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E assim aconteceu – day after

Novembro 25, 2011

Vêem-se as primeiras páginas dos jornais, lêem-se as suas paragonas aflitivas, e ficamos com a impressão que ontem houve uma batalha campal defronte do centro político institucional da nação, a dita Assembleia da República. Desde “grupos anarquistas infiltrados” até “graves atropelos à lei” todo o disparate é publicado, todo o enviesamento é permitido. Na grape vine, na vozearia constante de cafés e lojas, sugerem as opiniões (as públicas, mas não publicadas) que houve excessos imperdoáveis, invasões de rapina ao centro comercial do Chiado, afrontas violentas à lei e à ordem. E a ordem, segundo o DN, antevê desacatos generalizados – e prepara-se. A bola de neve começa a rola pela encosta, e donde apenas restaram uns fogachos de liberdade, já fez uma perigosa revolução anarquista. Estivéssemos em período pós-natalício, com os saldos a caírem sobre as montras como neve artificial que se tivesse desejado sobre o presépio, e seria uma salutar invasão de uma multidão de compradores ávidos dos prémios abnegadamente ofertados por lojistas e publicistas. Mas não. A invasão do Chiado lançou o pânico sobre comerciantes e balconistas que rezavam pelos seus santos mais devotos para escaparem à carnificina dos bárbaros. E não é que aquele foi o momento mais interessante, pela sua apropriação do que deveria ser um espaço público, mas apenas o é para conveniência do consumo; investida carnavalesca de transgressão de um limite artificialmente imposto. E nós até julgávamos que aqueles corredores herméticos por onde passeamos ao fim-de-semana constituíam com propriedade espaço público. Também pensámos isso das ruas, mas os cordões policiais que se estendiam desde a Calçado do Combro, desmentiam-no.

Quando o arrancar das grades de protecção é visto como um “sério perigo para a ordem pública”, “um excesso”, e suscita reptos à manutenção da legalidade, a ordem deixou há muito de ser pública e é apenas ordem. Então todos os exageros são permitidos – grupos anarquistas infiltrados, por exemplo, quando os únicos que atravessaram a barreira policial foram os jornalistas, os tipos sedentos da notícia, da fotografia panorâmica que renda mais ao fim do dia, quando as rotativas começam a trabalhar. As imagens são  elucidativas: gente de aspecto patibular a chispar ódio pelos olhos; um rapaz lançando todo o seu veneno desestabilizador pela boca irada dum megafone… Morram os jornalistas – Pim!

Não tenho por hábito dizer mal dos jornalistas (também não digo bem) mas seria eventualmente aconselhável, em acontecimentos futuros, partir algumas câmaras e correr com eles. Porque isto que fizeram dificilmente é jornalismo (ou uma visão benigna que sobre ele se possa ter): é terrorismo. E neste sentido, não são bem-vindos. E devíamos expressá-lo com convicção. Fora com os jornalistas – Pum! E se atirar garrafas à polícia é “uma séria infracção da legalidade” o que será então tripudiar a constituição e bater com os tacões em cima dela como se de uma lição de fandango se tratasse? Assim se faz de uma manifestação, para todos os efeitos suporífera, um exemplo de guerra civil larvar.

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