O silêncio dos indigentes

Repare-se: foi só quando o governo anunciou a subida do escalão máximo do IRS que a opinião bem-pensante, os escrevedores e apresentadores, e, pasme-se, os nossos liberais bem-apessoados, desataram a berrar e espernear.

Até aí, o que era o aumento do preço dos transportes para liberais que não tiram o cu do carrinho para se deslocarem para o emprego? O que era a subida do IVA para os comentadores cativos, se a eles, depois de comprarem o pãozinho e o leitinho ainda sobra para investir nuns imóveis e numas acções? O que representava o gradual fim das comparticipações na saúde, se para eles, liberais, há muito que garantiram os seus seguros médis (que faz bem à saúde!) e quejandos e há anos que não aterram na sala de espera de um hospital público? Para os liberais, estas coisas, distantes e sumidas no horizonte, representavam sacrifícios necessários para pôr este país em ordem!

Mas eis que vem o escalãozinho do IRS e é um deus nos acuda, porque não podemos acordar sempre a ouvir falar de impostos. Este é bem o espelho da consciência liberal – para glosar um título famoso -portuguesa.

Aquilo que bate bate (e não levemente) à porta de quem está à rasca – coitaditos que eles precisam é de caridadezinha e planos de emergência. Porém, quando se fala da classe média – abastada, pois claro!, porque ser de classe média em Portugal só se for abastada: aquilo que se convencionou chamar classe média anda paredes meias com a pobreza – alto lá!. Manela Ferreira Leite vem finalmente dizer que isto não podia ser assim. Nunca tal dissera. Ouviu-se uma palavra que fosse destes senhores quando aumentaram os transportes? Nem um ciciar. E os blogues de direita, os presumidos liberais, andam a escoicear que é coisa linda de se ver. Mas caladinhos quando a coisa só batia à porta dos infelizes que apanham o barco da Transtejo…

Cada vez pior…

Um bom exemplo da imbecilidade das coisas que se vão publicando no I.

O que será um “discurso fofinho”? E que quererá o autor dizer com “lamento, mas as questões que se põem actualmente são substancialmente as mesmas que se punham há um século ainda que com nova roupagem”? O que será a “nova roupagem” de que fala o autor? E não será justamente essa “nova roupagem” que obriga a procurar soluções para questões que NÃO são “substancialmente as mesmas” que se colocavam há um século?

Nada disto interessa. Reflectir é pesado. Mais fácil é debitar um discurso oco, mas prenhe de lugares-comuns (pretensamente) esquerdistas. Eu bem sei  que a linha editorial do I obriga a que os textos sejam mínimos, quer de estrutura quer de interesse. Mas porra, há limites quanto ao rácio tamanho/inteligência das coisas que por lá se escrevem.

I rrisório

O i, o jornal com o melhor design do mundo, mas com os piores artigos do universo conhecido, traz um artigo inqualificável sobre os encontros secretos (anteriormente) de Sócrates com Merkel e Zapatero. Num assomo de arrojo literário, classifica estes encontros de “diplomacia paralela”, embora reporte que desconhece por inteiro o que por lá se passou. A suspeita continua a pairar sobre Sócrates; e os jornalistas adoram chafurdar nela. Os do i então são peritos.

A maneira como estes encontros são relatados induz a pensar que Sócrates anda a desautorizar o governo português, em particular o primeiro-ministro, ante os governos europeus. Não sei se os jornalistas do i recordam que o psd, ainda a queda de Sócrates ia no adro, escrevia para inglês ver que o próximo governo de coligação ia ser mais requintadamente severo na aplicação das medidas da troika do que estas por si só exigiriam. A isto não chamam os jornalistas do i, “diplomacia paralela”.

Porém, estes encontros têm duas leituras: ou Sócrates anda de facto a fazer diplomocia paralela, nisso não se arredando nada da metodologia da anterior oposição; ou Sócrates tem de facto “caché” – como se usa para classificar casas no mercado imobiliário – junto das lideranças europeias. Facto é, que me parece estranho que Sócrates tivesse conhecimento da agenda do primeiro-ministro, ou que tivesse sequer capacidade para impor o seu périplo às agendas de Merkel e Zapatero, sendo que o mais provável é o pedido para os encontros ter sido endereçado pelos dois líderes europeus… a Sócrates. O que mostra simplesmente que nem Merkel nem Zapatero confiam em Passos Coelho. Se a confiança do segundo é negligenciável, dado que está prestes a sair de cena; a da chanceler alemã é preciosíssima, como toda a gente reconhece. Mas veja-se, Merkel preferiu ouvir primeiro de Sócrates o que se passava com o país do qual ele já não é primeiro-ministro, do que receber em primeira mão a versão do primeiro-ministro em funções.

Isto quer dizer apenas uma coisa: Merkel não confia no governo de Portugal e nos seus representantes. Por isso, os jornalistas do i, que têm esterco a fazer a vez da mioleira, faziam melhor em interrogar-se por que razão isso acontece? Será que tem alguma coisa a ver com o facto de Passos Coelho ter chumbado o PECIV só para se alcandorar ao poder? Quem joga com cartas viciadas, só pode atrair a desconfiança dos restantes parceiros de jogo.

Martin Amish

Através do Da literatura tomo conhecimento que publicaram o “Segundo avião” de Martin Amis. Os ensaios nele contidos estão espalhados por aí, pela internet. Supostamente, o lançamento deve-se à época: aos 10 anos do September 11. Mas para além do tema ter esgotado o seu interesse – contrariamente àquela frase obtusa que nos lembra que foi “O dia que mudou o mundo” – será que, após a revolução na Tunísia, os ajuntamentos na praça Tahir no Cairo, a guerra de libertação da Líbia, as manifestações na Síria, Jordânia, Marrocos, Bahrein, Iémen e outros, ou seja, aquilo que se convencionou chamar de Primavera Árabe, ainda valerá a pena ler isto?

The Iraq project was foredoomed by three intrinsic historical realities. First, the Middle East is clearly unable, for now, to sustain democratic rule – for the simple reason that its peoples will vote against it. Did no one whisper the words, in the Situation Room – did no one say what the scholars have been saying for years? The ‘electoral policy’ of the fundamentalists, writes Lewis, ‘has been classically summarised as “One man (men only), one vote, once.”‘ Or, in Harris’s trope, democracy will be ‘little more than a gangplank to theocracy’; and that theocracy will be Islamist. Now the polls have closed, and the results are coming in, region-wide. In Lebanon, gains for Hizbollah; in Egypt, gains for Sayyid Qutb’s fraternity, the Muslim Brothers; in Palestine, victory for Hamas; in Iran, victory for the soapbox rabble-rouser and primitive anti-semite, Mahmoud Ahmadinejad. In the Iraqi election, Bush and Blair, pathetically, both ‘hoped’ for Allawi, whose return was 14 per cent.