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Pingo Doce – Não vá lá!

Maio 3, 2012

Obsceno. É o que apraz dizer. E perante uma certa vontade de caricaturar o acontecido, apenas posso ficar em suspenso – silêncio absoluto, por um defunto que passa. O defunto da decência? Não creio. Legítimas as preocupações com o dumping; legítimas as preocupações com as margens de lucro; legítimas ainda as preocupações com a ordem pública (legítimas, embora hipócritas, estas últimas). Porém, todo este rol de legítimas preocupações falha o essencial, o absurdo, o pornográfico contido na promoção dos 50% dos supermercados Pingo Doce. Não se trata da boda aos pobres – essa, melhor ou pior, só compra quem quer. Tão-pouco se prende com a festança consumista que vê nas pessoas, animais ávidos pela compra. O que é verdadeiramente pornográfico – e este deve ser entendido no seu sentido mais literal: de uso dos corpos como máquinas, de despojamento de sentido nos actos, etc – foi o ritmo de trabalho a que os funcionários do Pingo Doce foram obrigados a trabalhar, só porque manadas de gente excitada a quem os ânimos acicatados pela vertigem dos preços baratos assim o exigiram.

A televisão fez de tudo para obnubilar os momentos de trabalho que as suas câmaras se esmeraram em ignorar. Regozijou-se com os assaltos da populaça às bancas dos supers, com a violência da escassez, com a brutalidade da necessidade – disso fomos brindados às carradas, e foi motivo de júbilo para políticos acéfalos que afirmavam a inevitabilidade dos factos perante a opípara escolha que se oferecia ao consumidor. E a escolha que não se ofereceu aos trabalhadores, aos funcionários do Pingo Doce?

Por isso há qualquer coisa de profundamente Nazi na campanha orquestrada pela cadeia dos supermercados. Um ódio aos direitos do trabalho disfarçado de comoção de massas. Uma vontade de manipulação dos corpos que trabalham, sem o mínimo remorso. E, a nível simbólico, o impacto de fazer tudo isso no dia consagrado ao trabalhador e sair ileso pela porta baixa do happening mediático.

Um sociólogo de nome Lampreia surgiu na televisão a dizer que aquilo era bom; que aquilo transmitia aos portugueses um sentido de glória, de conquista, uma sensação de poder vencer nos momentos mais árduos – uma mensagem de esperança, depreender-se-ia. Quando são os supostos técnicos a oferecerem interpretações tão enviesadas, tão parcialmente compradas, então o círculo da incongruência fechou-se… e sem estrondo. Morra o Lampreia – PIM.

Mas dentro do laço discreto do absurdo capitalista, vejo que os distribuidores se queixam que vão ser eles a pagarem os desmandos concorrenciais do Pingo Doce. Que se lixem os trabalhadores do Pingo Doce! Peças descartáveis que, fornada após fornada, se vão revesando na trituradora do belíssimo horizonte de vida que é a carreira de funcionário de um supermercado. Preocupemo-nos antes com os distribuidores: é por lá que anda o dinheiro. E no entanto, imagino que depois de um dia a aturarem afluências titânicas de gente a atropelar-se para chegar à caixa, de terem que despachar uma verdadeira enxurrada de pessoas que escolheram o feriado – o dia do trabalhador -, para foderem a vida a uns quantos trabalhadores, mediante o magnânimo ordenado que Soares dos Santos lhes prodigaliza, terão chegado a casa e ter-se-ão perguntado se valia a pena. A resposta não se faria esperar, evidentemente: – Não, não vale a pena, mas não temos alternativa.

E Soares dos Santos cospe em todas as direcções, o homem trabalhador que deslocou o seu pecúlio para o estrangeiro para não ter que pagar impostos: cospe sobre os trabalhadores, cospe na celebração do dia do trabalhador, cospe nos consumidores ao dizer-lhes que se quisesse poderia vender a menos 50% do preço a que realmente vende.

Num mundo perfeito, seguir-se-ia um boicote aos supermercados Pingo Doce. Mas o mundo das promoções Soares dos Santos está muito longe de ser perfeito.

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One Comment leave one →
  1. Arlete Ramboa permalink
    Maio 4, 2012 5:58 pm

    Não vi a peça em que entra a lampreia, mas deve ser este aqui. O curriculum não engana!
    Abraços,
    Arlete Ramboa

    Nome: Lúcio Lampreia

    Instituição: Unexpected – Designing People

    Função: Partner

    e-Mail:

    Habilitações: licenciatura em Sociologia do Trabalho e das Organizações; certificado em SSLeadership II pela Ken Blanchard international; ‘coach’ certificado pela The Mind Gym (Reino Unido)

    Experiência Profissional: inicio da actividade na Direcção de Recursos Humanos da EPAL, seguindo-se um período como consultor de Formação no Instituto Superior de Gestão (ISG); integrou a equipa da Egor em 1996, primeiro como consultor e mais tarde (1999) assumindo a direcção de Formação; de 2003 a 2006 passou pela Tracy Human Performance como consultor e director de operações; em 2006 voltou à Egor como director geral da área de Formação; é consultor sénior e gestor de projectos com larga experiência em programas de ‘coaching’, formação e desenvolvimento pessoal; é especializado no desenvolvimento de competências de Liderança, Negociação, Vendas, Gestão de Equipas, Team building, Técnicas de Apresentação e Eficácia Pessoal; trabalha com direcções e equipas das maiores empresas nacionais e internacionais a operar em Portugal; é colaborador semanal no programa «Mundo das Mulheres», na SIC Mulher, desde 2007; director geral na Egor Consulting e Formação; colaborador semanal no programa Mais Mulher, na SIC Mulher com a rubrica Dear Job, e co-fundador e ‘partne’r da Unexpected Designing People.

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