Allons enfants de la Patrie…

retirado do Le Monde 

E agora França? Bom, agora, aconteça o que acontecer, estas eleições já foram ganhas pela mme Mariane Le Pen. Ela é a grande, gigantesca, vencedora destas eleições. Preocupante, sem dúvida. Se alguém pensou que era impossível fazer mais estragos do que aqueles que o pai Le Pen semeara, think again!, porque a filha dilecta está para lavar e durar.

Mélenchon, podias ter ficado mais próximo da querida da extrema-direita. Mas assim não aconteceu – é o grande perdedor da noite. Porque de que vale desenterrar o partido comunista dos escombros do sarkozismo se à direita, lá bem no outro polo, cresce imparável o fantasma do fascismo?

Resultado: à partida Sarkozy poderia facilmente ganhar a segunda volta das eleições. Por um lado, porque a direita tem uma maioria matemática muitíssimo expressiva e confortável, deixando a esquerda – ou tudo aquilo que se entender colocar debaixo desta difusa definição – a mais de 10 pontos percentuais. Basta que mme Mariane agite o facho do perigo esquerdista, para que as suas hostes se congreguem em torno do nacionalismo salvífico de Sarkozy e que os cantos de cruzado de la france aux français ecoem novamente como círios no bréu da noite. E por que não o faria Mariane? Por que razão não estaria ela disposta a apoiar Sarko?

Primeiro, porque estas eleições configuram pela primeira vez em muitos anos uma possível e iminente reorganização da extrema-direita sob um arco alargado de facções da direita mais conservadora. Marine, quer fazer o pleno à direita, quer um grupo forte parlamentar, e por isso não vai ceder terreno a Sarkozy.

Depois porque é previsível que a base eleitoral de Le Pen cresça nos próximos anos pelo efeito directo do alargamento da sua base sociológica. Desde o pai Le Pen que as sondagens, os estudos, e as próprias campanhas, apontam como base de recrutamento privilegiada uma população com menos habilitações educacionais, precária, operários e ex-operários, enfim, uma base para quem a insegurança social se tornou o repertório quotidiano.

Mas é justamente por isso que a equivalência topológica que é traçada pelos órgãos de comunicação social entre os dois extremos do espectro político, ou seja, entre extrema-direita e extrema-esquerda, como se fossem dois extremos desequilibradores de um espaço de consenso alargado e racional, é essencialmente falsa e manipuladora. A extrema-direita rasura a questão social através do palimpsesto da questão identitária; a esquerda de Mélenchon faz emergir a questão social ao descrever os seus termos fundamentalmente assimétricos.

É aqui que uma aproximação entre a extrema-direita de Le Pen e o jovem Breivick surge como consequente. Também Breivick vindica a questão identitária como o problema essencial de uma normalização política; normalização que apenas pode ser consumada dentro do estrito entendimento de um organicismo nacionalista. A guerra, aliás, a cruzada que Breivick reivindica contra aquilo que uma constelação de tendências diversas de extrema-direita e neo-nazis identificam como sendo a Eurabia não é qualitativamente diferente da redução operada pela Frente Nacional da questão social propriamente dita num combate de identidades. O problema da França, neste imaginário, não são os bons e fiéis imigrantes – os portuguesinhos do chez ton ton – mas os malignos e irredutíveis muçulmanos. Como dizia um imigrante português apoiante de Marine Le Pen, o problema não são os imigrantes – algo que o colocaria como alvo do seu próprio ódio, em suma, no lugar atípico do self hating jew – mas sim, os imigrantes que vivem de subsídios.

Por seu turno, o aproveitamento pusilânime que Sarkozy tem vindo a fazer da questão da imigração (sempre colocada perante uma interrogação, porque nunca determinada numa solução – daí ser sempre “uma questão” em aberto eventualmente) mas dizia, este aproveitamento, não é d’hoje. Em verdade, Sarkozy sempre recorreu ao fantasma do excesso de imigrantes para ganhar eleições – e a França sempre lhe respondeu com bonómica compreensão.  De tal forma, que assim como a extrema-direita foi caucionada através de coligações parlamentares – estratégicas ou fundamentalistas – em países como a Áustria, Itália, Dinamarca, etc, integrando o discurso anti-imigração nas retóricas políticas admissíveis, também Sarkozy muito fez para conceder espaço de disseminação e legitimação a essa mesma retórica. É provável que o ministro da “racaille” tenha feito mais pela ascensão de Le Pen do que alguma vez as simples condições sociais o permitiriam.

