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Dos Passos sem volta

Setembro 14, 2012

imagem retirada daqui

Já aqui me referi à displicência com que os gestores da massa falida que nos governam se referem, e entendem, a democracia. As declarações de Passos são ainda mais enfáticas a este respeito. O “Que se lixem as eleições” ou o “Não governo pelas reacções da rua” bem-intencionados dentro da lógica da moral do esforço e da abnegação, são no fundo desabafos de desresponsabilização. Até porque o eleitoralismo, ao contrário de ser uma perversão do sentido do plesbiscito, é uma necessidade do funcionamento da escolha maioritária. O eleitoralismo é aquilo que faz com que as eleições possuam eco no interior das suas vozes constituintes, ou seja, no demos. A equação é tão clara quanto preocupante: se a ideia for que se lixe o demos porque temos que governar, então a dissociação entre governo e demos torna-se uma evidência. Ora isto chamava-se em termos clássicos, aristotélicos, uma ditadura. Repara-se que não se nega que a mecânica do eleitoralismo pode ser, e muitas vezes é, pura fogaça ideológica, manipulação das vontades através de artifícios retóricos, ou mesmo esmagamento da discussão esclarecida e complexa sob o peso do marketing político. Qualquer destes aspectos coexiste com a escolha democrática (sempre coexistiu, arriscaria) e qualquer deles é malsão para essa mesma escolha. Mas isso também deve estar acessível ao escrutínio do cidadão. O que não pode acontecer é uma dimensão qualquer da governação, um território inacessível, a que se chama “o bem da nação” que parece existir alienado do seu poder constitutivo – os cidadãos.

Passos não se encontra sozinho na sustentação desta perspectiva. As declarações de Fernando Ulrich espelham o mesmo sintoma. Ao dizer que Portugal está muito melhor do que há um ano atrás, não tendo em conta os números dramáticos do desemprego, o aumento das desigualdades, o incremento das dívidas incobráveis, o aumento das pessoas que se vêem sem habitação por não a poderem pagar, etc, etc, (todos os aspectos de um país em dissolução integrativa), Ulrich não faz mais do que reiterar o “que se lixem as pessoas” de Passos Coelho. Isto porque dizer que se lixem as eleições e que se lixem as pessoas são praticamente sinónimos.

Contudo, o mistério desta desresponsabilização, reside no “parece” que coloquei antes do “existir alienado do seu poder constitutivo – os cidadãos” que escrevi atrás. “Parece” não apenas porque existiria uma certa margem de erro analítico da parte do observador de uma tal dissociação, mas porque essa parcela da equação se torna fundamental. Ele deve de facto parecer dissociado para que não revele que apenas se dissocia de alguns. Como o poder constitutivo possui uma validade nula, dando-se o caso de os poderes que verdadeiramente contam não serem constitutivos, mas antes impositivos, este despudor democrático serve essencialmente para encobrir que uma tal dissociação obedece a interesses muito concretos. Neste caso, a descoincidência entre o “bem da nação” e os seus cidadãos não peca por um vácuo legitimista geral, mas apenas por uma gradação valorativa dessa mesma legitimação. Melhor dizendo, a legitimação não se encontra no corpo de um ente abstracto chamado cidadão, mas sim na relação de forças que se produz entre quem manda e quem obedece.

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