Não queremos cá jovens!

Depois de ver a cara da responsável do ministério da educação pelo plano nacional de leitura ontem na televisão, – não falo do Fernando Pinto do Amaral – um estranho pesar apoderou-se de mim. Era a propósito da introdução do livro de poesia de Alice Vieira com um título ornitológico – as aves e etc…e qualquer coisa – e ao que parece causou grande celeuma na comunidade educativa – tratava-se de um livro para adultos! Mas não foi isso que eu retive. Bem longe das sincopadas frases de Alice Vieira o que me assoberbou o espírito foi a visão do rosto, da compostura, os ademanes da responsável. Entre a doida varrida e a alucinada compulsiva: a senhora encontrar-se-ia algures.

E pensei que o despedimento de mais de 50.000 contratados, forçosamente os mais jovens, mais qualificados, mais preparados, mais voluntariosos e outras coisas que se poderiam acrescentar num coro de elogios que nunca mais acabaria, vai deixar ficar aquela imagem de senilidade desgastada, de podridão instalada, de velhice do padre eterno pelas repartições, guichets, departamentos e outras instalações da função pública. Porque é isso que vai acontecer: os jovens são despachados para um futuro incerto e de desemprego, o velho ranço, aquele que nem ao trabalho de aprender a teclar num computador se dá, esse ficará por lá a vegetar. Ou seja, de um contingente minimamente equilibrado, vão ficar os mais desmotivados, aqueles que só sonham com o dia em que entreguem os papéis para a reforma.

E a cara da senhora que eu vira na televisão gritava futurologicamente isso mesmo: uma senescência premeditada da função pública. Impedida de ser atractiva como veículo de carreira para os mais jovens; largada à vermínia de chefes e chefinhos bem instalados e por vezes turbo-instalados (tocando diversos instrumentos em simultâneo, dentro e fora do sector estatal), o estiolar será quase inevitável. Sem sangue novo, é sabido, os sistemas não se renovam. A função pública não é diferente. Por isso mais do que um programa suicida que colocará 50.000 pessoas no desemprego de uma acentada, esta medida do governo visa debilitar a função pública na sua raiz: na juvenilidade dos seus quadros.

Um discurso excrementício lavra na sociedade portuguesa

Um discurso perigoso começa a disseminar-se na sociedade portuguesa. A propósito da factura da crise recair sobre quem trabalha, ouve-se por diversas vezes e nos mais diversos sectores, a comparação entre o sacrifício de quem trabalha e aqueles que vivem à custa de subsídios. Quanto a estes últimos, as vozes críticas referem-se as mais das vezes a quem recebe subsídio de desemprego. O discurso é assim: “andam os empreendedores a esfalfarem-se para não verem dinheiro nenhum, e os que mamam no subsídio de desemprego, não fazem nada e chegam a ganhar mais!”. Ouvi isto – esta mesma estrutura argumentativa – ao fiscalista Tiago Caiado Guerreiro e tenho visto declarações semelhantes no facebook.

É a classe média-alta em todo o seu esplendor! Para eles um desempregado é um fardo, um desperdício. Do ponto de vista da sociedade e da sua potencial contribuição é um facto inegável. Assacar-lhe as culpas da sua condição de desempregado é que me parece perverso.

O desemprego em Portugal incide mais sobre quem tem uma menor taxa de escolaridade relativa, sobretudo quem apenas tem o 9º ano. Todavia, assiste-se a um aumento exponencial da percentagem de jovens desempregados quer estejam à procura do primeiro emprego quer procurem reintegrar-se no mercado de trabalho com qualificações intermédias e terciárias. Destes dificilmente se pode dizer que sejam madraços ou que queiram iniciar as suas vidas profissionais na calacisse do subsídio de desemprego. Por outro lado, é também nesta coorte que os ordenados são mais baixos, ilustrado pela chamada geração dos 500 euros. Em síntese, o desemprego em Portugal é composto por um contingente mal pago e de baixas qualificações. E são estes que a classe média-alta estima andarem a viver à conta deles.

Dois vícios argumentativos, que são na verdade dois espetos ideológicos na garganta dos desvalidos. Primeiro, a classe média-alta, os empreendedores, ergo quem dá trabalho e o exige em troca, exime-se estranhamente de responsabilidades do engrossar deste contingente. A razão pela qual aumentam os desempregados – os tais que vivem à mama do subsídio – é, muito laplacianamente, porque são despedidos. Ora como o tecido económico português é constituído em 70% por pequenas e médias empresas, não custa concluir que são despedidos dessas mesmas pequenas e médias empresas. A rudimentariedade do raciocínio contrasta – e pretende-se que assim seja – com a brutalidade da acusação. Isto porque quem assim acusa tem uma enorme probabilidade de ser quem assim despede.

