Skip to content

Introduções

Novembro 17, 2011

 A proliferação de readers e introduções à teoria social, surge como um ersatz à incapacidade de produzir teoria sólida e autónoma dentro desse domínio do conhecimento. No geral, o que temos são múltiplas teorias específicas dentro de áreas da especialização, mas que não são verdadeiramente autónomas visto que os seus pressupostos encontram-se sistematicamente ancorados numa qualquer forma de metateoria (escolha racional, estruturacionismo, pós-estruturalismo, etc). A noção segundo a qual a grand theory pode ser abandonada em proveito de teorias de natureza regional, só pode ser acalentada se acharmos que a diversidade de lógicas proposicionais metateóricas convive pacificamente sem criação de tensões e de impasses improdutivos. Sucede pelo contrário que elas não se complementam, nem tão-pouco, como alguns julgam, podem ser postas ao serviço de uma melhor compreensão do social pelo jogo combinatório dos seus núcleos teóricos. Se a lógica proposicional pode ser combinada entre diferentes princípios axiomáticos, já o núcleo propriamente metateórico não pode. Por exemplo, a escolha racional dificilmente é compatibilizável com o pós-estruturalismo, e isto não tanto porque todas as suas proposições sejam incompatíveis e irreconciliáveis, mas porque ao nível metateórico os princípios assumidos são irredutíveis: a escolha racional coloca o sujeito perceptivo no cerne da sua perspectiva, enquanto o pós-estruturalismo rejeita a centralidade do sujeito e difunde-a por uma miríade de discursos.

Três livros de introdução à teoria social foram publicados praticamente em simultâneo. Os dois primeiros a que me referirei são de 2009; tendo o terceiro saído no início de 2010. Os livros são as “Twenty introductory lessons” de Hans Joas e Wolfgang Knobl; o Contemporary social theory – An Introduction” de Anthony Elliott; e finalmente, o “Social theory of the XX century and beyond”, de Patrick Baer e Carreira da Silva, o sociólogo português da nova geração de maior projecção internacional.

Os três livros permitem ter uma visão de conjunto dos desenvolvimentos na teoria social no decorrer do século XX e das suas propostas mais recentes na entrada do século XXI. A sua organização, as escolhas, as obliterações, bem assim como as abordagens a que se confere um papel crucial no vasto campo da teoria social, falam mais alto do que qualquer intenção antológica de mostrar uma sequência coerente na progressão da teoria social. A verdade é que a questão da progressão sempre foi uma questão polémica na lógica da teoria social. Afastado o fantasma do falsificacionismo poperiano; rejeitada a insuportável exigência dos programas de investigação lakatianos e, finalmente, contornados os mais directos empecilhos da noção de paradigma segundo Khun, a teoria social alijou o complexo da impossibilidade do saber comulativo. Donde, fazer teoria seja basicamente uma questão de confronto entre discursos complexos sobre a natureza do social do qual o mais que se pode extrair são visões interpretativas que melhor se adequém a uma determinada temporalidade do fenómeno social. Argumentos existem que nos levam a preferir uma abordagem a outra, e isto consiste basicamente naquilo que Khun designava de situação pré-paradigmática.

Todavia, a riqueza de um tal confronto não é de maneira nenhuma enjeitável. E é por isso que os três livros mencionados merecem ser considerados dentro da perspectiva do que é ou não estruturante de um determinado campo de saber.

Os três revelam, como já foi dito, investimentos específicos na construção das modalidades através das quais esse mesmo campo deve valorizar ou desvalorizar os seus objectos próprios. Mas este desacordo não deve ser visto como incompatibilidade, que mais objectivamente nem sequer existe na maioria das suas visões da teoria social. Por exemplo, entre o livro de Joas et al. e o de Baert e Carreira da Silva a partilha de uma perspectiva filiada no pragmatismo norte-americano é explicitamente assumida. Ambos – Baert e Joas – são reconhecidos defensores das abordagens pragmatistas e da sua continuação num neopragmatismo. E aqui importa dizer que ambos, igualmente, não tornam mais explícito esse mesmo pragmatismo. Se em Baert e CSilva o neopragmatismo mal se distingue do programa de sociologia reflexiva inaugurado sobretudo por Bourdieu; em Joas et al. mal se percebe em que é que este neopragmatismo difere do seu percursor, o pragmatismo de Dewey, James e Mead.

