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O Sábado do nosso contentamento

Setembro 17, 2012

imagem retirada daqui

A magnitude da manifestação de Sábado não deixa margem para dúvidas: o descontentamento deixou as faldas do funcionalismo público e disseminou-se por todos os sectores. Uma conclusão possível – o privado veio para a rua! Não foi num gesto de solidariedade para com o público, tão-pouco foi em qualquer gesto de solidariedade com algum actor colectivo, sector corporativo, ou de orientação programática. A manifestação de Sábado foi o que mais se aproximou de uma confluência espontânea. Os organizadores, é certo, não tiveram um papel despiciendo na sua mobilização. Mas tirando isso, o mais que as pessoas sabiam é que era preciso convergir para a Praça José Fontana e desaguar na Praça de Espanha. O resto, cada um organizou o seu próprio repertório de protesto, o melhor e mais convictamente que pôde e soube.

Talvez por isso a CGTP se tenha mantido à margem. O problema da ocupação e, no fundo, do não querer partilhar o espaço político teve eventualmente peso nesta demarcação. Porém, o que me parece é que a CGTP se afastou de um processo cuja capacidade de arregimentação não seguiu linhas de orientação programadas nem passou pelos canais típicos que garantem a eficácia dessa mesma natureza programática (sindicatos, comissões de trabalhadores, bases locais partidárias, etc). Ou seja, este processo extravasou em larga medida os momentos típicos de arregimentação política, e nesse sentido constituiu-se autopoeiticamente, i.e., as redes de interacção geraram redes idênticas aquelas que as produziram, assim como as moléculas, através da interacção, produzem redes interactivas semelhantes às que as produziram. A natureza autopoeitica da manifestação de Sábado é ainda corroborada pela falta de um sistema central organizativo que dissemine o padrão organizacional. No fundo, a codificação do acontecimento enquanto acontecimento político é dada pela convergência de descontentamentos moleculares, do qual nenhuma interpretação ideológica pode ser retirada. Quer dizer, não foi uma orientação ideológica que reuniu aquelas pessoas, mas sim um concerto de vontades que expressaram uma indignação difusa. Por difusa que fosse, note-se, não significa que possa ser lida como menos intensa ou ineficaz. Pelo contrário, a corrente de afinidades que ali se gerou possuiu mais eficácia do que muitos discursos articulados e politicamente carregados. Este encontro de vontades pode, segundo determinado prisma, ser visto como a autêntica emergência do político, da multidão. E não se nega a dimensão política de um tal acontecimento. Mas reafirmo, ele não foi articulado numa linguagem política tradicional; na realidade ele não foi articulado em nenhuma linguagem para além daquela que presidiu à mobilização: expressar o descontentamento e depressa! Uma codificação mínima gerou impactos máximos. Dá que pensar aos tradicionais entendimentos colectivos.

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