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Quo vadis Europa?

Novembro 2, 2011

(Ticiano, O rapto de Europa)

A Europa está em crise. A europa sempre esteve em crise. Pelo menos desde que se pensa como europa. Desde, eventualmente, Westephalia, e a sua paz envenenada.

“A política é a continuação da guerra por outros meios”, disse Foucault, invertendo a consabida frase de Clausewitz. E com razão o disse. Se a Europa esteve imersa em duas guerras profundamente destrutivas durante mais de metade do século XX, seria talvez insensato decretar o paraíso na terra sob a forma de união política – a menos que fosse realmente uma união política. Não sendo, era previsível (assim parece com o benefício da retrospectiva) que a Europa continuasse a senda da guerra, linguagem que sempre compreendeu como sendo a única na relação entre os seus estados. Veja-se por exemplo, e em contraposição, a América Latina. Aparte umas escaramuças menores para a definição mais vantajosa de fronteiras, nunca nenhum dos seus estados, pós-independência, declarou guerra a outro ou sequer tentou anexar outro estado num projecto de expansão territorial de tipo imperial. É verdade que do outro lado do Atlântico, o caso africano mostra rigorosamente o contrário. Seja como for, nenhuma zona do planeta envolveu tantos e tantas vezes a quase totalidade dos seus estados em guerras fratricidas.

Terá porventura sido por ingenuidade que Schuman imaginou uma Europa de concórdia e paz. Não foi com certeza por puerilidade que Churchill terá falado de uns “Estados Unidos da Europa” no seu célebre discurso de Zurick – não, Churchill não. E ao fazê-lo colocando todas as reticências no embarque da Grã-bretanha numa tal empresa, evidenciava o quanto o projecto europeu pretendia apenas e só pacificar o eixo franco-alemão. Sucede porém que nem os europeus e as suas lideranças dos anos 70 e 80 tinham qualquer interesse em constituir uns Estados Unidos da Europa, como aquilo que Churchill, nos idos de 46, designou como “a ballet of voices” continuou, mas descompassado, formando pares estratégicos e deixando outros a falar sozinhos, procurando desesperadamente no salão alguém com quem pudessem dar um pezinho de dança. Se coisa há da qual Churchill não pode ser acusado é de não saber avaliar bem as conjunturas. Por isso, nesse mesmo discurso, avisara já para o perigo, caso o processo não fosse consequente, de um retorno das Dark Ages (…) in their cruelty and squalor. Era guerra, o retorno da guerra que Churchill temia. E ela regressou. Na na forma de exércitos e canhões; mas na forma de política.

Actualmente a Europa é um sonho desvanecido. Ninguém mais se interessa por ela. E na hipótese de fazerem um referendo aos seus cidadãos, tenho quase a certeza (porque nestas coisas o 100% é um interdito) que expressariam um rotundo Não! Assim acontecerá na Grécia, país orgulhoso das suas origens clássicas e das suas batalhas históricas. Também o referendo resultará num clamoroso Não.

Parece-me evidente, que a esta altura, todos nos tenhamos apercebido que a Europa do Euro e as suas elites querem, pronunciadamente, reduzir a zona do mesmo. Não dá mais para disfarçar perante tamanha inépcia e lascismo. Nem os alemães, nem os franceses, são conhecidos por não saberem o que querem. Há toda uma retórica das lideranças fracas, como se de facto isso importasse para as elites, não seriam elas rapidamente substituídas. Não é um problema de lideranças – coitadas das lideranças! Quando Merkel fala, quem fala é o Deutsh Bank, mas isso não faz dela uma pessoa fraca e impotente – faz dela simplesmente a pessoa que interessa que ocupe aquele lugar para que o Deutsh Bank possa falar, no tom e com a voz que bem entender. A solução de uma Europa do centro, verdadeiramente dos países do centro, com certeza que anda a ser sopesada pelos estados mais ricos. De outra maneira não se compreenderia o silêncio quer de países como a Dinamarca, a Holanda ou a Bélgica, quer dos grandes de Leste, como a Polónia ou a República Checa. Não teriam eles nada a dizer sobre a actual crise das dívidas? Esta noção de que o eixo franco-alemão capitania o processo, escusando-se à ingerência de qualquer um dos outros parceiros é demasiado simplificadora para ser verdadeira. Como dizia não sem quem – pode ser verosímel, não quer dizer que seja verdadeira. E isso é o que mais espanta: o silêncio conivente de todos os outros que realmente contam perante a desegragação da Europa, essa sonhada por Shuman, não a do Euro. Porque essa outra, a dos mercados, sobrevive perfeitamente sem os pesos mortos dos actualmente moribundos países da periferia. A zona do Euro e o seu poder reconstitui-se rapidamente; é a Europa política que fica para sempre adiada. Aliás, a lógica que está a ser colocada em acção sugere em larga medida as práticas de reengenharia empresarial. Não se despedem departamentos inteiros para que a empresa diminua os custos e fique mais apetecível no mercado de acções? Por que razão (no mais estrito respeito pela racionalidade utilitarista, única que as elites europeias parecem conhecer) países superavitários como a Alemanha quereriam levar a reboque países híper-deficitários como a Grécia ou Portugal?

O processo está em marcha. Trata-se de um processo subtil e gradual, que não permita identificar imediatamente as suas reais intensões, e através do qual a Europa e as suas lideranças (não apenas as políticas, como é evidente, mas as económicas, que essas sim, são as que contam) vão progressivamente deixando de simular uma qualquer identidade política supranacional, evidenciando a par e passo somente uma estratégia oportunística para a sobrevivência de uma moeda forte. Queriam uma identidade que expressasse os desejos e ambições europeias? Pois já a têm: chama-se Euro.

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