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Borges – uma parábola

Outubro 1, 2012

O que têm os wonder boys dos business tips e dos livros the 4 hours work week – tais como Tim Ferris – de semelhante com o governo do psd-cds? O acreditarem ambos na merda que dizem. Há quem diga que o estilo do governo é académico. Mas não é. O estilo do governo é o dos sound bytes e tumulto gerado pelos wise kids do investimento bolsista; os bilionários instantâneos que já se podem reformar aos 30 anos e que para mal dos nossos pecados desatam a escrever livros. Porque podem. Porque são sobretudo imensamente vaidosos. Porque quem compra aqueles livros esquece uma verdade fundamental: só depois de serem ricos é que estes rapazes (curiosamente há pouca mulher neste mundo do génio financeiro instantâneo) se põem a dar bitates sobre como gerir a vida fazendo o menos possível, mas dando passos seguros e certeiros no caminho da embriaguez monetária. Os parolos que lêem estas coisas pensam ao contrário: pensam que é seguindo aquelas parvoíces debitadas em velocidades alucinantes que se fica rico. Errado. Depois de se ser rico, pode-se dizer qualquer merda que será sempre abençoada.

Onde então o paralelo com o governo actual? É que este governo e as pessoas que o integram não querem provar que são bons na governação. São ricos – tirando eventualmente Passos Coelho que não será pobre, mas não é com certeza rico a um nível de um Borges ou de um Relvas – e por isso não pedem meças a ninguém. O seu sucesso serve-lhes de caução: própria e alheia. Nas suas cabeças híper-ego-centradas, pensam: se eu sou um exemplo de sucesso, tudo o que faça reiterará certamente esse mesmo sucesso. Se a governação está a sair uma bosta, a culpa não é deles, é de quem é governado. Este espírito é o estrume onde medra o principal esperanto financeiro e business consultancy. Os wonder kids da finança não são muito diferentes dos wonder kids da governação. Quando algo corre mal, a culpa é do mundo e não das suas acções. Eles apenas agem da forma mais racional possível. Mesmo que essa racionalidade seja construída pelas próprias condições impostas pelas suas acções. Mesmo que essa racionalidade seja, afinal, meramente autoconfirmatória. É por isso que os livros de Tim Ferris querem fazer-nos acreditar que a entrada para o clube dos super rich é simples, bastando para isso estar de posse do cardápio acertado. Siga-se a receita, e ela resultará. Neste governo a coisa é mais ou menos cozinhada dentro do mesmo registo. António Borges como cozinheiro-chefe é exímio em sugerir – impor seria a palavra mais apropriada – receitas. Afinal de contas, no tempo de Goldman Sachs e quejandas terá privado com outros tantos wonder boys da finança que se estão a cagar se puserem o mundo do avesso desde que isso lhes aumente os lucros.

É por isso necessário não tomar Borges pelo louco de serviço. Borges representa uma estirpe. Haverá com certeza matéria mais do que suficiente para alinhavar uma construção social do indivíduo António Borges; uma colecta de rituais de passagem, baptismos de fogo, habitus de cartões bordados – o psicopata americano, pois então – e de competição entre bólides da última linha. Este é o contexto de extracção do indivíduo António Borges. Foi ali que ele se forjou, ou que o forjaram, o que vai dar ao mesmo. Nos píncaros destes edifícios, as formigas são sempre insignificantes. Quando este modus operandi é transposto para edifícios bem mais baixos, modestos e vetustos, o impacto só pode ser calamitoso.

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