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Allons enfants de la Patrie…

Abril 23, 2012

retirado do Le Monde 

E agora França? Bom, agora, aconteça o que acontecer, estas eleições já foram ganhas pela mme Mariane Le Pen. Ela é a grande, gigantesca, vencedora destas eleições. Preocupante, sem dúvida. Se alguém pensou que era impossível fazer mais estragos do que aqueles que o pai Le Pen semeara, think again!, porque a filha dilecta está para lavar e durar.

Mélenchon, podias ter ficado mais próximo da querida da extrema-direita. Mas assim não aconteceu – é o grande perdedor da noite. Porque de que vale desenterrar o partido comunista dos escombros do sarkozismo se à direita, lá bem no outro polo, cresce imparável o fantasma do fascismo?

Resultado: à partida Sarkozy poderia facilmente ganhar a segunda volta das eleições. Por um lado, porque a direita tem uma maioria matemática muitíssimo expressiva e confortável, deixando a esquerda – ou tudo aquilo que se entender colocar debaixo desta difusa definição – a mais de 10 pontos percentuais. Basta que mme Mariane agite o facho do perigo esquerdista, para que as suas hostes se congreguem em torno do nacionalismo salvífico de Sarkozy e que os cantos de cruzado de la france aux français ecoem novamente como círios no bréu da noite. E por que não o faria Mariane? Por que razão não estaria ela disposta a apoiar Sarko?

Primeiro, porque estas eleições configuram pela primeira vez em muitos anos uma possível e iminente reorganização da extrema-direita sob um arco alargado de facções da direita mais conservadora. Marine, quer fazer o pleno à direita, quer um grupo forte parlamentar, e por isso não vai ceder terreno a Sarkozy.

Depois porque é previsível que a base eleitoral de Le Pen cresça nos próximos anos pelo efeito directo do alargamento da sua base sociológica. Desde o pai Le Pen que as sondagens, os estudos, e as próprias campanhas, apontam como base de recrutamento privilegiada uma população com menos habilitações educacionais, precária, operários e ex-operários, enfim, uma base para quem a insegurança social se tornou o repertório quotidiano.

Mas é justamente por isso que a equivalência topológica que é traçada pelos órgãos de comunicação social entre os dois extremos do espectro político, ou seja, entre extrema-direita e extrema-esquerda, como se fossem dois extremos desequilibradores de um espaço de consenso alargado e racional, é essencialmente falsa e manipuladora. A extrema-direita rasura a questão social através do palimpsesto da questão identitária; a esquerda de Mélenchon faz emergir a questão social ao descrever os seus termos fundamentalmente assimétricos.

É aqui que uma aproximação entre a extrema-direita de Le Pen e o jovem Breivick surge como consequente. Também Breivick vindica a questão identitária como o problema essencial de uma normalização política; normalização que apenas pode ser consumada dentro do estrito entendimento de um organicismo nacionalista. A guerra, aliás, a cruzada que Breivick reivindica contra aquilo que uma constelação de tendências diversas de extrema-direita e neo-nazis identificam como sendo a Eurabia não é qualitativamente diferente da redução operada pela Frente Nacional da questão social propriamente dita num combate de identidades. O problema da França, neste imaginário, não são os bons e fiéis imigrantes – os portuguesinhos do chez ton ton – mas os malignos e irredutíveis muçulmanos. Como dizia um imigrante português apoiante de Marine Le Pen, o problema não são os imigrantes – algo que o colocaria como alvo do seu próprio ódio, em suma, no lugar atípico do self hating jew – mas sim, os imigrantes que vivem de subsídios.

Por seu turno, o aproveitamento pusilânime que Sarkozy tem vindo a fazer da questão da imigração (sempre colocada perante uma interrogação, porque nunca determinada numa solução – daí ser sempre “uma questão” em aberto eventualmente) mas dizia, este aproveitamento, não é d’hoje. Em verdade, Sarkozy sempre recorreu ao fantasma do excesso de imigrantes para ganhar eleições – e a França sempre lhe respondeu com bonómica compreensão.  De tal forma, que assim como a extrema-direita foi caucionada através de coligações parlamentares – estratégicas ou fundamentalistas – em países como a Áustria, Itália, Dinamarca, etc, integrando o discurso anti-imigração nas retóricas políticas admissíveis, também Sarkozy muito fez para conceder espaço de disseminação e legitimação a essa mesma retórica. É provável que o ministro da “racaille” tenha feito mais pela ascensão de Le Pen do que alguma vez as simples condições sociais o permitiriam.

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