A deseuropaização

VGM acertou na mouche. O tipo é esperto que nem um alho, e agora, desajoujado de responsabilidades governativas ou estatais, diz o que pensa sem rebuços. Por isso, quando interrogado sobre a inauguração da Guimarães – Capital da Cultura, colocou os pontos nos is, para surpresa do jornalista, e disse que essa coisa pouco sentido faz numa Europa, passo a citar, esfrangalhada. E está coberto de razão: primeiro, porque as Capitais da Cultura são um símbolo de qualquer coisa a que se poderia chamar cultura europeia, e esta só é compreensível dando como adquirido a existência de uma identidade europeia. Ora, nunca como hoje, este conceito especular, que tanto trabalho para construir tem dado às diversas instituições europeias, esteve mais em dúvida, mais evanescente, mais carente de significado e referente(s). Neste sentido, VGM que há dez anos atrás teria eventualmente tecido um discurso sobre o berço da nação e a mitologia que em torno dele se ergue, colocou como pontos crucias saber quanto custa aquela merda e se compensará o retorno de uma tal empreitada. É toda uma ideia de Europa que passa actualmente por uma severa desacreditação; todo um golpe de prestidigitação cujo truque surge de repente revelado e que se mostra como mera mecânica dos símbolos.

Verdade que as Capitais Europeias são boas para o turismo. Ou pelo menos assim se espera. Verdade também que as Capitais Europeias dão muita massa a ganhar a uma quantidade de gente que se une estilo máfia em torno de tais empreendimentos: é a partilha dos despojos de guerra, do que resta de uma Europa esfrangalhada. Também este modismo irá passar. Só interessa construir e investir numa mirífica identidade europeia enquanto esta for rentabilizável. Contudo, o que acontece quando o berço nacional Guimarães assume simultaneamente o lugar ambíguo de representante cultural europeu e de país que faz perigar essa unidade com a sua traição a um euro forte? A meu ver, a Europa não lhe perdoará se isso significar atentar contra o seu signo incorporador: o Euro.

Ich bin ein Engländer

Diversos são os liberais babados com a jogada de Cameron. Os liberais são geralmente meio aparvalhados, e isto porque vêem sempre o mundo segundo a sua medida – que curiosamente dizem ser a mais aberta e abrangente de todas, e isso é igualmente sintomático da sua miopia. Acrescente-se-lhe o conservadorismo que crisma a maioria dos nossos ditos liberais, e a miopia passa a crónica, doentia, desfechada invariavelmente em cegueira. Em resumo, os liberais conservadores são burros. E como se isso não bastasse, são burros convencidos.

Por isso, olhamos para o seu contentamento infantil e ficamos logo desconfiados se a mioleira ali ainda trabalha. O contentamento infantilóide, pois, pois, e com o quê? Com a vitória da democracia britânica contra a tirania germânica. Alguns deles (quase que os vejo) enfiaram um penico na cabeça e julgam que estão nas trincheiras a combater os bosches. Mas todos se sentem ingleses, e a acompanhar este sentimento nacionalista, o mais interessante dos sentimentos, porque comunga do nacionalismo dos outros, ou de um nacionalismo outro, e a acompanhá-lo ergue-se essa orgulhosa identificação com a mais pura forma de democracia – Westminster and the Union Jack!

Assim, encontramos JMF a celebrar a vitória da democracia, a verdadeira, não a postiça, como a francesa, ou a alemã, aquela viçosa democracia do Great last of the Moguls, Murdock e a sua equipa de “moles” jornalísticas, político-pidosa. Tudo bem, a pátria de sua majestade the Queen sobrevive a isso e mais o que houver. Se em tempos uma providencial tempestade erradicou das superfícies oceânicas uma tal de armada dita invencível, porque razão não hão-de os nossos ditos liberais lançar urros de contentamento com a Cameron move? E não os derrotámos em Waterloo, a esses amantes de croissants e das belles lettres, nós os britânicos, os tories ali do Baixo Vouga e da Beloura?  Comunguemos então, com os nossos liberais, o orgulho de sermos súbditos de sua majestade.

