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Vilnius

Junho 4, 2012

Talvez a sensação mais exacta seja a de exasperação alegre. Paradoxo. A neve não esconde a tristeza, mas levanta a música num celestial contraste de sons e silêncios bem para além das paredes cinzentas do conservatório. Para além do MacDonalds… as donzelas, claro, edificam piruetas e pas de deux em ballets comprometidos com a beleza neocapitalista das compras. Tudo é perfeito como num anúncio de sabonetes. Perante esta honestidade total da realização do desejo – com efeito, de todos os desejos – soçobraram as estranhas, fechadas, brutas paredes do comunismo. Desses tempos roça-nos ainda na ilharga da sombra uma ainda maior, gigantesca, sombra de um anjo caído da história. Não seríamos sinceros – nem felizes! – se não o reconhecêssemos.

Claro que entre os bmw e as cabeças e corpos decepados dos antigos suplícios interpõe-se apenas uma fugaz noção de moral quotidiana. Os hipermercados – essa maravilha do prêt-à-porter da degustação – tranquilizam-nos, sempre, na sua obviedade de mamutes inteiros e repetíveis – a cada cidade o seu mamute; a cada cidade o mesmo gelo; a cada cidade a descoberta de um mamute enregelado, e por aí afora.

Não fosse esta consciência cheia de um pathos moderno, e poderíamos ser tentados a encontrar alguma autenticidade naquelas paredes estriadas de frio, naqueles edifícios petrificados na sua impotência. E no cinzento; o cinzento a perder de vista, a fazer-se amigo, a convidar-nos para um terreno de uniformes expectativas.

O bom do comunismo! Trocado por mais umas montras coloridas e um punhado de obsessão de status – eis o homem e mulheres novos em todo o seu eterno esplendor.

Depois descemos à cidade. O tempo apresenta-se em formato de uma história renovada que não sofreu o desgaste do esmaecimento, até porque daquilo que esmaeceu nada mais existe. Fez-se novo, portanto. Com as colunas, os capitéis, aquela grandeza neoclássica mas pontilhada de um ofensivo barroco que até os ínvios caminhos do transcendente infantiliza. Mas não é razão, nem lugar, para o desespero. As ruas que resistem na sua fealdade de períodos de colectivização e de comunização continuam habitadas por uma pobreza descoroçoante. As vidas de homens e mulheres robustos fantasmizam-se nas suas rotinas de necessidade e desilusão. Os ricos, esses, comem sempre de gamelas esbulhadas à honestidade de outras tantas mãos calejadas. Onde ontem foi a enxada, é hoje a caixa registadora, o balcão, os telhados pré-fabricados de um novo hospital privado.

Há ladrões. Em cada rosto corroído pela cupidez há um ladrão. Por aqui nada de diferente em comparação com o mundo civilizado. Mas se aquelas casas, de vidros partidos, paredes tisnadas pela raiva, portas escalavradas como faces envelhecidas, albergam vidas humanas, então há nelas potenciais assassinos prontos para se congregarem na praça da catedral e proceder a um auto-de-fé de proporções bíblicas.

Entretanto, é o trânsito que circula pressuroso por entre a girândola de novas ideias e de lançamentos do dardo do sucesso. Uma senhora de interessante inclinação para a pulcritude, reúne os convivas em torno de um cálice de bom vinho branco. Fala-se de jóias e de promessas – um futuro de reinos préste-joaninicos, dir-se-ia uma linguagem entre o russo e o eslavo. Os jes aparecem numa paleta de tonalidades invejável. Porém os rostos sisudos são a indicação que nem tudo corre bem nesta Dinamarca desencantada de espectros consumistas. Para além da opulência de alguns, que se ergam as bandeiras da convicção nacional de muitos. Ainda há tempo para a guerra.

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