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Agit Prop

Maio 7, 2012

Sarkozy sai do Eliseu com um discurso patético sobre o amor que nutre pela França. Tudo em Sarkozy cheira a falso, preparado, estudado e depois vomitado. Mas que excelente actor  ele é – isso ninguém o poderá negar! Quando se houve Madeleine Morano da UMP outro galo canta, e quem assim cantarola é o galo mais xenófobo, anti-comunista e quase a roçar a extrema-direita. Dizia ela, que a demonstração de apoio a Hollande na Bastilha a atemorizou porque viu muitas bandeiras estrangeiras e vermelhas. Nada que mademoiselle Le Pen não pudesse dizer, e essa é a verdadeira face da UMP, não as cabriolas do jogral em fim de estação Nicolas Sarkozy.

Hollande, espécie de phoenix redux do partido socialista francês – de acordo com os rumores, especialistas teriam vindo do USA para fazer um lifting à imagem política de Hollande, um revamp da sua chacoteada normalidade – passa a perna ao inexpugnável Sarkozy. E depois deste ter mostrado os dentes num debate desinteressante e praticamente ter oferecido porrada, como era seu timbre, ao seu adversário (lembremos que Sarkozy oferecia porrada quando era ofendido na rua pelos espectadores).

Hollande e os seus coadjuvantes têm um discurso que faz lembrar o do Guterres há 15 anos atrás: solidariedade, crescimento… crescimento e solidariedade. Conhecemos a fórmula. E sabemos também que sem tocar nos privilégios das elites não há volta a dar. O discurso da solidariedade (em Portugal teve como complemento o diálogo) subentende sempre a harmonização das assimetrias; escamoteia o conflito que nelas se inscreve, e labora numa utopia normativa de uma sociedade sem fricções. Foi também esse pensamento que levou o neoliberalismo a fazer o seu trabalho de sapa, que é bem mais eficaz, e que tem por assumido, não uma reconciliação, mas uma guerra fratricida entre quem tem e quem não tem. Terá Hollande espaço de manobra para consumar a viragem que tanto apregoa? Sem afrontar os grandes grupos económicos – franceses e europeus (sobretudo os alemães) – não creio que tenha. Por isso é que Merkel já avisou que quer uma solução pragmática, ou seja, uma solução que não toque no status quo de uma Europa neoliberal apoiada por quase todos os 27. Holande encontra-se sozinho perante uma Europa conservadora nos valores e ultraliberal na economia. Ao pacto Mercozy segue-se, como alguém bem salientou, o pacto Merkel-Hollande, ou seja, Merde.

Na Grécia, a vitória de Samaras, mesmo sem condições de governabilidade e bem longe dos resultados que os partidos do centro estavam acostumados, evidencia, não obstante, uma tentativa de reconstrução política sustentada na mesma lógica de rotatividade. O Pasok sai significativamente penalizado, é certo (assim como o ps de Sócrates saiu ainda recentemente), mas a vitória de Samaras, ainda que de Pirro, mostra que os gregos acreditam ainda no voto de penalização sendo que em termos políticos a alternativa prende-se ainda com a chamada alternância política. Por isso, a mudança não é assim tão radical como se quer fazer crer.

A possibilidade de uma coligação à esquerda – uma esquerda unida com uma representação de peso no parlamento – foi rejeitada pelo KKE, o partido comunista grego, sob pretexto de o Syrisa ser “social-democrata”. Faz certamente lembrar as acusações de alguns sectores de esquerda comunista nacional (e não só) quando acusam facções do Bloco de Esquerda de serem fundamentalmente do PS. Seja como for, a hipótese de chegarem a uma maioria pode ser completamente posta de parte. E se questiúnculas desta natureza persistirem, pode bem ser adiada sine die.

Dentro do eixo da rotatividade, não creio que o entendimento entre Samaras e Venizelos apresente problemas de maior, e não vejo por que razão não será o ANEL convencível a entrar numa coligação, o que daria os desejados dois deputados para uma maioria. É verdade que Kamenos, o presidente do ANEL, é um renegado da Nova Democracia; some-se a isso o facto de as razões da sua incompatibilização terem a ver justamente com o memorando da troika. Mas isso é achar que a Europa, a comissão Barroso, e o Deutsche bank não são suficientemente persuasivos para convencerem um aliado tresmalhado a regressar ao aprisco. Se conseguiram deitar Berlusconi abaixo, por que não conseguiriam convencer (forçar) Kamenos a entrar num governo de unidade nacional? Kamenos é mais de direita do que Samaras, e rapidamente concluirá que se ficar associado à extrema-direita nazi agora com assento no parlamento, o seu partido desmoronar-se-á em pouco tempo.

Daí que dizer que a classe política foi fortemente penalizada pelo eleitorado grego parece-me manifestamente exagerado. A abstenção, é certo, ultrapassou os 35%, o que significa que o interesse dos gregos na condução política do país é cada vez menor e que muitos estarão resignados. Porém, as eleições gregas não resultaram numa convulsão assim tão grande dos tradicionais arranjos parlamentares. Dilapidaram o centro, seguramente, mas a direita ultrapassa em quase 35% o número de deputados da esquerda, PASOK incluído. Situação, na verdade, gerada pela mais incongruente regra que algum regime democrático pôs em prática, a de bonificar em 50 deputados o partido vencedor. Sem uma regra tão absurda, a distância entre a Nova Democracia e o Syriza seria de pouco mais de 2%, o que obrigaria a ter o Syriza como parceiro de coligação. Mas assim vão os ventos no berço da democracia.

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