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Tabu

Abril 19, 2012

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O que dizer de Tabu? Será que o encómio estético chega, e por aqui ficamos porque nada mais nos apraz dizer? Parece-me pouco; bem pouco. Na verdade, podemos inclusivamente afirmar que estamos perante uma reincidência. Também “O querido mês de agosto” foi recebido em ovação por um público germanófilo e por cá teceram-se amplamente abonatórias considerações sobre o filme. O prazer estético sem dúvida; o usufruto da imagem pura, pois então. E era sobre isso que se falava – sobretudo considerações de ordem estética. Só que o cinema de Miguel Gomes presta-se (eventualmente exige) a uma análise da ideologia. Até porque este, sob o manto do purismo fílmico, e das linguagens cinematográficas intocadas pela blockbusterização, esconde todo um programa ideológico, também ele puro, e também ele, reforce-se, apostado na purificação das formas. O purismo  estético e os programas ideológicos sempre conviveram em alegre comunhão.

Comecemos pela sequência de temporalidades em Tabu e pelo seu princípio de significação. A primeira parte, Lisboa contemporânea, algures nos subúrbios onde tudo é lúgubre e acabrunhante, apropriadamente intitulada “paraíso perdido”. Segunda parte, o monte Tabu, vigiando uma luxuriante selva africana, onde homens – negros e brancos – convivem pacificamente, como no génesis, homens e animais também o faziam, aqui é pretos e brancos. Certo, existe um certo cuidado em assinalar uma permanente assimetria de posições sociais: brancos mandam, pretos obedecem; brancos não fazem nada; pretos só trabalham… mas nenhuma crispação, nenhuma revolta. Sabe-se que há um conflito algures e que aquele paraíso, apesar da obstinação dos brancos, tem os dias contados – mas isso não gera grande perturbação nem na vida dos brancos nem dos pretos. Paraíso, portanto: harmonia incontestada e celeste.

Em Lisboa, tudo é diferente: a criada preta manda na branca, criando uma espécie de desequilíbrio efectivo numa ordem ancestral que parecia solidamente implantada na bucólica beatitude do monte Tabu. Os seres de uma África saída dos filmes da RKO persistem num outro universo, mas desta feita em perfeita desagregação, como se a transplantação do paraíso para o mundo do pecado original não resistisse às próprias estruturas de distribuição de privilégios de uma África colonizada. Não nos enganemos: o olhar crítico, nem que fosse um seu assomo proveniente de uma Lisboa pós-colonial encontra-se totalmente ausente em “Tabu”.

Há quem lembre Murnau, a Aurora, a propósito do filme de Miguel Gomes. Mas claro, as imagens da caçadora portuguesa a avançar intrépida pelo capim que é denodadamente cortado por uns pretos de tanga que a precedem invoca a chegada de Riefensthall aos recônditos selvagens intocados pela civilização. E se bem que uma perversa admiração pelo pénis no seu estado de natureza, que assistimos em Riefensthal, não esteja presente em Tabu, não deixa de ser notória a similitude entre a admiração pelo sublime natural em oposição ao hediondo moderno. Sobre isso, e relativamente ao Meu querido mês de Agosto, disse a mesma coisa.

A busca pela pureza, mais concretamente, pelo purismo, no cinema de Miguel Gomes patenteia sempre (da experiência até agora acumulada) a obsessão por uma “condição original não deturpada” que passava, no seu filme anterior, por recuperar uma pureza original da ruralidade, e que continua em Tabu pela oposição entre o paraíso rural africano e a miséria deprimente urbana lisboeta. A oposição rural urbano surge extremamente vincada em na estrutura conceptual do cinema de Gomes. E ela esconde, a meu ver, um outro malefício, ou, o diabo está nos pormenores. Se em Meu querido, é a ordem intemporal do campo que importa manter imperturbável; em Tabu é a ordem intemporal do colonialismo que importa ser representada. Repare-se nos pretinhos em torno dos senhores brancos, imagens invocativas daquelas vinhetas do século XIX onde à centralidade da figura do branco se acrescentava sempre como motivo lateral um pretinho oficiado nas tarefas do bem-estar do seu senhor. Tal como o faraó leva para o túmulo os criados, não querendo dizer com isso que ocupem a mesma posição na morte, mas que são posse do faraó e como tal devem ser contabilizados na passagem para o além, também estes pretinhos e pretinhas partilham o espaço de representação do branco colonial porque lhe pertencem, encontrando-se na prática numa relação de total subordinação. Este lugar representacional, é por definição não agencial. Os pretos de Tabu são, nesse preciso sentido, pretos – decorações não agenciais da ordem colonial. E que dizer do travelogue pelos campos de plantação de algodão tão reminiscentes das imagens dos filmes americanos dos anos 30 que mostravam os escravos em alegre cantoria? Se o trabalho é a única representação da agência possível dos negros, é porque estes são reduzidos à condição de pretos; a agência humana – a paixão, violência, ciúme, dor, morte – essa está toda do lado dos brancos. Animalidade versus humanidade. Natureza versus civilização. Assim mimetiza Tabu os velhos tropos do colonialismo.

Para terminar, no único momento em que os pretos ganham vida para além do lugar que lhes é condicionado pelos brancos, é quando as crianças acorrem à chegada do jipe à tabanca algures no meio do campo. Mas para alguém tão preocupado com os registos puristas do cinema, é quase irónico que sejamos surpreendidos por um cortejo de putos que envergam camisolas com inscrições de marcas americanas. Ora, seria preciso lembrar, estamos em Angola em meados da década de 60 – pouco provável ver putos com tshirts estampadas com Dodgers…

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