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Tabu

Imagem

O que dizer de Tabu? Será que o encómio estético chega, e por aqui ficamos porque nada mais nos apraz dizer? Parece-me pouco; bem pouco. Na verdade, podemos inclusivamente afirmar que estamos perante uma reincidência. Também “O querido mês de agosto” foi recebido em ovação por um público germanófilo e por cá teceram-se amplamente abonatórias considerações sobre o filme. O prazer estético sem dúvida; o usufruto da imagem pura, pois então. E era sobre isso que se falava – sobretudo considerações de ordem estética. Só que o cinema de Miguel Gomes presta-se (eventualmente exige) a uma análise da ideologia. Até porque este, sob o manto do purismo fílmico, e das linguagens cinematográficas intocadas pela blockbusterização, esconde todo um programa ideológico, também ele puro, e também ele, reforce-se, apostado na purificação das formas. O purismo  estético e os programas ideológicos sempre conviveram em alegre comunhão.

Comecemos pela sequência de temporalidades em Tabu e pelo seu princípio de significação. A primeira parte, Lisboa contemporânea, algures nos subúrbios onde tudo é lúgubre e acabrunhante, apropriadamente intitulada “paraíso perdido”. Segunda parte, o monte Tabu, vigiando uma luxuriante selva africana, onde homens – negros e brancos – convivem pacificamente, como no génesis, homens e animais também o faziam, aqui é pretos e brancos. Certo, existe um certo cuidado em assinalar uma permanente assimetria de posições sociais: brancos mandam, pretos obedecem; brancos não fazem nada; pretos só trabalham… mas nenhuma crispação, nenhuma revolta. Sabe-se que há um conflito algures e que aquele paraíso, apesar da obstinação dos brancos, tem os dias contados – mas isso não gera grande perturbação nem na vida dos brancos nem dos pretos. Paraíso, portanto: harmonia incontestada e celeste.

Em Lisboa, tudo é diferente: a criada preta manda na branca, criando uma espécie de desequilíbrio efectivo numa ordem ancestral que parecia solidamente implantada na bucólica beatitude do monte Tabu. Os seres de uma África saída dos filmes da RKO persistem num outro universo, mas desta feita em perfeita desagregação, como se a transplantação do paraíso para o mundo do pecado original não resistisse às próprias estruturas de distribuição de privilégios de uma África colonizada. Não nos enganemos: o olhar crítico, nem que fosse um seu assomo proveniente de uma Lisboa pós-colonial encontra-se totalmente ausente em “Tabu”.

Há quem lembre Murnau, a Aurora, a propósito do filme de Miguel Gomes. Mas claro, as imagens da caçadora portuguesa a avançar intrépida pelo capim que é denodadamente cortado por uns pretos de tanga que a precedem invoca a chegada de Riefensthall aos recônditos selvagens intocados pela civilização. E se bem que uma perversa admiração pelo pénis no seu estado de natureza, que assistimos em Riefensthal, não esteja presente em Tabu, não deixa de ser notória a similitude entre a admiração pelo sublime natural em oposição ao hediondo moderno. Sobre isso, e relativamente ao Meu querido mês de Agosto, disse a mesma coisa.