P’ra boi dormir

MSP diz que se revê no que diz Pacheco Pereira. Pois faz mal, porque quando nos revemos em PPereira é porque algo está muito turvo nas nossas lentes. No artigo em questão, a propósito do “federalismo autoritário” imposto pela Alemanha, PPereira afirma: Aliás, em muitos países é só esperar para ver crescer movimentos nacionalistas e populistas anti-europeus, tendo como alvo a Alemanha e os actuais dirigentes europeus e sequiosa de atirar fora o menino e a água do banho. Até faria sentido, não se desse o caso de o mesmo PPereira ter vociferado até à rouquidão contra as sanções impostas ao governo de coligação austríaco com o então FPO liderado por Haider, uma das forças mais anti-europeias e nacionalistas que vegetavam na Europa dos 15. Mas não é tudo. Em 2001, o intelectual campeador da democracia saía em defesa da coligação, ainda mais sexy, feita entre a Forza Italia de Berlusconi e a Lega Nord de Fini, que tinha por lema reactivar os campos de trabalho para os imigrantes, e que brandia na altura uma linguagem ultranacionalista. Afirmou então Pereira, Há uma enorme duplicidade em todas estas coisas. Não há nenhuma razão para que se sancionasse o governo da Áustria nem para que se sancione o governo da Itália. Não havia, portanto, nenhuma razão para que se tomasse uma cautela acrescida contra coligações de inspiração neofascista que disseminavam um populismo ultranacionalista. Não, para PPereira a coisa estava conforme os mais estimados e preciosos mecanismos da democracia – era a escolha do povo.

A preocupação actual com a irrupção de movimentos nacionalistas tinge-se pois da velha hipocrisia pereirista. Aliás, só um cínico é que podia achar que a tendência não grassava há muito no seio da europa comunitária. Só um cínico – um mestre, na realidade -, poderia pensar e, mais grave, dizer, que Haider e Fini eram perfeitamente aceitáveis numa europa democrática ou achar muito bem as manifestações de skinheads a favor de Le Pen. Para além disso, deve ter-lhe passado despercebida a ascensão fulminante de partidos nacionalistas na Húngria, Eslováquia e Letónia, só para falar de alguns; ou ainda, num lado supostamente mais civilizado do espectro europeu, o nacionalismo endémico de Pia  Kjersgaard na Dinamarca, uma das faces mais perturbantes do nacionalismo no eixo norte europeu. Perante tanta falta de atenção, donde virá esta súbita preocupação pereirista com o “crescer de partidos nacionalistas e anti-europeus”?

Melancholia

Há um poema de Milton (na verdade são dois) chamado L’Allegro & Il Penseroso onde, seguindo bem de perto os conhecimentos científicos da época, a cada sentimento é associado um estado físico. Não estariam totalmente errados os pensadores da época, e o próprio Milton, visto que actualmente é comummente aceite que há uma sintomatologia psicossomática. Em linguagem romântica, entre o corpo e os estados de espírito existe uma continuidade.

Gostaria de começar por aí: a continuidade entre o corpo e o espírito em Melancholia. Claro que o filme é sobre a depressão. Contrariamente ao que um bem pouco avisado crítico do Público nele viu, para quem Melancholia é a epítome do filme catástrofe falhado. Nem filme catástrofe nem ficção científica como alguns ainda mais afoitos e burros aventaram, propondo que se tratava de uma incursão de Von Trier pelos caminhos da ficção científica. Longe disso. Muito longe disso.

Melancholia é um filme sobre a depressão feito por um depressivo narcísico. Mas daí não vem qualquer mal ao mundo. Pela primeira vez na história do cinema, em minha opinião, a depressão surge como canal artístico. Não se trata de figurar a depressão cinematograficamente mas antes de criar cinema através dela. Utilizar-lhe o potencial criativo jogando em seu favor e simultaneamente despojando-a do seu potencial destrutivo transmudando-o em objecto artístico. Muitos foram os poetas e os pintores que a utilizaram no passado. Mas no cinema era raro se é que alguma vez ela irrompeu com esta força modeladora do objecto fílmico.

Melancholia é isso, um trajecto sobre o corpo deprimido, mas que não cai na evidência de ser um filme depressivo. Em Melancholia, o nome do planeta destruidor, exerce-se um fascínio sobre a depressão e a condição do corpo deprimido. Fascínio doentio? Talvez. Autocomprazimento narcísico? Sem dúvida. E depois? A beleza de Melancholia (o planeta), o fascínio que ele exerce como vontade de destruição – mas interior, por isso é que não pode nunca ser equacionado com um filme catástrofe – o profundo isolamento de todos os seus personagens, e o namoro libidinoso que se tece entre a pulsão destrutiva e a personagem de Kirsten Dunst fazem com que Melancholia (o filme) fale a linguagem da depressão. A melancolia era o nome pelo qual a doença que hoje conhecemos como depressão era conhecida. Os depressivos tinham uma disposição melancólica, e morria-se de melancolia.

Von Trier corteja a depressão como alguém que abraçasse uma dança com a morte. A dança do planeta Melancholia em torno da terra.

