Vita brevis, Ars longa

Em sense of an ending de Julian Barnes, livro premiado com o booker de 2011, a páginas tantas o autor discorre sobre life not being only about subtraction and addition, but also about multiplication, of faillure, of loss. Uma conversa a propósito de relações falhadas: se tinham sido tempo perdido, ou processos de aprendizagem que constroem a vida, a vida que nos prepara para o assalto seguinte, ou ainda simples episódios cuja desmemoriação tem o efeito de tornar anódinos.

Um dos personagens principais do livro tem a mania de citar Camus, e aquela coisa do suicídio ser o acto mais filosófico de todos, isto porque a vida se resume a uma réplica do suplício de Sísifo. Recupero Barnes: o peso da multiplicação parece-me óbvio. E depois, quer dizer, depois de citar camus, suicida-se mesmo – mas não por um motivo filosoficamente edificante.

A questão da multiplicação, de facto, não se prende necessariamente com o suicídio. Longe disso. Multiplicação como factor do falhanço. Sartre disse-o: a história de uma vida é a história de um falhanço. E isto porque do ponto de vista existencialista, qualquer que fosse a escolha que se fizesse, esta estava condenada a ser um falhanço porque era sempre renúncia a outras escolhas possíveis.  Esta fórmula, assim me parece, é demasiado radical – como se a entrega a um projecto fosse absolutamente unitária.

A fórmula da multiplicação, do efeito da perda e do falhanço ser multiplicador, tem supostamente a sua vertente edificante. O falhanço carrega consigo um processo de aprendizagem. Pois, infelizmente – e aqui contradigo o início do raciocínio -, julgo que não. Nada se aprende com o falhanço, e é por isso que o seu poder é multiplicador e não aditivo. O último falhanço numa sequência de falhanços não corrige (nem sequer do lado interpretativo) o primeiro dos falhanços. Não ilumina nenhum dos anteriores, como se o último fosse a concatenação possível que quando vista retrospectivamente lançasse sentido sobre todos os precedentes. Não. O falhanço tem uma capacidade de se reproduzir geometricamente. E isto porque pertence ao tempo, e o tempo só quando encarado retrospectivamente e com grande voluntarismo ganha em unidade.

Frankenstein junior

Não costumo ler o Alberto Gonçalves. A sua acrimónia obtusa causa-me urticária. Mas hoje dei por mim a ler o senhor. Cedo me arrependi. A sua cretinice ultrapassa tudo o que é admissível. É uma espécie de Lagarde do jornalismo opinativo… Confunde-se, é certo, liberdade de opinião com liberdade de atoarda. É uma constante actual. Pensou-se, a partir de certa altura, que as pessoas têm direito a dizer o que quer que seja porque possuem uma opinião. Alberto Gonçalves é uma dessas pessoas.

Ao comentar o euro 2012 e a euforia (induzida) que em torno dele desponta, arma-se em moralista explicando aos portugueses que é tempo de crise e não para júbilos patéticos em torno de uma actividade desportiva de baixo coturno. Imagino que o Gonçalves seja mais dado ao ténis e ao golfe, porque o futebol afigura-se-lhe demasiado popularucho. O Gonçalves acha que não devíamos dar-nos ao luxo de festejar o desempenho da selecção, porque, como ele ilustra num lagarderismo (de Christina Lagarde) quase presciente, não é por festejarem a selecção nacional que os quenianos deixam de ter fome. E não será com certeza por beber uns copos ou mesmo ter sexo com as (os) respectivas. Tudo é em vão perante a opressão da miséria.

Numa coisa estamos de acordo: aquela coisa chamada selecção nacional com o seu cortejo de opulências várias escarchadas pelos jogadores na cara dos miseráveis, faz muito dinheiro. E daqui, deveria A. Gonçalves ter tirado as consequências e perceber que aquilo é uma máquina de marketing para fazer negócios e gerar dinheiro. Mas dir-se-ia que esta dimensão do monstro encantaria o nosso liberal; que estaria contentíssimo por ver tanto dinheiro a mexer, tanta oportunidade a ser criada, tanto negócio a ser gerido (e bem!) pelos empreendedores deste país. Daí que desconfie que o problema do Gonçalves é mesmo o futebol. Fosse o assunto carros de corrida e outro motor rugiria. Mas não ficou por aqui.

