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Enfiar o capuz

Abril 19, 2012

Sobre o capuz de Trevor lançou o público uma interessante peça sobre o significado de tão inaudita (?) indumentária. Como não poderia deixar de ser, em matérias como a dívida e o desemprego, falam os economistas; em assuntos grandiloquentes como o capuz, falam sociólogos e antropólogos. Do mal, o menos. E digo-o com inteira convicção de que poderia ser pior – o dia em que sobre capuzes falarem os economistas!

Élas, o esclarecimento dado por pronunciadas luminárias da praça socio-antropológica é fanaticamente partisan, quando não mesmo embrutecido e embrutecedor. Ou talvez a peça jornalística para aí tenha sido conduzida – vamos lá nós saber.

Do capuz dizem-se diversas coisas – interessantes, semiológicas, teoria da recepção e da emissão, e béubéu béu béu – excepto alguma coisa sobre quem usava o capuz. E este quem deve ser escrito em maísculas, ou não fosse ele que mais tarde veio a ser simbolizado pelo protesto de solidariedade dos jogadores da NBA: QUEM usava o capuz?

A pergunta sacramental foi secundarizada pela senhora da peça jornalística, que se interessou mais por se afundar nas brenhas da moda e das suas convulsões. E no entanto dir-se-ia inescapável a decorrência de um jovem negro com capuz para um protesto de jogadores negros da NBA com capuz. E esta aparentemente simples dedução convida a olhar de uma maneira completamente diferente para um acontecimento que envolveu um capuz.

Certo. O cenário do crime comporta um vigilante nocturno armado com uma arma de fogo num país em que estas coisas são consideradas comezinhas. Certo, um negro com um capuz e com um chumaço no bolso da swetshirt no país dos vigilantes nocturnos armados com armas de fogo é ipso facto motivo de suspeição imediata. E por isso – lá vai bala!

Mas não para a nossa jornalista; tão-pouco para os nossos sociólogos. O enigma daquele incidente com o capuz encontra-se concentrado no capuz. Daí até se expenderem considerações sobre a perigosidade latente, terrorista, subversiva do capuz é um passinho… de dança. A jornalista, embevecida, insiste: e isto não pode ser conotado com grupos marginais? Ó labéu delicioso: grupos marginais, minha senhora – eu diria mesmo mais: tribos urbanas! – Responde o nosso consciencioso sociólogo.

Claro está, um tipo bem-apessoado (ou uma tipa) a correr à noite no paredão de Cascais, dificilmente será baleado porque leva capuz. Mutatis mutandis, numa terra onde não existam vigilantes armadas, o perigo de levar com um balázio nos cornos mesmo que estes estejam devidamente protegidos pelo doce aconchego do capuz, diminui exponencialmente.

E o que dizer do capuz enquanto objecto de interpelação sociólogica, antropológica, psicológica, semiológica, e etc, não terá este nenhuma razão de ser? Sim, tem certamente. Só que não foi por isso que Trevor levou uma bala no corpo

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