 

A Távola rombóide

O Reino Unido saiu penalizado da conferência europeia? Só se alguma vez estivesse estado interessado em participar no projecto europeu (quando ele ainda era projecto). Nunca tal aconteceu. E isto é fácil de perceber. Desde logo porque agora, como disse Habermas não contendo o espanto perante a sua própria ilusão, está a nu o que ele representa: uma moeda única a ser defendida custe o que custar, e sobretudo a ser defendida com o valor que o poder económico alemão lhe prodigaliza. Para quem percebesse a mecânica da sociedade europeia, para quem estivesse a par dos seus bastidores, como Cameron obviamente está, há muito que chegou à conclusão que a arquitectura europeia serve apenas para segurar uma moeda forte, e tudo o resto é uma ganga mais ou menos heterogénea coberta da patina do europês, ou seja, doses cavalares de ideologia mistificadora sobre o que significa ser europeu. Cameron sabe tão bem como os restantes 27 que não significa rigorosamente nada. Por isso o veto inglês não coloca o país em nenhuma situação singular – só o faria caso ele tivesse aderido ao euro. E nesse caso, e apenas nesse caso, o veto poderia ser considerado um sinal de ruptura. Mas evidentemente quanto se veta algo a que nunca se aderiu estamos em presença de um gesto vazio. E Cameron sabe bem que não arriscou coisa nenhuma.

Circula no entanto por aí uma teoria sobre o isolacionismo a que Cameron se votou ao dar este passo. Absurdo. Pergunta-se VGM com a desinteligência que lhe é característica, que língua falarão nestas conferências? Rematando que só pode tratar-se do pigdin, uma forma abastardada de inglês, que ele, formado em Oxford reputa de menor. Pois bem, se VGM se desse ao trabalho de pensar em vez de lançar atoardas facilmente concluiria que o pigdin pode ser o que se fala nos salões e nos corredores, mas é em inglês que a UE escreve. E isto não é de somenos, nem para a UE nem para a manobra de Cameron. O Reino Unido sempre teve um ascendente poderoso sobre a UE não apenas porque é economicamente poderoso, mas porque é simbolicamente hegemónico. Tudo o que a UE produz tem uma língua, o inglês. Não me refiro aos documentos oficiais, à legislação, aos tratados, que de qualquer das formas são  traduzidos para cada uma das línguas dos 27. Refiro-me sim à produção quotidiana, desde o email entre departamentos passando pelas reuniões entre chefes e empregados e acabando nos relatórios, todo o registo escrito e falado sem excepção é trocado em inglês. Por isso os funcionários ingleses são cruciais no arrastar desta imensa máquina que é a burocracia europeia. Sem eles, não é possível produzir para o exterior na língua franca, que desta feita deixou de ser o pigdin, e passou a ser irredutivelmente o inglês. Foi por isso também que o Reino Unido sempre conseguiu estar com um pé dentro e outra fora: enquanto a sua adesão política era vigiada e limitada, a sua ocupação da burocracia e serviços da UE era total. Dá que pensar como é que um país que mostra tantas reservas em abraçar o projecto europeu tenha tantos funcionários colocados em lugares estratégicos da máquina que faz aparentemente avançar esse projecto.

Conclusão, Cameron não ficou mais de fora do que estava anteriormente. Ficou na posição ambígua que sempre o Reino Unido pretendeu – e é nessa condição que melhor manobra.

Os infortúnios de uma estranha virtude

Ler ultimamente Pacheco Pereira é uma experiência de estranhamento fascinante. O pereirismo cedeu o lugar à crítica veemente de tudo aquilo que antes era endeusado. A conversa de Passos Coelho e do seu governo é economês-politiquês, como se os líderes do PSD de Cavaco a Ferreira Leite alguma vez tivessem falado outra coisa. A defesa do Tua património da humanidade, embora o autor desminta logo de entrada (público d’hoje) algum amor extemporâneo pela causa verde, é prontamente assumida na linguagem dos repudiados ecologistas: a urze, os arbustos, a experiência autêntica da mãe terra, etc. Se alguém duvidasse do pendor ecologista de PPereira rapidamente deixaria cair a sua desconfiança perante esta peça de esplendoroso amor ecológico.

A desonestidade intelectual de PPereira é lendária. Ela inscreve-se em tantas e tão notáveis páginas de jornalismo opinativo e de reflexão sociopolítica, que é difícil a ela não nos rendermos. A rendição começa evidentemente por aceitarmos que uma coisa pode ser uma coisa hoje, e daqui a dez anos outra totalmente diferente. Por exemplo, ontem Cavaco era um homem de visão, atacado por uma elite lisboeta sebenta que julga que a política se faz com um recurso intensivo às beaux lettres. O economês de que então era acusado servia apenas para PPereira deleitar-se na inventividade do mestre. Manuela Ferreira Leite, que nunca outra coisa falou se não o economês, recebia blogosféricos buquets com dedicatórias pessoais solidárias e de intenso afecto. Passos Coelho que não faz mais nada do que continuar a longa lista de economês-politiquês que salvo raras excepções o seu partido sempre falou, surge agora para PPereira como paroxismo da vacuidade economicista.

Um dia ainda veremos PPereira a defender encarniçadamente o Estado Palestiniano.