A busca pela pureza, mais concretamente, pelo purismo, no cinema de Miguel Gomes patenteia sempre (da experiência até agora acumulada) a obsessão por uma “condição original não deturpada” que passava, no seu filme anterior, por recuperar uma pureza original da ruralidade, e que continua em Tabu pela oposição entre o paraíso rural africano e a miséria deprimente urbana lisboeta. A oposição rural urbano surge extremamente vincada em na estrutura conceptual do cinema de Gomes. E ela esconde, a meu ver, um outro malefício, ou, o diabo está nos pormenores. Se em Meu querido, é a ordem intemporal do campo que importa manter imperturbável; em Tabu é a ordem intemporal do colonialismo que importa ser representada. Repare-se nos pretinhos em torno dos senhores brancos, imagens invocativas daquelas vinhetas do século XIX onde à centralidade da figura do branco se acrescentava sempre como motivo lateral um pretinho oficiado nas tarefas do bem-estar do seu senhor. Tal como o faraó leva para o túmulo os criados, não querendo dizer com isso que ocupem a mesma posição na morte, mas que são posse do faraó e como tal devem ser contabilizados na passagem para o além, também estes pretinhos e pretinhas partilham o espaço de representação do branco colonial porque lhe pertencem, encontrando-se na prática numa relação de total subordinação. Este lugar representacional, é por definição não agencial. Os pretos de Tabu são, nesse preciso sentido, pretos – decorações não agenciais da ordem colonial. E que dizer do travelogue pelos campos de plantação de algodão tão reminiscentes das imagens dos filmes americanos dos anos 30 que mostravam os escravos em alegre cantoria? Se o trabalho é a única representação da agência possível dos negros, é porque estes são reduzidos à condição de pretos; a agência humana – a paixão, violência, ciúme, dor, morte – essa está toda do lado dos brancos. Animalidade versus humanidade. Natureza versus civilização. Assim mimetiza Tabu os velhos tropos do colonialismo.

Para terminar, no único momento em que os pretos ganham vida para além do lugar que lhes é condicionado pelos brancos, é quando as crianças acorrem à chegada do jipe à tabanca algures no meio do campo. Mas para alguém tão preocupado com os registos puristas do cinema, é quase irónico que sejamos surpreendidos por um cortejo de putos que envergam camisolas com inscrições de marcas americanas. Ora, seria preciso lembrar, estamos em Angola em meados da década de 60 – pouco provável ver putos com tshirts estampadas com Dodgers…

Coelhos da Cartola

José Manuel Coelho, protagonista de mais um bizarro episódio na casa da democracia madeirense par excelence, viu-se ameaçado de prisão pelo presidente da Assembleia. A acusação era assaz grave: nem mais nem menos do que incitação à sedição.

Sabemos como a democracia, e em especial a madeirense, tem uma dificuldade estrutural em conviver com certos termos que perturbem a santa paz dos consensos pluralistas. Mas como fica demonstrado pelo sucedido na Madeira, os consensos pluralistas são por vezes mantidos à cacetada – ou não fosse a expulsão de Coelho, ao murro e empurrão, um procedimento – sem dúvida arquitectado na hora -, de manutenção da paz consensualista.

A aporia contida na afirmação do presidente da assembleia passou evidentemente desapercebida àquela cambada de labrostas de gravata habituados a irem à caça nas reservas cinegéticas de Jardim: ou seja – a classe política madeirense. Fossem eles dados a remoimentos filosóficos e políticos e veriam que não se pode acusar ninguém de incitação à violência depois deste ter sido violentamente expulso do hemiciclo sem cair no pecado da contradictio in terminus. Cortar a palavra ao deputado, agarrando-o pelos colarinhos e colocá-lo fora da sala ao pontapé, é puro exercício de violência. Daí que ver aquilo – sobretudo as pobres das crianças obrigadas a assistirem ao telejornal à hora do jantar quando prefeririam estar a ver os simpsons – é incitação à violência q.b. 

Enfiar o capuz

Sobre o capuz de Trevor lançou o público uma interessante peça sobre o significado de tão inaudita (?) indumentária. Como não poderia deixar de ser, em matérias como a dívida e o desemprego, falam os economistas; em assuntos grandiloquentes como o capuz, falam sociólogos e antropólogos. Do mal, o menos. E digo-o com inteira convicção de que poderia ser pior – o dia em que sobre capuzes falarem os economistas!

Élas, o esclarecimento dado por pronunciadas luminárias da praça socio-antropológica é fanaticamente partisan, quando não mesmo embrutecido e embrutecedor. Ou talvez a peça jornalística para aí tenha sido conduzida – vamos lá nós saber.

Do capuz dizem-se diversas coisas – interessantes, semiológicas, teoria da recepção e da emissão, e béubéu béu béu – excepto alguma coisa sobre quem usava o capuz. E este quem deve ser escrito em maísculas, ou não fosse ele que mais tarde veio a ser simbolizado pelo protesto de solidariedade dos jogadores da NBA: QUEM usava o capuz?

