Skip to content

Atenção à geopolítica

Julho 19, 2011

De repente o problema deixou de ser de má gestão governativa, do “socialismo do continente”,  como repetia incessantemente Jardim da Madeira, para passar a ser um problema de “liderança europeia”. O nosso presidente, normalmente tão apologético das malevolências dos mercados e dos seus agentes, descontando-as como parte do funcionamento geral da liberdade humana e da sua esperteza, aparece a verberar a liderança alemã e a forma como esta tem conduzido a Europa. Vozes do PSD que outrora se insurgiam violentamente contra aquilo que consideravam um passa-culpas para a situação internacional operado maquiavelicamente por Sócrates e os seus próceres, berram agora que o problema é europeu,  e que se não dermos capacidade de regulação às instituições europeias dos seus mercados financeiros então estaremos condenados. Um volte-face surpreendente, no mínimo. O que ontem era inércia socialista; hoje é capciosidade alemã.

E no entanto, e pese embora a amizade que unia Sócrates a Merkel, a liderança alemã nunca fez mais do que proteger os seus interesses, da mesma maneira que a Francesa ou a Italiana. Quando uma parte significativa da esquerda avisava que a Europa caminhava a passadas largas para um definhamento político concentrando apenas os seus esforços no aprofundamento neoliberal dos seus mercados, os mesmos que hoje culpam as lideranças europeias, diziam tratar-se esta crítica de mero anacronismo ideológico. A bela Europa do Euro crescia viçosa e pujante, e o resto eram balelas.

Neste sentido, e sem qualquer convicção política que unisse a Europa sem ser a fé irredutível na sua forte moeda, o que impediria de facto os interesses nacionais dos países mais fortes de emergirem contra o interesse da comunidade política? Nada. Se a última mal conseguiu calcorrear as primeiras avenidas da sua consolidação e já se encontrava a saque dos neoliberalismos de gabinete, qual o espanto perante a sua destruição progressiva? E por que razão poderia esta impor-se à lógica do dinheiro se sempre foi a esta última subordinada?

Coisas que qualquer pessoa que tivesse um dedo de testa facilmente concluiria. Há, para ser justo, muita gente com vários dedos de testa mas que se estão nas tintas para a solidariedade do espaço europeu. Gente como Berlusconi, a quem o modelo e retórica sempre encantou os intelectuais da direita do nosso país. Gente para quem a dimensão oligopolista do espaço europeu é bem mais importante do que qualquer construção da cidadania. Se este foi o projecto, se foi isto que foi levado a cabo com tanto esmero, por quê a surpresa? Uma Europa gerida por 24 governos de direita para quem a única coisa que verdadeiramente importa é a competição oligopolista com as outras grandes áreas económicas, não é Europa nenhuma. A candura das pessoas é tremenda, concluo. Há de facto gente que considera que o Euro não sobrevive sem os países do Sul. Há, com efeito, muito despassarado do PSD e do CDS-PP que acredita piamente que a Alemanha se deveria preocupar com a saúde financeira dos seus sub-congéneres sulistas. E muita gente que não aferiu bem o que entretanto se passava a Leste. Gente tão distanciada da nova esfera de influência germânica que, tal como Luís Filipe Menezes, eram capazes de confundir a chanceler alemã com uma “chanceler de um país da Europa de Leste”.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: