O cadáver esquisito

A humanização de Margaret Tatcher faz sentido nos tempos que correm? A resposta é definitivamente negativa. Todavia o que ela implica é um problema de uma ordem completamente diversa. A humanização da dama de ferro é o equivalente à entronização de uma ideologia a que se convencionou chamar o tacherianismo. Esta não deve ser confundida com o neoliberalismo embora sejam muitos os pontos de contacto entre ambas. O tacherianismo, formatado em moldes totalmente neoliberais, é certo, não se compreende sem o escrutínio da crítica elaborada pelos Wighs ao consenso do pós-guerra. A mescla de valores caldeados na Inglaterra vitoriana com a ascensão da public choice no período entre as duas guerras, caracteriza a vertente neoliberal representada por Tatcher. O conservantismo britânico, evidentemente, sempre teve uma e uma só ambição: acabar com a presença do Estado na sociedade. Neste sentido, quando Tatcher afirmou que a sociedade não existe, referia-se ao pacto de cidadania elaborado à sombra da tutela de um Estado. A sociedade inexistente do aparelho conceptual tatcherianista é a sociedade do welfare.

Os valores vitorianos são em grande medida os valores do emburguesamento da sociedade e com eles a colocação de uma bitola cultural e moral que se aproxima dos arcaicos valores rurais. Entre estes avulta um fascínio pelas hierarquias intemporais; pelas pessoas certas nos lugares aceitáveis como sendo os únicos; assenta no fundo num princípio de sucessão das elites profundamente endógeno, inatacável, e incorruptível por qualquer força exterior. Este liberalismo tatcheriano nada tem a ver com o liberalismo americano dos anos Reagan, embora se possa dizer que sobre a aparência de uma sociedade em que cada um possui o segredo de prometeu, se instalou uma sociedade de elites, de camadas inamovíveis e de exploração extrema. É um facto. Não obstante, no reaganismo não existe qualquer recurso a uma reinvenção da moral de tipo vitoriano. A elegia ao good old american way, tem como símbolos o homem do oeste selvagem para quem a única testemunha da sua acção é deus. No vitorianismo reelaborado por Tatcher para o final do século xx, a grandeza da Inglaterra possui um timbre clássico de império de alma perdida que se tenta reencontrar. Por isso não convém ver a guerra das Falklands como mera manobra populista, resposta perene ao manobrismo oportunista de uma dama em apuros. A vitória da Inglaterra inscreve-se no prolongamento da visão imperial de antanho. Onde o império tinha sido perdido, em toda a linha e sem recuo possível, sobreviveu a anacronia da conquista das Falklands (também nós tivemos uma símile de reencontro imperialista, delegada em terceiros, que deu pelo nome de independência de Timor Leste). As bandeiras dependuradas das janelas de orgulhosos lares ingleses perante a capitulação argentina, tiveram igualmente entre nós um arremedo pobre no arraial hieráldico motivado pelo Euro 2004. Duas razões populistas, certamente; mas cuja matriz é sobejamente específica: o fantasma do império e os seus mortos que vão dando à costa. Nessa reinvenção imperialista, Tatcher teve o seu leading role. Nem sequer é de estranhar: neoliberalismo combina na perfeição com os agentes da sujeição. Por detrás de um conservador vitoriano, com o seu liberalismo de cabide – onde se penduram chapéus de côco e jaquetas dos anos d’oiro – assoma sempre um princípe maquiavélico: dominar, dominar a todo o custo – na política, como na vida, como nos negócios!

Por isso, a tentativa de refazer Tatcher segundo o modelo femininista “das mulheres que vencem na política” contra um partido efectivamente dominado pelo phallus britânico. Se sim, então o feminismo de Tatcher ficava pela sua ascensão meteórica dentro de um partido cuja tradição era male-centric. E daí não passava. Porque Tatcher cortou nos subsídios para as single mothers, retirou direitos sociais adquiridos cuja incidência era particularmente importante para as mulheres, e nunca dela se ouviu uma palavra que fosse a respeito da paridade entre sexos. Qualquer que fosse o feminismo estava seguramente concentrado na relação especular do Espelho meu, espelho meu – há alguém mais brilhante do que eu?

Enfim, há quem coloque a possibilidade de um aproveitamente da figura draconiana (putativa figura draconiana, provavelmente…) poder servir de emblema para os dias que correm, ou seja, que subjacente a este ressuscitar do espectro da dama de ferro esteja um real desejo pela corporização de uma tal vontade numa liderança à prova de bala. Afinal, também a dama de ferro teve que encetar mudanças profundas que contaram com as mais diversas e encarniçadas resistências. Neste sentido (e apenas neste) seria o arquétipo do homem de vontade (transvestido em mulher de vontade) que o filme pretenderia figurar. Julgo que a fraqueza do filme não lhe permite almejar uma tal encenação de um arremedo de pacto faustiano. Em rigor, fica-se somente pela belíssima interpretação de Meryl Streep e mesmo  que o desejasse nem sequer consegue ser um panfleto consequente do modus operandi do neoliberalismo e da sua refrega ideológica com os direitos sociais. 

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