A pergunta sacramental foi secundarizada pela senhora da peça jornalística, que se interessou mais por se afundar nas brenhas da moda e das suas convulsões. E no entanto dir-se-ia inescapável a decorrência de um jovem negro com capuz para um protesto de jogadores negros da NBA com capuz. E esta aparentemente simples dedução convida a olhar de uma maneira completamente diferente para um acontecimento que envolveu um capuz.

Certo. O cenário do crime comporta um vigilante nocturno armado com uma arma de fogo num país em que estas coisas são consideradas comezinhas. Certo, um negro com um capuz e com um chumaço no bolso da swetshirt no país dos vigilantes nocturnos armados com armas de fogo é ipso facto motivo de suspeição imediata. E por isso – lá vai bala!

Mas não para a nossa jornalista; tão-pouco para os nossos sociólogos. O enigma daquele incidente com o capuz encontra-se concentrado no capuz. Daí até se expenderem considerações sobre a perigosidade latente, terrorista, subversiva do capuz é um passinho… de dança. A jornalista, embevecida, insiste: e isto não pode ser conotado com grupos marginais? Ó labéu delicioso: grupos marginais, minha senhora – eu diria mesmo mais: tribos urbanas! – Responde o nosso consciencioso sociólogo.

Claro está, um tipo bem-apessoado (ou uma tipa) a correr à noite no paredão de Cascais, dificilmente será baleado porque leva capuz. Mutatis mutandis, numa terra onde não existam vigilantes armadas, o perigo de levar com um balázio nos cornos mesmo que estes estejam devidamente protegidos pelo doce aconchego do capuz, diminui exponencialmente.

E o que dizer do capuz enquanto objecto de interpelação sociólogica, antropológica, psicológica, semiológica, e etc, não terá este nenhuma razão de ser? Sim, tem certamente. Só que não foi por isso que Trevor levou uma bala no corpo

Europálida

A Europa d’hoje suscita um misto de admiração e repugnância. Admiração porque continua a ser bela, historicamente encantadora, reveladoramente cultural, fantasiosamente artística (um quê de barroco e rococó que se lhe desprende dos capitéis a imitarem as alturas a que chegou a pax romana). Repugnante, porque associa alegremente ao seu fausto, uma sórdida miséria, de gente perdida, abandonada, não resgatável pelos desígnios da lógica criadora instituída. As cidades são paradoxos feitos pedra e traçados irregulares. Convivem como se dois mundos paralelos se tratassem – desconhecendo-se um ao outro como alguém desconhece as suas mais virais intensões – os privilégios de alguns com as necessidades de todos os outros. Sobre o trabalho de gente vergada, erege-se o edifício de eficácia comprovada do yupismo europeu. Onde uns limparam – geralmente a desoras, a horas que nem gatos nem cães vegetam pelas ruas – apenas condutores de comboios –, sentam os reais cus os outros em perdulária chavasquice. Um exército de formigas ajuda estes titãs das vendas a viver que nem nababos. O mais curioso é que ninguém quer ficar do lado das formigas e todos querem – mui racionalmente – ascender às montanhas onde vivem os titãs. E isto apesar de os titãs – especialistas na arte usurária da venda – convencerem permanentemente as formigas de que eles, a bem da realidade, é que são as formigas, e o carreiro que lhes segura o real traseiro e os transporta nas asas do doce néctar dos deuses ser na realidade um rebanho de conformados calões. Quando não passam a arruaceiros. O medo que a Europa tem da arruaça é uma coisa fantástica. E isto não está no país x ou y ou z – mas em todos.

O cadáver esquisito

A humanização de Margaret Tatcher faz sentido nos tempos que correm? A resposta é definitivamente negativa. Todavia o que ela implica é um problema de uma ordem completamente diversa. A humanização da dama de ferro é o equivalente à entronização de uma ideologia a que se convencionou chamar o tacherianismo. Esta não deve ser confundida com o neoliberalismo embora sejam muitos os pontos de contacto entre ambas. O tacherianismo, formatado em moldes totalmente neoliberais, é certo, não se compreende sem o escrutínio da crítica elaborada pelos Wighs ao consenso do pós-guerra. A mescla de valores caldeados na Inglaterra vitoriana com a ascensão da public choice no período entre as duas guerras, caracteriza a vertente neoliberal representada por Tatcher. O conservantismo britânico, evidentemente, sempre teve uma e uma só ambição: acabar com a presença do Estado na sociedade. Neste sentido, quando Tatcher afirmou que a sociedade não existe, referia-se ao pacto de cidadania elaborado à sombra da tutela de um Estado. A sociedade inexistente do aparelho conceptual tatcherianista é a sociedade do welfare.

