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A metamorfose do narciso gay

Dezembro 10, 2011

A Pele Onde Eu Vivo é um dos piores filmes de Almodóvar. Isto é crime de lesa cinefilia, posto que nunca se usa qualificantes como melhor, pior, mais ou menos, assim. Mas enfim, o filme é seguramente o que de pior saiu das mãos do realizador. Primeiro, temos que falar da continuidade que existe entre este A Pele e o Habla con Ella. Continuidade surpreendente que não tem sido assinalada pelos críticos, porém julgo poder dizer-se que ela é inequívoca. A questão da mutação do corpo masculino em feminino surgia em Habla con Ella; surgia de maneira subreptícia, com certeza, mas com o poder de servir de força centrípeta. Lembremos a imagem a preto e branco, imagem onírica que se quer em sépia posto que define um passado que só acontece no território dos sonhos, mas lembremos mesmo assim essa famosa imagem – famosa, porque ela é central no trailer – e o que vemos é um homem, mais concretamente o enfermeiro que toma conta da mulher vegetalizada, a entrar na vagina de uma mulher cujo gigantismo lhe permite andar a passear por entre os seios e coxas. A primeira reacção seria dizer: ora aí está o desejo de penetração! Mas só chegamos a essa conclusão a partir de um desconhecimento total do cinema de Almodóvar. E este tem em grande medida como leit motiv quase constante a mutação do corpo masculino em feminino: é assim em Saltos Altos, Mal Educación, Tudo sobre a minha mãe, e Habla con Ella (outros haveria para referir, mas onde o imaginário da transmudação sexual não se encontra tão presente). Ora a entrada do corpo do homem na vagina da mulher em Habla com Ella não expressa o desejo de penetração, mas antes o desejo de assumir o corpo feminino a partir de dentro. O homem entra no interior do corpo da mulher, cuja cabeça nós não vimos, e assume-a a partir de dentro; ou seja, o feminino apropria-se do masculino, porque é o primeiro que constitui a verdade do corpo. A continuidade entre esta figuração da transmudação sexual atinge o seu paroxismo em A Pele onde Eu Vivo. Aqui o corpo massacrado da mulher tem que ser reinventado num corpo masculino para que readquira a verdade do corpo feminino. É como se Almodóvar nos dissesse que a beleza do corpo feminino só adquire a sua plenitude quando refigurado no masculino.

O problema começa quando Almodóvar se esquece do filme, daquela coisa que são os personagens, e  fixa-se em absoluto à sua fantasia gay metamórfica. Sem personagens para além de fantasmas investidos do sonho erótico almodovariano, o filme é como um convite a uma noite de pululação nocturna do adolescente Almodóvar. Depois da aspersão, vira-mo-nos para o lado e bocejamos.

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