Num assomo de clarividência socrática, Gonçalves critica o ISCTE pelo facto de ter publicado um estudo sobre bullying homofóbico na escola: logo num antro que até promove estudos, vejam bem, sobre o islão – insurge-se o indignado plumitivo. Se a estupidez pagasse imposto, só à conta do Gonçalves, já tínhamos a dívida liquidada. Então não é verdade que por vezes acontece haver um mega-seminário de marketing em simultâneo com umas conferências sobre a ideia comunista e merdas do género! Aqueles gajos são mesmo freacks, como não perceber a impossibilidade teórica de juntar um estudo sobre homofobia com uma atitude complacente, de certos académicos, supõe-se, para com o temível islão? E mais: para que raio queremos nós estudos sobre homofobia se bocas depreciativas da homossexualidade sempre fizeram parte dos códigos da juventude, como “Pareces uma ganda bicha” ou “Deves ser é paneleiro”? Pela mesma ordem de ideias, se sempre houve gajos a molhar a sopa nas mulheres, por que razão darmo-nos sequer ao trabalho de fazer estudos sobre violência doméstica?

À Lagardère

O problema com as afirmações de Lagarde não é terem sido uma gaffe que ela eventualmente tivesse deixado cair sem prestar grande atenção. O problema é que para além de serem verdade, ou seja, Lagarde está-se mesmo nas tintas para a Grécia e gosta de fazer caridadezinha com as criancinhas da Nigéria, foram deliberadas.

Parece hoje evidente que toda esta gente da massa está mortinha para que a Grécia saia do euro. O mais são hipócritas intenções de manter uma europa unida que nem sequer lhes cabe nos planos. Mas as afirmações de Lagarde são de tal maneira espaventosas que custa a crer que sejam um deslize. Por esta altura estes graúdos já perceberam que o melhor que poderia acontecer era a Grécia sair voluntariamente; ou então dar-lhes uma justificação tão forte que a atirem borda fora. Isto não são meninos do coro: são tubarões de uma magnitude de filha da putice que faz com que sejam os protagonistas perfeitos para os papéis que decidiram encarnar. A solução, digamos, menos complexa para o problema é a Grécia tomar a própria iniciativa. Lagarde e os trutas do FMI sabem que os gregos são um povo orgulhoso, e que maior do que a dívida, só mesmo um orgulho nacional quase infantil que todos usam como uma insígnia. Lagarde sabia perfeitamente que estava a tocar a corda certa. Se alguma coisa, a aristocracia do dinheiro, cujos interesses Lagarde representa, está morta para ver o Syriza ganhar as próximas eleições para ter uma justificação que não pareça demasiado imoral para largar a Grécia ao seu destino. E como numa tragédia grega em que o desfecho se anuncia logo no início, o corifeu avisa o destino trágico que os deuses desejam.

Cortar o Relvas

É um sentimento de injustiça que se apodera de nós. Primeiro ganha o Chelsea sem nada fazer para o merecer. Depois ganha a académica, tudo fazendo para o merecer, e por instantes parece que a justiça poderia ser reposta. Finalmente, vem Relvas, e depois dele, quase em mecânica de ressonância ordinária – no sentido: esta coisa é tão comezinha que chega a ser estúpida – Filipe Menezes, dizer que é normal receber clippings do chefe dos serviços de informação, que é absolutamente aceitável, que o chefe dos serviços de informação, que poderia estar a aparar as sebes da sua mansarda, ou mesmo a estudar macramé para os tempos de pildra que eventualmente já no seu gesto se adivinhavam, estivesse a compilar informação para aquele que previsivelmente viria a ser o equivalente a um ministro da propaganda. O António ferro das democracias pluralistas. A eminence grise de um governo papal. E isto é dito com um descaramento que baralha. Dito numa comissão parlamentar; dito nos jornais e restante mídia, dito e redito por comentadores da prole governamental, e etc. E baralha porque se antecipa uma impunidade banal; ou melhor: a banalidade da impunidade tornada orgânica do Estado. Basta que se diga, Bom, na realidade nada tenho a ver com isto – para que, performativamente, o ministro atascado até ao pescoço em cheiro de malfeitoria (ou seja, a merda) passe a nada ter a ver com isso.

Ora a justiça deveria servir para outra coisa: apurar a verdade, ocorre-me. E se caso fosse essa a sua utilidade pública, e caso alguém acreditasse que assim fosse, e caso as elites deste país suspeitassem que esse pudesse ser o papel da justiça, não seria tão fácil afirmar “Nada tive a ver com isso” e esse tanto servir de ónus da prova.