O segundo aspecto possui contornos de especial perversidade. Se enquanto empreendedor estabeleço com o meu projecto uma vontade de gradual e consistente crescimento então seria o primeiro a querer retirar pessoas do desemprego para com elas engrossar esse mesmo projecto. Sabemos no entanto que em virtude de nos confrontarmos cada vez mais com uma mão de obra excedentária, gradualmente reduzida pelo duplo efeito da flexibilização-acumulação – menos pessoas a fazerem uma diversidade de tarefas e a acumularem várias responsabilidades permite reduzir os custos do trabalho – estes tais empreendedores estarão pouco interessados em ir buscar novas aquisições ao mercado. Por outro lado, sendo o modelo de crescimento económico vigente baseado sobretudo em baixos salários, estes mesmos empreendedores gostam que a situação assim permaneça podendo ter um exército de reserva que possibilite a flexibilização – para baixo – do salário.

É por isso que heroicizar o empreendedor sem nesse laudo apensar o esforço de quem para ele trabalha é puro exercício da mais excrementícia hipocrisia e, em termos mais analíticos, função ideológica de quem tem a faca e o queijo na mão

Dois países!

É o tempo da palração. Um romance do Mário de Carvalho – um que tem no título piscinas e coronéis – começa por fazer uma alusão por sinal bem directa a esta compulsão portuguesa pela palração. A semana passada, fazendo jus à solenidade catastrófica do momento, tivemos não um, mas dois megacongressos para discutir o futuro do país. Dois megacongressos em duas das mais importantes salas da capital: o CCB e a Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa.

Separação de águas, é o que ocorre dizer. De um lado, as alternativas, a esquerda intelectual e bem-pensante a burilar futuros outros para a nação. Do outro, o status quo, a Fundação Manuel dos Santos, mais conhecida por Fundação Pingo Doce, apresentou todo o peso da elite académica e bem-pensante (novamente) que este país pode suportar. Duas imagens da necessidade de falar, reflectir, extroverter, analisar, cotejar, e finalmente, determinar. Duas imagens em simultâneo, ou não fosse o caso de as comadres não quererem de facto partilhar pontos de vista. Do lado do Pingo Doce, toda a majestosidade de uma elite académica, em bons termos com o Estado, cheia de cacau – e por conseguinte analisando a crise os seus malefícios lá de longe, de muito longe – e de lugares comuns, invariantes do status quo e da incapacidade de quebrar com as teias do poder em que se encontram enredados e das quais se alimentam. A frustração do intelectual perante a sua incapacidade de determinar o que quer que fosse da vida pública cujas determinações são exteriores ao seu campo de acção de que falava no após-guerra Wright Mills não assistia a esta corte. A frustração fica na sua inteireza do outro lado da barricada, das alternativas, que tem pelo menos o afecto benigno da congratulação pela adesão muito considerável ao evento.

Quem, do alto de um púlpito, lançasse um olhar abarcante ao público que assistia aos dois eventos ficaria automaticamente ciente do país fendido onde vivemos. Ricos a botarem palavra para ricos – de um lado -, um pouco menos ricos a botarem palavra para pobres – do outro. A diferença estava de facto nas audiências. Mas lá está, nada disso deve ter peso na dicotomia entre consciências verdadeiramente preocupadas e envolvidas e outras meramente especulativas e comprometidas. Se o lugar da especulação costumava estar reservado à esquerda – a procura dos amanhãs que cantavam nunca se deu bem com o escrutínio frio da análise – em tempos de cobertura ideológica dos liames do poder (e portanto dos seus benefícios e beneficiadores) faz oscilar a balança especulativa para as direitas. E então, da Fundação de António Barreto fez-se esmero na especulação pretensamente objectiva. Porque aqui o grau de especulação será tanto maior quanto se negar as evidências de um país exangue. Por exemplo, a julgar pelo relator do painel sobre desigualdades, o que compungia aquele anfiteatro foram as desigualdades regionais, a cidade e as serras, e mais umas atoardas sobre a indefinição do rural e do urbano, onde acaba um e começa o outro, onde encontramos um dentro do outro e etc. Apenas uma referência fugidia – posto que não foi debatida – à real desigualdade, à mãe das desigualdades: a desigualdade salarial. Dessa nem pio. E que interesse poderia ter o exército de apaniguados de Soares dos Santos na desigualdade económica, no espinho cravado na garganta da república cuja leitura nos é oferecida pelo coeficiente de Gini para Portugal? Pois, nenhum.