A sua filiação pragmatista tem uma influência directa na forma como estas “Introduções” são organizadas. No caso de Joas a atenção é dada a grande escolas que evoluem em termos do debate crítico com o estrutural-funcionalismo de Parsons, nesse sentido seguindo uma linha que é eminentemente  devedora da lógica da acção social. De particular interesse o capítulo dedicado ao debate Lhuman-Habermas que foi axial para os caminhos a serem trilhados pela sociologia alemã. Algo que de facto não tem grande relevo nas súmulas teóricas, mas que é crucial para compreender a teoria social alemã contemporânea. Nas palavras de Munch, a teoria social alemã contemporânea – de Beck a Honneth – é filha deste debate.

O que importa salientar, no entanto, é que estas duas introduções tomam como central a acção social, e através dela reivindicam uma autonomia heurística para a teoria social. Ou seja, ao pretender que a acção social se pode autonomizar assumindo a existência de uma racionalidade particular que não se esgota na racionalidade económica da escolha racional. Por conseguinte, estas duas sínteses teóricas retomam abertamente o programa parsoniano que consistia na autonomização da teoria da acção das suas mais irredutíveis formatações utilitaristas.

Por outro lado, no caso de Elliott uma muito maior atenção é devotada a correntes que não são propriamente mainstream nos departamentos de sociologia europeus, i.e., e como tal, esta abordagem, não coloca nenhuma prevalência teórica na acção. Do pós-colonialismo ao feminismo, passando pela crítica do pós-modernismo, com Baudrillard, Jameson e Harvey, e desembocando na teoria psicanalítica de Lacan e seus discípulos, chegando mesmo a Zizek, esta abordagem enjeita explicitamente os caminhos accionalistas das anteriores. Ao fazê-lo, concede um espaço bem menor às interpretações pragmatistas, embora reserve um capítulo a Habermas e aos seus críticos.

Dizer que as interpretações dos três livros reforçam-se ou complementam-se seria equivocado. Sucede que este equívoco não reside no facto de estarmos perante a impossibilidade de abarcar um campo teórico de tal forma vasto que se tornaria mister uma abordagem necessariamente parcelar.  Ao invés, o exercício de exclusão de certos saberes ou de centralização de outros, inscreve deliberadamente na própria teoria uma perspectiva epistemológica que condiciona a interpretação da sua lógica. Assim, a linearidade pressuposta nas abordagens pragmáticas de Joas e Baert é contrariada com a fragmentariedade da abordagem de Elliot. É certo que existe um ponto comum, dir-se-ia um ponto de partida, entre os três: existe um período da produção de teoria social que pode e deve ser consagrado como clássico.

 Todavia, por vezes abordando os mesmos autores, fazem-no de um ângulo epistemológico diverso. Para Elliot a teoria social não possui uma axiomática própria, distribuindo-se esta por uma miríade de discursos com as suas entradas conceptuais que podem servir, numa metodologia combinatória, para agregar diversas maneiras de ler os objectos. Com efeito, a teoria social é um programa contaminado por diferentes discursividades que não se excluem necessariamente e das quais se pode fazer uso na construção de uma multiplicidade de ângulos de análise que mais não são do que a expressão dessa mesma abertura a linguagens e conceitos exteriores a uma qualquer noção de teoria social em sentido estrito. Em contrapartida, quer Joas e Knobl quer, sobretudo, Baert e Silva a teoria social pode e deve prosseguir uma axiomática própria da qual o eixo heurístico seria justamente uma teoria da acção. É a partir dos pressupostos de uma teoria da acção que se podem construir proposições válidas e testáveis para explicar o comportamento em sociedade. Neste sentido, existe um núcleo duro da teoria social que serve de balizador para uma pretendida objectividade disciplinar: a acção social.

Em resumo, de uma pluralidade de abordagens não significa um enriquecimento por complementaridade, e isto porque os programas metateóricos são distintos justamente naquele aspecto que poderia facultar uma comulatividade alicerçada num robustecimento conceptual, a saber, qual o núcleo teórico a privilegiar.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: