To think or not to think, is it the question?

Que engraçado é ver Zizek, com aquele olhar trocista das verdades inacessíveis, encimando uma girândula rectilínea (contradiction in terms) de valores em bolsa. Era no Charlie Rose, no canal Bloomberg e enquanto Zizek dizia “the common” aquela tirinha engraçada, incansável na sua voragem de tapete rolante, dizia, Nikei, 0.09; Dow Jones 0.12, e por aí fora. E enquanto Zizek dizia que o capitalismo tinha chegado ao seu próprio precipício, os números que lhe bordejavam o queixo, diziam que a tendência era de crescimento e que a noite tava boa para Buy and Sell! E Zizek repetia que era chegado o tempo de pensar – To think or not to think – that’s exactly the question. Mas pensar é só pa quem pode, é só pa quem tem tempo. E por isso, quando interrogado pelos sitiados de Wall Street, os do movimento Ocupa Wall Street mas sem pagar os preços de Manhatan, Zizek apenas ofereceu uma mão cheia de nada. E nem sequer disse: eu não trago a pomba, mas sim a espada; e apenas disse: eu não trago canas de pesca nem tão-pouco ensino a pescar. Think, the time has come to think!

E então lembrei-me dos teóricos dos anos 70, e que todos eles diziam a mesma coisa, que era tempo de pensar. E também diziam que o capitalismo encontrava-se no seu ponto culminante, que a catástrofe era iminente; e embora não fossem afeitos ao paradigma ecológico, achavam que o Estado ia ser a solução de todos os problemas, um Estado domesticado e resgatado à burguesia. E então pensei que neste afã de Pensar, pensar com P capital, se anda a reinventar a roda, que não é por isso que desliza melhor, que se desloca mais ligeira. E então pensei naqueles teóricos dos anos 70 que diziam que o liberalismo tinha suspirado o seu último alento, que a ilusão individualista era reconhecida como tal – uma farsa, um malogro. E vi Zizek a dizer que era preciso reinventar o comum; e embora não fizesse ni puta idea de como fazê-lo, achava que a coisa se desatava por si mesmo: uma inevitabilidade. E então pensei que o seu companheiro-rival de luta e de pensamento, o Antonio Negri, tinha pelo menos um programa, e que a sua comonwealth por mais tonta que parecesse era pela menos indicativa e que a rechtwollen que ele para lá atabalhoadamente enfia poderia ser um princípio programático interessante, não se desse o caso dos programas estarem todos desacreditados. E nisso, também insistiam os teóricos dos anos 70, que passavam a vida a bradar contra qualquer coisa programática, e onde o heterogéneo, o multifacetado, o diferente, andava pr’a lá a bailar como o vento se imiscui pelas persianas.

E então concluí que não é preciso pensar, porque esse processo já foi encetado há muito e com os resultados de merda que se tem visto. É preciso é pôr termo ao exercício de pensar – chegar, enfim, a uma conclusão.

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Anabásico

O enigma da fotografia…
É que ele foi-se embora e não a pagou
Deixou a loja como quem deixa noiva no altar
E não pagou: foi-se embora – enigmaticamente
Destes dias recorda
A chaleira ao lume
O tabaco na mesa
Os passos do cão
A vitrina do armário
Os tachos pendurados
A chaminé encardida
O tapete ruço
O carteiro amuado
A janela semi-aberta
O busto dos negros
O relógio parado
O azulejo fendido
A estreita almofada
A telefonia adormecida
O odor das lulas
O calor do edredão
O vinho no copo
O copo no chão
A luz estirada
O copo no chão
A torneira espelhada
O rosto no espelho
O copo no chão
A parede cava
O cimento frio
O copo no chão
A porta de entrada
A persiana cerrada
O copo no chão
O livro folheado
O copo no chão
O copo no chão

O copo no chão – estilhaços
– recua liberdade, recua

Filigrana

O tumulto que emergiu em torno da praça
Era um tumulto branco
As origens sobejamente conhecidas: tempos inaugurais que não prediziam
Nem o infortúnio nem a bonança
Tempos fantásticos esses – na sua lassidão de espelhos; na sua perfeita
Sonoridade alfabética. Homens que se encontravam e vergavam a cerviz
Num trabalho de coreógrafos, trabalho de alentos mundanos, de cicatrizes
Sem rostos
E ainda assim, compunham com o esforço dos punhos rígidos
Um carnaval de noites. Atonais as modernas nuvens de esperança
(a criança passava os dias sentada ao colo  da mãe. A mãe mimava-a; cantava-lhe canções
Que falavam da morte de pássaros, gaiolas onde era difícil esconder o corpo
Vozes que entravam pelas janelas enquanto a sopa aquecia sobre a lenha
E o  crepitar… Sim, era de outra natureza, essa mão dúctil que descia
De uma lonjura de carvalhos e aparava – como o amor estival se instala na corola
Da flor prestes a estiolar – a criança, balbuciante, tacteante, alheada –
Sim, e o crepitar)
Ou a desesperança como princípio e fim: orgulho jovem de ensaiar
Um lamento. Uma provocação – isso foi o que fez o sr. M
Ao assinar com gatafunhos ilegíveis o velho pacto da caridade instintiva
“Não vos julgueis superiores ao rescaldo do incêndio” – e daí prosseguiu
Numa onda branca, talvez pontilhada de farrapos glaucos, como se esperaria
De um ou outro bocejar mais teatral; de uma ou outra licenciosidade
Mais arrojada do que aquela pedra, aquela que se desloca com a mansidão
Dos cactos, quando dispostos sós, com a fria intenção dos seus espinhos
Içada na amurada de um castelo sem nervos
A filigrana, essa sim uma constante dos tempos – filigranados os momentos
Em que a ausência demora nos alpendres, nas ombreiras, nas balaustradas
Dessa rústica casa feita de línguas. Filigranadas, as veias que se tecem
Envoltas na mediana necessidade de um corredor com quadros – investido de passado
Pois então!, que se deitem abaixo as conquistas da paciência – que saudades que eu tenho
De um murro na mesa!