Uma mesma assimetria, constante, e que persevera pelos media adentro. Enquanto o congresso das alternativas aparecia em pequenos relatos noticiosos ou em esporádicas notas de rodapé, o congresso da fundação pingo doce teve honras de transmissão em directo pela RTP Informação. Dois países. E de permeio o enfado da palração.

O misticismo histórico de Clara Pinto Correia

Clara Pinto Correia e a história (versão) das descobertas portuguesas, é todo um programa. A jornalista anuía com o júbilo patetinha da gesta pátria às estórias de casinhas à beira mar plantadas que segundo CPC os portugueses foram disseminando por essas praias. O mundo era o beiral da profícua inseminação portuguesa por terras de indígenas e estranhos animais. Para CPC o português foi um arauto da miscigenação, e perante ele os demais povos colonizadores apenas podiam expressar espanto. “O mundo que o português criou” gerou suspeição e admiração por mentes tão distantes quanto a oriental e a holandesa.

Pese o facto de esta história já ter sido contada, de forma bem mais genial e literariamente burilada pelo grande Gilberto Freyre, o que conta CPC é fundamentalmente assustador. Para a estudiosa, as descobertas, que nunca chegam na sua retórica a receber o ápodo de colonização, foram um processo de miscigenação e adaptação contínua e aproblemática do homem português (e aqui o homem toma a dianteira do processo histórico e portanto, do ponto de vista feminista, é mais uma versão ultra-masculinizada de um episódio da história humana) aos povos e territórios onde foi aportando. Nesta versão, o português “enamorava-se” das indígenas que ele considerava “simpáticas” (sic) e de pronto espetava progérie rija e amulatada por essas praias do hemisfério sul. Depois disso, fixava-se numa palhota na praia e comerciava com quem lá aparecesse que sempre ficava boquiaberto perante a família de oitavonas e quadraronas que entretanto a semente portuguesa prodigalizara.

Para CPC não houve escravatura. Os portugueses não foram responsáveis pela transferência de cerca de 8 milhões de seres humanos levados à força para os engenhos da América do Sul e Central. Nunca houve guerras de dizimação de tribos que se opunham à penetração, se bem que difícil, territorial. E nunca o português violou, sequestrou e maltratou as “simpáticas” indígenas que tal como nos filmes de Elvis Presley esperavam na areia branca das praias com as suas saias de ráfia e flores ao pescoço prontas para serem desfloradas pelo ímpeto nacional. É o luso-tropicalismo redivivo na sua forma mais pura e arcaica, ou seja, na sua forma mais puramente salazarista. Nem Freyre deixou passar incólume o sadismo das matronas portuguesas para com as suas escravas, ou os maus-tratos e torturas que os escravos fugidos eram sujeitos quando caçados pelos capatazes. E Freyre, sabemo-lo bem, edulcorou, e de que maneira, essa história de cruzamentos e benesses genesíacas.

Esta versão estupidificante das descobertas-colonização já devia ter sido interrompida, e o seu poder mistificador atirado de vez para o caixote do lixo da história. Mas não. Numa toada de psicoses patrióticas e esquizofrenias históricas, a jornalista lá foi acrescentando que aquilo – aquela coisa: o potencial genesíaco da semente portuguesa consubstanciado num passado de miscigenação –  ainda hoje poderia ser testemunhado. Onde? Supostamente na facilidade com que o português se dedica ao comércio onde quer que vá e no ainda mais rápido voluntarismo de se cruzar com os outros. Estes outros, curiosamente (e merece reflexão), são em geral “as outras”. Porque a história do poder miscigenador parece assistir sobretudo os homens, porque das mulheres, para além da agora observada e escrutinada mitologia do falo negro, não rezam as estórias de que lhes fosse particularmente apetecível a cópula com o “outro”. Defeito de quem monopoliza a narração da história, certamente. Ou mais simplesmente porque mediante a inexistência de mulheres brancas, o português usasse o que tinha à mão, algo que não lhe é exclusivo, de maneira nenhuma, e aconteceu com os holandeses no Suriname, os franceses na Indochina, os holandeses no Brasil (aquelas mulatas de olhos azuis de Pernambuco para cima contam uma história que não é a portuguesa) ou os espanhóis no México. Todos sem excepção, quando confrontados com a ausência da mulher branca recorreram ao material que estava à mão. Não há nenhuma força genesíaca inexplicável num comportamento humano doutra forma perfeitamente racional e compreensível. Onde a colonização levou consigo mulheres brancas, a ordem da miscigenação ou foi feita contra a ordem social ou apenas nos interstícios dessa mesma ordem, tal foi o caso da África do Sul ou da Rodésia, ou da América do Norte dos protestantes. A diferença aqui não tem nada a ver com a apetência por mulheres escurinhas, mas simplesmente com a ausência ou presença de stocks de mulheres brancas. De tal forma era assim, que cedo se percebeu que para “segurar” o Brasil, por exemplo, era preciso enviar mulheres brancas que ajudassem a fixar famílias reconduzindo-as ao apresto da estrutura familiar ocidental, base da ordem religiosa e temporal do Antigo Regime.

