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London calling!

Agosto 10, 2011

Lembrem-se de Paris… Nem por isso: os “riots” londrinos e que se vão disseminando pelas terras de sua majestade encontram predecessores mais longínquos nos distúrbios de Brixton, que se foram repetindo durante a década de 80, ou os ainda mais afastados no tempo, Nothing Hill riots quando esta zona não era ainda terra de alternativos endinheirados que vieram com a gentrificação. A componente racial/desemprego/corte nos subsídios esteve sempre presente. A estupidez energúmena dos tais comentadores de que falei em baixo ao afirmarem que se trata de bandos do “crime organizado”. Bem, pelas proporções que os distúrbios têm tomado, parece que o crime organizado runs havoc como diriam os brits. E isso significa apenas que a polícia é de uma incompetência inaudita, porque se cada vez são mais os polícias, e o crime organizado vive mesmo debaixo dos seus narizes, então aumentar o contingente policial é uma estratégia votada ao fracasso.

A outra hipótese, mais plausível, é que a revolta seja genuína. E a razão, apesar das pilhagens, da violência e dos estragos da propriedade alheia, assiste a estes revoltosos. Por um lado, Blair, e agora Cameron, foram colocando pesadas pedras em qualquer ideia de democracia que ainda pudesse ser acalentada. Cameron, ao não se demitir no seguimento do escândalo Murdock, enterrou definitivamente a espada no coração da tão famosa (quanto travestida) democracia britânica. Que confiança merecem estes polícias às populações dos bairros pobres quando estes mostraram ser uma espécie de guarda avançada da espionagem tablóide? E que bem pagos para isso que foram. Naturalmente, que qualquer exercício mais musculado por parte da polícia é interpretado como injusto: afinal de contas, dá-se um escândalo com as proporções do News of the World e o governo nem sequer beliscado sai? Os ricos e poderosos abandonam airosamente a cena, para continuarem, quem sabe, a cometerem as mesmas malfeitorias noutros órgãos de comunicação? A malta que leva com o cacetete nas costas por isto e por aquilo (por razões certas muitas das vezes) não compreende esta impunidade de quem tem dinheiro. Sobretudo quando esses mesmos ricos e poderosos, depois de terem esmifrado as suas famílias, se preparam para se refastelarem no grande festim dos cuts and no taxes. Quando a estes milhares de jovens lhes é esfregado quotidianamente um mundo de consumismo que depois lhes é perversamente negado, a revolta passa por aí: roubar o objecto ao qual me foi vedado o acesso. E a prova de que o acesso tem sido negado é que a Inglaterra é hoje um dos países com maior desigualdade do conjunto de países da OCDE. Como é possível? Um país rico, mas em que os top 10% cada vez têm mais e os bottom 10% cada vez menos. Não desesperemos, porque Portugal ainda vai à frente. E julgo não exagerar se disser que em breve coisas parecidas acontecerão em alguns bairros da periferia de Lisboa. Seguramente, não terão a mesma dimensão. Mas o princípio será o mesmo: gente para quem do caminho apenas vê obstáculos e nenhuma oportunidade. Os riots ingleses sempre foram a expressão de um sentimento de desesperança. Têm sido paleados com medidas, umas mais avulsas outras mais consistentes, de sustentação social. Ao contrário dos estudantes universitários, estes revoltosos não têm nada a perder, que não seja a própria vida. E é exactamente isso que demonstram nas  suas surtidas nocturnas.

O reflexo concreto da sociedade que actualmente com tanto labor construímos: abundância imaginária acompanhada por penúria real.

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