Parecia que o solstício estava morto. Talvez sim.
Cansado da análise dos acontecimentos mediáticos; cansado do desvio político como programa e acção
(onde foste buscar estas derivações a contrapelo do gosto comum?)
E agora surge uma nova razão: a desilusão é de tal forma grande, com os buracos colossais, eurobonds, fatias das nossas pequenas vidas despejadas na capitalização da banca
O BPN roubou para cima de 6 mil milhões de euros ao contribuinte…
O homem do chapéu quadrado, o racionalista sentado na esquina, a espiar qualquer convulsão
Por mais aparente ou irreconhecível, que possa ser revelada dentro de um sombrero
Nem mais um homem para a frente dos canhões – diria o General, colocando o seu monóculo
E arriscando um cálculo militar que lhe permitisse usufruir da reforma
Sem condições – a rendição
Sem condições… Os mares revoltaram-se, ou melhor, ondas revoltas saíram do cais e
Apaixonaram-se pelas nereides
Bem no berço do destino desencontrado. O homem Aquiles, subjugado que estava por um amor patético
Matava a eito
E a nossa nobre Lisboa, espreguiçando-se até ao tejo numa modorra de sóis
Muito brancos!, e pelas vielas ainda se sussurava: “sabe o que lhe digo – mande matar o bichinho”.
Nenhuma homenagem lhe será suficiente
Saramago ensina na sua belíssima História do Cerco de Lisboa que o não
Muda radicalmente o sentido da história… Da sua representação, caríssimo
Da sua representação. Nada mais. Como bem viu Napoleão
Que estando em Iena de braço dado com Hegel
Assistiria ao Weltgeist montado a cavalo
Como explicar então as frias, húmidas, e a todos os títulos inaceitáveis paredes de Santa Helena?
– Que disparate! – a nós o cavalo do D. José
Glorificado no anedotário nacional
Alguém terá visto, cavalgando a toda a cela
O Geist fugindo pelas ínvias ruelas da Mouraria
E por lá (em verdade subindo a escadaria principal, aquela que nos encara logo à entrada do centro comercial da mouraria, aquela em que se benzem em afazeres diários ciganos incontinentes de negociatas e se reclinam chineses remoentes de mandarins) encontrou
Um Haiku
“O pássaro há tanto tempo preso
Hoje, vai finalmente poder voar”
Não havia Japoneses na praia – diria mais tarde o General McArthur…
Pudera!, por lá ainda pairava a poeira atómica
Mais tarde totalmente relativizada por Fukushima
E os seus irmãos predilectos: Three Mile Island, Schernobyl…
Isto é repetitivo; isto é cansativo; isto repete; isto cansa
E a puta? Dança. Já de seu carão moreno ninguém terá lembrança
Agora de Marsapo ufano, a que não deu parança
Nem descanso, salvo o que das letras lhe permitiu
Requebrar as forças… Irra, Manteigui, Irra, que colo para pendurar as culotes!

A virgem negra da Nazaré (as virgens negras são particularmente místicas e fazedoras de milagres
Existem 400 em todo o mundo diz a wikipédia
Mas uma catrefa em Espanha
Com tanta aproximação entre os povos, gloria patri e a construção do império
“demos mundos ao mundo” etc, devíamos ter dezenas delas, centenas
Uma existe lá no alto do Sítio. As ondas rebentam na areia adusta
Lá na Nazaré. Quando os brasileiros referem o Brasil português
Dizem sempre “O Brasil Colónia” para que não se confunda com o Brasil brasileiro
O grande Brasil! E nós todos a julgarmo-nos irmãos; a comungarmos como irmãos
A partilharmos da mesma gamela das telenovelas e shows em directo
E sempre dizem “O Brasil Colónia”
Imaginem o Agualusa a dizer “A Angola colónia”, “O Moçambique colónia”,
A água de colónia – podia beber de tudo, menos disso: não lhe permitia ficar vertical no vício
401 virgens negras em todo mundo – e se a wikipedia usasse sombrero…

Fernando – Meu irmão em livro anverso!
Para quem a wiki não oferecia respostas
E era porque aquilo é o seu contrário, e por aqueloutro era um outro que se via a si próprio
Ou que chegava mesmo a existir dentro de si, mas desconhecendo o si e
E sempre me pareceu que esta confusão radicava
Noutra, mais especiosa, mais problemática, mais irremível (naquele tempo ainda não se falava dos três ts

Mas que sei eu disso
Nem luzes bruxuleantes, nem sentado em Gomorra a beber um fino, nem muralhas de Jericó
Nulla sine exitu via est