Por que razão continua a história da colonização portuguesa a ser contada de forma ideológica, mistificada e, no fundo, falaciosa? Porque, ao contrário de outros povos que fizeram o desmame da  “mística imperial” – uma verdadeira droga! – Portugal ainda não o fez (e se calhar nunca fará). Por isso CPC pode espalhar dislates sobre a miscigenação portuguesa (que não se nega, mas que está longe de ser a estória toda) sem uma única vez ser confrontada pela jornalista com a pergunta sacramental: mas não éramos um poder colonial? E como tal, não exibíamos as mesmas estruturas – variações aparte – dos outros poderes coloniais? Se cada vez que fosse contada, a história fosse encabeçada por estas questões, certamente que teríamos uma versão diferente.

Borges – uma parábola

O que têm os wonder boys dos business tips e dos livros the 4 hours work week – tais como Tim Ferris – de semelhante com o governo do psd-cds? O acreditarem ambos na merda que dizem. Há quem diga que o estilo do governo é académico. Mas não é. O estilo do governo é o dos sound bytes e tumulto gerado pelos wise kids do investimento bolsista; os bilionários instantâneos que já se podem reformar aos 30 anos e que para mal dos nossos pecados desatam a escrever livros. Porque podem. Porque são sobretudo imensamente vaidosos. Porque quem compra aqueles livros esquece uma verdade fundamental: só depois de serem ricos é que estes rapazes (curiosamente há pouca mulher neste mundo do génio financeiro instantâneo) se põem a dar bitates sobre como gerir a vida fazendo o menos possível, mas dando passos seguros e certeiros no caminho da embriaguez monetária. Os parolos que lêem estas coisas pensam ao contrário: pensam que é seguindo aquelas parvoíces debitadas em velocidades alucinantes que se fica rico. Errado. Depois de se ser rico, pode-se dizer qualquer merda que será sempre abençoada.

Onde então o paralelo com o governo actual? É que este governo e as pessoas que o integram não querem provar que são bons na governação. São ricos – tirando eventualmente Passos Coelho que não será pobre, mas não é com certeza rico a um nível de um Borges ou de um Relvas – e por isso não pedem meças a ninguém. O seu sucesso serve-lhes de caução: própria e alheia. Nas suas cabeças híper-ego-centradas, pensam: se eu sou um exemplo de sucesso, tudo o que faça reiterará certamente esse mesmo sucesso. Se a governação está a sair uma bosta, a culpa não é deles, é de quem é governado. Este espírito é o estrume onde medra o principal esperanto financeiro e business consultancy. Os wonder kids da finança não são muito diferentes dos wonder kids da governação. Quando algo corre mal, a culpa é do mundo e não das suas acções. Eles apenas agem da forma mais racional possível. Mesmo que essa racionalidade seja construída pelas próprias condições impostas pelas suas acções. Mesmo que essa racionalidade seja, afinal, meramente autoconfirmatória. É por isso que os livros de Tim Ferris querem fazer-nos acreditar que a entrada para o clube dos super rich é simples, bastando para isso estar de posse do cardápio acertado. Siga-se a receita, e ela resultará. Neste governo a coisa é mais ou menos cozinhada dentro do mesmo registo. António Borges como cozinheiro-chefe é exímio em sugerir – impor seria a palavra mais apropriada – receitas. Afinal de contas, no tempo de Goldman Sachs e quejandas terá privado com outros tantos wonder boys da finança que se estão a cagar se puserem o mundo do avesso desde que isso lhes aumente os lucros.

É por isso necessário não tomar Borges pelo louco de serviço. Borges representa uma estirpe. Haverá com certeza matéria mais do que suficiente para alinhavar uma construção social do indivíduo António Borges; uma colecta de rituais de passagem, baptismos de fogo, habitus de cartões bordados – o psicopata americano, pois então – e de competição entre bólides da última linha. Este é o contexto de extracção do indivíduo António Borges. Foi ali que ele se forjou, ou que o forjaram, o que vai dar ao mesmo. Nos píncaros destes edifícios, as formigas são sempre insignificantes. Quando este modus operandi é transposto para edifícios bem mais baixos, modestos e vetustos, o impacto só pode ser calamitoso.