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Cortar o Relvas

Maio 21, 2012

É um sentimento de injustiça que se apodera de nós. Primeiro ganha o Chelsea sem nada fazer para o merecer. Depois ganha a académica, tudo fazendo para o merecer, e por instantes parece que a justiça poderia ser reposta. Finalmente, vem Relvas, e depois dele, quase em mecânica de ressonância ordinária – no sentido: esta coisa é tão comezinha que chega a ser estúpida – Filipe Menezes, dizer que é normal receber clippings do chefe dos serviços de informação, que é absolutamente aceitável, que o chefe dos serviços de informação, que poderia estar a aparar as sebes da sua mansarda, ou mesmo a estudar macramé para os tempos de pildra que eventualmente já no seu gesto se adivinhavam, estivesse a compilar informação para aquele que previsivelmente viria a ser o equivalente a um ministro da propaganda. O António ferro das democracias pluralistas. A eminence grise de um governo papal. E isto é dito com um descaramento que baralha. Dito numa comissão parlamentar; dito nos jornais e restante mídia, dito e redito por comentadores da prole governamental, e etc. E baralha porque se antecipa uma impunidade banal; ou melhor: a banalidade da impunidade tornada orgânica do Estado. Basta que se diga, Bom, na realidade nada tenho a ver com isto – para que, performativamente, o ministro atascado até ao pescoço em cheiro de malfeitoria (ou seja, a merda) passe a nada ter a ver com isso.

Ora a justiça deveria servir para outra coisa: apurar a verdade, ocorre-me. E se caso fosse essa a sua utilidade pública, e caso alguém acreditasse que assim fosse, e caso as elites deste país suspeitassem que esse pudesse ser o papel da justiça, não seria tão fácil afirmar “Nada tive a ver com isso” e esse tanto servir de ónus da prova.

Relvas, e outros, de tantas cores e feitios, sabem que a justiça é um postiço de endinheirados que tanto pode ser colocado com magnânima certeza como enjeitado com especiosa leviandade. Por isso, Relvas, do lado dos endinheirados da nação, pode deitar fora a suspeição com o gesto majestático de isso serem minudências perante as quais ele se encontra em cima, a olhar de um lugar mais alto cuja perspectiva permite transformar pessoas em formigas e a vontade de apuramento da verdade em fantasia persecutória.

A nós baralha. Porquanto, em boa verdade, por que razão precisaria Relvas de responder aos famigerados clippings para que este acto configure conivência com uma actividade delatória? Basta recebê-los, basta recebê-los…

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