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Frankenstein junior

Maio 28, 2012

Não costumo ler o Alberto Gonçalves. A sua acrimónia obtusa causa-me urticária. Mas hoje dei por mim a ler o senhor. Cedo me arrependi. A sua cretinice ultrapassa tudo o que é admissível. É uma espécie de Lagarde do jornalismo opinativo… Confunde-se, é certo, liberdade de opinião com liberdade de atoarda. É uma constante actual. Pensou-se, a partir de certa altura, que as pessoas têm direito a dizer o que quer que seja porque possuem uma opinião. Alberto Gonçalves é uma dessas pessoas.

Ao comentar o euro 2012 e a euforia (induzida) que em torno dele desponta, arma-se em moralista explicando aos portugueses que é tempo de crise e não para júbilos patéticos em torno de uma actividade desportiva de baixo coturno. Imagino que o Gonçalves seja mais dado ao ténis e ao golfe, porque o futebol afigura-se-lhe demasiado popularucho. O Gonçalves acha que não devíamos dar-nos ao luxo de festejar o desempenho da selecção, porque, como ele ilustra num lagarderismo (de Christina Lagarde) quase presciente, não é por festejarem a selecção nacional que os quenianos deixam de ter fome. E não será com certeza por beber uns copos ou mesmo ter sexo com as (os) respectivas. Tudo é em vão perante a opressão da miséria.

Numa coisa estamos de acordo: aquela coisa chamada selecção nacional com o seu cortejo de opulências várias escarchadas pelos jogadores na cara dos miseráveis, faz muito dinheiro. E daqui, deveria A. Gonçalves ter tirado as consequências e perceber que aquilo é uma máquina de marketing para fazer negócios e gerar dinheiro. Mas dir-se-ia que esta dimensão do monstro encantaria o nosso liberal; que estaria contentíssimo por ver tanto dinheiro a mexer, tanta oportunidade a ser criada, tanto negócio a ser gerido (e bem!) pelos empreendedores deste país. Daí que desconfie que o problema do Gonçalves é mesmo o futebol. Fosse o assunto carros de corrida e outro motor rugiria. Mas não ficou por aqui.

Num assomo de clarividência socrática, Gonçalves critica o ISCTE pelo facto de ter publicado um estudo sobre bullying homofóbico na escola: logo num antro que até promove estudos, vejam bem, sobre o islão – insurge-se o indignado plumitivo. Se a estupidez pagasse imposto, só à conta do Gonçalves, já tínhamos a dívida liquidada. Então não é verdade que por vezes acontece haver um mega-seminário de marketing em simultâneo com umas conferências sobre a ideia comunista e merdas do género! Aqueles gajos são mesmo freacks, como não perceber a impossibilidade teórica de juntar um estudo sobre homofobia com uma atitude complacente, de certos académicos, supõe-se, para com o temível islão? E mais: para que raio queremos nós estudos sobre homofobia se bocas depreciativas da homossexualidade sempre fizeram parte dos códigos da juventude, como “Pareces uma ganda bicha” ou “Deves ser é paneleiro”? Pela mesma ordem de ideias, se sempre houve gajos a molhar a sopa nas mulheres, por que razão darmo-nos sequer ao trabalho de fazer estudos sobre violência doméstica?

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