Os valores vitorianos são em grande medida os valores do emburguesamento da sociedade e com eles a colocação de uma bitola cultural e moral que se aproxima dos arcaicos valores rurais. Entre estes avulta um fascínio pelas hierarquias intemporais; pelas pessoas certas nos lugares aceitáveis como sendo os únicos; assenta no fundo num princípio de sucessão das elites profundamente endógeno, inatacável, e incorruptível por qualquer força exterior. Este liberalismo tatcheriano nada tem a ver com o liberalismo americano dos anos Reagan, embora se possa dizer que sobre a aparência de uma sociedade em que cada um possui o segredo de prometeu, se instalou uma sociedade de elites, de camadas inamovíveis e de exploração extrema. É um facto. Não obstante, no reaganismo não existe qualquer recurso a uma reinvenção da moral de tipo vitoriano. A elegia ao good old american way, tem como símbolos o homem do oeste selvagem para quem a única testemunha da sua acção é deus. No vitorianismo reelaborado por Tatcher para o final do século xx, a grandeza da Inglaterra possui um timbre clássico de império de alma perdida que se tenta reencontrar. Por isso não convém ver a guerra das Falklands como mera manobra populista, resposta perene ao manobrismo oportunista de uma dama em apuros. A vitória da Inglaterra inscreve-se no prolongamento da visão imperial de antanho. Onde o império tinha sido perdido, em toda a linha e sem recuo possível, sobreviveu a anacronia da conquista das Falklands (também nós tivemos uma símile de reencontro imperialista, delegada em terceiros, que deu pelo nome de independência de Timor Leste). As bandeiras dependuradas das janelas de orgulhosos lares ingleses perante a capitulação argentina, tiveram igualmente entre nós um arremedo pobre no arraial hieráldico motivado pelo Euro 2004. Duas razões populistas, certamente; mas cuja matriz é sobejamente específica: o fantasma do império e os seus mortos que vão dando à costa. Nessa reinvenção imperialista, Tatcher teve o seu leading role. Nem sequer é de estranhar: neoliberalismo combina na perfeição com os agentes da sujeição. Por detrás de um conservador vitoriano, com o seu liberalismo de cabide – onde se penduram chapéus de côco e jaquetas dos anos d’oiro – assoma sempre um princípe maquiavélico: dominar, dominar a todo o custo – na política, como na vida, como nos negócios!

Por isso, a tentativa de refazer Tatcher segundo o modelo femininista “das mulheres que vencem na política” contra um partido efectivamente dominado pelo phallus britânico. Se sim, então o feminismo de Tatcher ficava pela sua ascensão meteórica dentro de um partido cuja tradição era male-centric. E daí não passava. Porque Tatcher cortou nos subsídios para as single mothers, retirou direitos sociais adquiridos cuja incidência era particularmente importante para as mulheres, e nunca dela se ouviu uma palavra que fosse a respeito da paridade entre sexos. Qualquer que fosse o feminismo estava seguramente concentrado na relação especular do Espelho meu, espelho meu – há alguém mais brilhante do que eu?

Enfim, há quem coloque a possibilidade de um aproveitamente da figura draconiana (putativa figura draconiana, provavelmente…) poder servir de emblema para os dias que correm, ou seja, que subjacente a este ressuscitar do espectro da dama de ferro esteja um real desejo pela corporização de uma tal vontade numa liderança à prova de bala. Afinal, também a dama de ferro teve que encetar mudanças profundas que contaram com as mais diversas e encarniçadas resistências. Neste sentido (e apenas neste) seria o arquétipo do homem de vontade (transvestido em mulher de vontade) que o filme pretenderia figurar. Julgo que a fraqueza do filme não lhe permite almejar uma tal encenação de um arremedo de pacto faustiano. Em rigor, fica-se somente pela belíssima interpretação de Meryl Streep e mesmo  que o desejasse nem sequer consegue ser um panfleto consequente do modus operandi do neoliberalismo e da sua refrega ideológica com os direitos sociais.