes quanto a oriental e a holandesa.

Pese o facto de esta história já ter sido contada, de forma bem mais genial e literariamente burilada pelo grande Gilberto Freyre, o que conta CPC é fundamentalmente assustador. Para a estudiosa, as descobertas, que nunca chegam na sua retórica a receber o ápodo de colonização, foram um processo de miscigenação e adaptação contínua e aproblemática do homem português (e aqui o homem toma a dianteira do processo histórico e portanto, do ponto de vista feminista, é mais uma versão ultra-masculinizada de um episódio da história humana) aos povos e territórios onde foi aportando. Nesta versão, o português “enamorava-se” das indígenas que ele considerava “simpáticas” (sic) e de pronto espetava progérie rija e amulatada por essas praias do hemisfério sul. Depois disso, fixava-se numa palhota na praia e comerciava com quem lá aparecesse que sempre ficava boquiaberto perante a família de oitavonas e quadraronas que entretanto a semente portuguesa prodigalizara.

Para CPC não houve escravatura. Os portugueses não foram responsáveis pela transferência de cerca de 8 milhões de seres humanos levados à força para os engenhos da América do Sul e Central. Nunca houve guerras de dizimação de tribos que se opunham à penetração, se bem que difícil, territorial. E nunca o português violou, sequestrou e maltratou as “simpáticas” indígenas que tal como nos filmes de Elvis Presley esperavam na areia branca das praias com as suas saias de ráfia e flores ao pescoço prontas para serem desfloradas pelo ímpeto nacional. É o luso-tropicalismo redivivo na sua forma mais pura e arcaica, ou seja, na sua forma mais puramente salazarista. Nem Freyre deixou passar incólume o sadismo das matronas portuguesas para com as suas escravas, ou os maus-tratos e torturas que os escravos fugidos eram sujeitos quando caçados pelos capatazes. E Freyre, sabemo-lo bem, edulcorou, e de que maneira, essa história de cruzamentos e benesses genesíacas.

Esta versão estupidificante das descobertas-colonização já devia ter sido interrompida, e o seu poder mistificador atirado de vez para o caixote do lixo da história. Mas não. Numa toada de psicoses patrióticas e esquizofrenias históricas, a jornalista lá foi acrescentando que aquilo – aquela coisa: o potencial genesíaco da semente portuguesa consubstanciado num passado de miscigenação –  ainda hoje poderia ser testemunhado. Onde? Supostamente na facilidade com que o português se dedica ao comércio onde quer que vá e no ainda mais rápido voluntarismo de se cruzar com os outros. Estes outros, curiosamente (e merece reflexão), são em geral “as outras”. Porque a história do poder miscigenador parece assistir sobretudo os homens, porque das mulheres, para além da agora observada e escrutinada mitologia do falo negro, não rezam as estórias de que lhes fosse particularmente apetecível a cópula com o “outro”. Defeito de quem monopoliza a narração da história, certamente. Ou mais simplesmente porque mediante a inexistência de mulheres brancas, o português usasse o que tinha à mão, algo que não lhe é exclusivo, de maneira nenhuma, e aconteceu com os holandeses no Suriname, os franceses na Indochina, os holandeses no Brasil (aquelas mulatas de olhos azuis de Pernambuco para cima contam uma história que não é a portuguesa) ou os espanhóis no México. Todos sem excepção, quando confrontados com a ausência da mulher branca recorreram ao material que estava à mão. Não há nenhuma força genesíaca inexplicável num comportamento humano doutra forma perfeitamente racional e compreensível. Onde a colonização levou consigo mulheres brancas, a ordem da miscigenação ou foi feita contra a ordem social ou apenas nos interstícios dessa mesma ordem, tal foi o caso da África do Sul ou da Rodésia, ou da América do Norte dos protestantes. A diferença aqui não tem nada a ver com a apetência por mulheres escurinhas, mas simplesmente com a ausência ou presença de stocks de mulheres brancas. De tal forma era assim, que cedo se percebeu que para “segurar” o Brasil, por exemplo, era preciso enviar mulheres brancas que ajudassem a fixar famílias reconduzindo-as ao apresto da estrutura familiar ocidental, base da ordem religiosa e temporal do Antigo Regime.

Por que razão continua a história da colonização portuguesa a ser contada de forma ideológica, mistificada e, no fundo, falaciosa? Porque, ao contrário de outros povos que fizeram o desmame da  “mística imperial” – uma verdadeira droga! – Portugal ainda não o fez (e se calhar nunca fará). Por isso CPC pode espalhar dislates sobre a miscigenação portuguesa (que não se nega, mas que está longe de ser a estória toda) sem uma única vez ser confrontada pela jornalista com a pergunta sacramental: mas não éramos um poder colonial? E como tal, não exibíamos as mesmas estruturas – variações aparte – dos outros poderes coloniais? Se cada vez que fosse contada, a história fosse encabeçada por estas questões, certamente que teríamos uma versão diferente.

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  1. Outubro 3, 2012 10:30 am

    Foto © Pedro Palma 2009

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