Relvas, e outros, de tantas cores e feitios, sabem que a justiça é um postiço de endinheirados que tanto pode ser colocado com magnânima certeza como enjeitado com especiosa leviandade. Por isso, Relvas, do lado dos endinheirados da nação, pode deitar fora a suspeição com o gesto majestático de isso serem minudências perante as quais ele se encontra em cima, a olhar de um lugar mais alto cuja perspectiva permite transformar pessoas em formigas e a vontade de apuramento da verdade em fantasia persecutória.

A nós baralha. Porquanto, em boa verdade, por que razão precisaria Relvas de responder aos famigerados clippings para que este acto configure conivência com uma actividade delatória? Basta recebê-los, basta recebê-los…

Liquefação

É uma sensação de diluição gradual e irreprimível. Um país que colapsa diariamente. As notícias apanham-nos sempre pelo lado do trágico previsível: 40.000 jovens que abandonaram o país; desemprego galopante; famílias em insolvência; doentes mentais que não conseguem pagar os medicamentos…

Belmiro de Azevedo: – “Não há emprego porque não há dinheiro”. Jornal Sol: Desmantelada rede de lavagem e branqueamento de capitais que operava a coberto de uma firma de gestão de fortunas (e o que pode ser gerir fortunas se não fuga ao fisco?) sediada entre Portugal, Cabo Verde e a Suíça. Mil milhões de euros teriam por lá passado. Há dinheiro, mas não há emprego. Forma de dizer que aquela fé embrutecida dos neoliberais que prega que o dinheiro pingará de qualquer forma dos muitos ricos para os escalões inferiores não tem razão de ser.

Um parágrafo de Alfredo Margarido sobre a Europa escrito em 2005

Se, na verdade, os projectos do futuro se caracterizam pela marginalização matemática de um número constante e até crescente de homens, é evidente que esta Europa que aceita tais condições negativas, merece ser interrogada, para pormos a nu o seu esqueleto ideológico, que assenta na necessidadeda exclusão. Ou seja, podemos e devemos analisar a Europa ainda em construção de um ângulo completamente diferente, de uma maneira a pôr a nu a parte feia da face. Como os actores, os responsáveis pela construção da Europa oferecem à objectiva do fotógrafo a parte do rosto que – mais impressiona e seduz, deixando na sombra a parteque acumula as mazelas, mas revela a medida do desequilíbrio psíquico.

E lá diz o povo: não há duas sem três

É engraçado como as coisas são previsíveis. Na Grécia, o meu prognóstico estava errado apenas porque os nomes das pessoas não correspondiam aos lugares. Porque, de resto, a solução configura-se exactamente como eu previra. Não há coligação com o ANEL – partido que eu sinceramente acreditei ser mais cooptável – mas há com o Dimar. Se assim se verificar, as eleições sufragaram rigorosamente a situação que se encontrava antes delas, ou seja, um governo de salvação nacional partilhado entre a ND de Samaras e o PASOK de Venizelos. Nada de novo na frente oriental, portanto. O garrote a que os gregos se encontram presos continua dentro de momentos. As eleições foram uma mera interrupção do programa por motivos técnicos. A urgência da coligação, torna-se evidente, é tanto maior quanto a ameaça de o Syriza ganhar as próximas eleições – é justamente para isso que apontam as sondagens.

A providencial frase de Shaubel, o contabilista do Bundesbank, é a esse respeito elucidativa do que escrevi no post abaixo: o risco sistémico é um conto para engorlar papalvos. Disse Shaubel: a Europa pode comportar uma saída da Grécia do euro, porque tem os mecanismos para isso… E não tinha dantes?, perguntamos nós. Claro que sim. O risco sistémico, assim como foi utilizado entre portas para salvar bancos, foi sempre uma canção do bandido. De tal ordem que acrescenta Shauble enviando uma clara mensagem a toda a coligação grega que tenha a veleidade de colocar em causa o acordo da troika:  Es sei gefährlich, “den Bürgern vorzugaukeln, es gäbe einen anderen, einfacheren Weg, auf dem Griechenland gesunden könnte und alle Härten vermieden würden. Das ist Unsinn.”  Reparem nas palavras: “É perigoso enganar as pessoas” que há um caminho mais fácil para que a Grécia se torne saudável evitando as dificuldades”. O braço de ferro que Tsypras ensaiou através das cartas enviadas sobre renegociação da dívida, tiveram resposta imediata. A Alemanha, não encontrando qualquer valor na união política, está disposta a lançar fora do barco qualquer país que se torne num overburden para os seus desideratos económicos.

Pouco a pouco, vamos tendo os governos europeus chefiados pelos ministros das finanças. Ou por pessoas responsáveis pelas finanças: de bancos, de grandes empresas, de agências de corretagem, etc. À financiarização do capital segue-se a financiarização da política.