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A cúpula

Agosto 11, 2011

Um primeiro comentário breve: quem achar que os tumultos nada têm a ver com raça então que conte quantos negros se encontram nas recém-formadas brigadas de protecção, que à maneira dos “vigilantes” se uniram para proteger o seu bairro. Conte também os negros que foram para a rua de vassoura em riste a reivindicar um acesso comunitário que só aparece quando se trata de defender a bendita propriedade; de resto, a rule of thumb é chacun que se amanhe.

E não, não se trata, como sugere Eduardo Pitta numa insinuação muito pouco esclarecida (to say the least) de um problema de raça… sem classe (o mais provável é que não tenha lido o artigo todo que linka, ou então é um racista rematado). Os contornos do que ali se passa são praticamente definidos pelo binómio classe-racialização.

E por isso estou de acordo com quase tudo o que diz o Renato Teixeira. Mas (e há sempre um but!) a esquerda está a tornar-se demasiado pressurosa em inventar escatologias ontológicas ou em ontologizar a escatologia. Não há, ao contrário do que rezam  – e aquele discurso possui um inevitável pendor bíblico – algumas vozes proeminentes do 5dias, nenhum horizonte catastrófico ao virar da esquina. Para o lembrar, bastará apenas recuar aos posts ali publicados na crista da crise do subprime onde então já se previa o fim iminente do capitalismo. E nada disso aconteceu. Bem pelo contrário: o processo acelerou, aprofundou-se, tornou-se mais eficaz sob o pretexto de salvar países de situações deficitárias persistentes. Foi portanto um tiro em cheio na água enquanto os porta-aviões da exploração e da esbulha continuam a passear pelos oceanos  de miséria e sofrimento que vão deixando no seu rasto.

Temo que este mesmo tique se esteja a verificar relativamente aos London Riots. O Renato embarca numa teodiceia da revolução como quem bebe um copo de água. Faz talvez lembrar o Ballard do Gente do Milénio, com a classe média acossada nos seus condomínios virados para o Tames – mas isto é romance. A imagem dos revoltosos a fazerem os ricos e poderosos barricarem-se nas suas vivendas de luxo, é muito evocativa da Revolução Francesa, e não me parece, para falar como um marxista, que as condições objectivas se verifiquem neste momento.

Não vai acontecer rigorosamente nada, para além de vários milhares de jovens irem ser presentes ao juiz e ficarem endividados até ao pescoço para ressarcirem os donos dos danos infligidos nos seus pertences. Nada, digo eu. E assim como Cameron fez um discurso vergonhoso relativamente aos responsáveis pela revolta, cheio de crispação moral balofa – algo que não fizera quando foi o escândalo das escutas em relação aos magnatas criminosos – e de indignação populista (populista conservadora deve sempre acrescentar – porque o populismo de esquerda está correcto) os ricos e poderosos vão certificar-se que a cenha das populações fique circunscrita às esterqueiras onde vivem. Foi assim no passado, e assim será agora.

Dirão: com este pessimismo acomodatício não vamos lá. E a questão é: lá, onde? Enquanto não soubermos responder a esta pergunta, as lojas partidas acumular-se-ão, mas a cúpula permanecerá intacta e inalcançável. Enquanto a estes não se juntar a classe média; enquanto aos estudantes universitários não se juntar o padeiro e o advogado; enquanto o engenheiro electrotécnico sair da universidade tendo por horizonte explorar muitos para enriquecer depressa; a cúpula não sentirá nem uma beliscadela, quanto mais começar a fracturar-se.

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