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Cripto-shmitianismo

Agosto 9, 2011

Se há manobra ideológica que constitui o cerne da política neoliberal – e é preciso entender o neoliberalismo enquanto política e não como “o reinado da livre iniciativa” – é a redução de todo o protesto a uma dimensão securitária. Veja-se como ultimamente os comentadores sobre os recentes acontecimentos em Inglaterra possuem títulos como “Director de não sei quê da segurança nacional”, “Especialista em segurança e anti-terrorismo” e quejandos. Não me parece que esta invasão de peritos militares seja uma simples coincidência. Há 15 anos atrás quem estaria a comentar este tipo de coisas seriam sociólogos, economistas, eventualmente psicólogos; hoje, é o arsenal dos fazedores de inimigos ocultos que se apresenta fresco e luzidio nas televisões. Ousaria mesmo dizer que esta gente formada na trituradora cerebral dos neocons, que dava pulinhos de alegria cada vez que uma bomba americana caía sobre o Iraque, aprendeu bem a lição. Numa toada mais filosofante, gosto do termo cunhado por Critchley: Cripto-shmitianismo. Deixando de parte a dimensão “divina” que segundo Critchley esta noção encerra, a ideia, muito hobesiana, de governar através do medo e do temor parece-me perfeitamente adequada. E estas cabeças, que não as julguemos inocentes, emborcaram centenas de cálices (nada amargos, em consciência…) do melhor vinho neoconservador. É aliás isso, essa cartilha, essa coisa que passa por análise estratégica, que se vende ao monte nestes institutos.

Por conseguinte, as opiniões deste exército excrementício (intelectualmente falando, bem entendido), formadas na lixeira dos institutos de altos-estudos militares, são as mais das vezes perfeitamente ignorantes dos contextos onde se desenrolam os acontecimentos. Um destes “pundits” resumia assim os acontecimentos ingleses, relato que deixa entrever bem a Weltaanshaung destas cabeças: na Grécia a violência era orquestrada pelos anarquistas; em Inglaterra são gangs criminosos. E pedra sobre o assunto. Não apenas o senhor associava anarquistas e bandos criminosos ao mesmo perigo informe de perturbação da ordem, como a consequência de um tal entendimento é a lógica da “racaille” – contra eles, só à bala!

É claro que o que se encontra subjacente é a assimilação do protesto ao terror. E nisto Bush, como bem descreve Critchley, foi magistral; ancorado que estava, não o esqueçamos, numa equipa de peritos do medo. O neoliberalismo escora-se no medo – ideia banal, repetida por tipos como Michael Moore e tipas como Naomi Klein. Mas porque o neoliberalismo no seu aspecto mais convencional, mais predatório, mantivera-se até há relativamente pouco tempo arredado das políticas europeias – ou pelo menos encontrando sempre alguns entraves à sua expansão destruidora – o medo era qualquer coisa que funcionava lá longe. A histeria da guerra-fria foi uma coisa apadrinhada pelos americanos e soviéticos por igual, mas estava contida nos centros donde esta dimanava, chegando sempre à Europa ou de maneira fragmentada, ou triada por tantos filtros intelectuais que acabava por perder a sua componente histérica.

É com Reagan que as coisas mudam. E é com Bush II que as coisas ficam definitivamente consolidadas. Não se julgue que a queda de Bush arrastou para o olvido da história aquele modo de fazer política. Os seus pios intérpretes, o nosso Durão Barroso, o lavadinho Cameron, e a direita (extrema) que se instalou na Europa, são os seus epígonos, e por conseguinte o maior legado que os neocons poderiam deixar. A sua marca perdurará – disso podemos ter a certeza.

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