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A profecia americana

Julho 19, 2011

Um responsável do tesouro norte-americano foi ontem notícia porque disse: Portugal deve concentrar-se nas reformas que tem a fazer e menos nas agências de rating.

Seguramente, uma tal afirmação caberia numa longa antologia de cinismos e hipocrisias de porta-vozes norte-americanos. Ou não fosse a história dos EUA uma colecção de enunciados hipócritas e manipuladores. É claro que não se pode reduzir a história de um país a “uma colecção de enunciados” sejam estes de que natureza for. Mas também é verdade que a ordem simbólica da construção da história norte-americana imprimiu particular relevo aos seus enunciados fundadores. E já daí se auscultava hipocrisia em barda. Lembremos os Federalists papers com os seus rasgados reptos à liberdade humana… acompanhados da excepção à regra que era a manutenção da escravatura. Jefferson, o grande Jefferson, enquanto louvava a liberdade qua invenção deste novo povo das Américas, dobrava o entusiasmo quando se tratava de senhores de plantações e os seus exércitos de escravos, dos quais ele era ilustre emblema. A inspiração, tê-la-à eventualmente colhido em Toqueville que num acesso de má-fé e duplicidade moral proclamou a escravatura como sendo um atentado à liberdade dos homens, mas como as consequências da libertação dos escravos seriam de tal forma danosas para os seus senhores – antevendo vinganças há muito acalentadas e prontas a serem postas em prática – melhor era que tudo ficasse na mesma. E Paine, o grande Thomas Paine, o pai póstumo da linhagem dos direitos humanos, seria tantas vezes controvertido pelos admiradores da liberdade de escolha e do utilitarismo, já para não falar do pai do neoconservadorismo, Leo Strauss, que dele pouco resta de enxuto e original. É preciso recordar que neste último (Leo Strauss) existe uma coisa designada “os fundamentos teóricos da América”. Os fundamentos teóricos de um país, perto de uma professia, onde a verdade profetizada estaria sempre mais além. Um pouco como o nosso Quinto Império, e talvez por isso é que existam tantas afinidades entre a intelectualidade de direita portuguesa e o pensamento neoconservador norte-americano: partilham ambos de uma vontade profética.

Mas entretanto afastei-me do que era o tema deste post. As declarações de um porta-voz do tesouro norte-americano podem, com algum esforço criativo, ser colocadas nesta série de hipocrisias fundamentadas teoricamente. Isto porque as reformas que temos que fazer, e portanto nelas concentrar-mo-nos, são indissociáveis das notações da agências de rating. São estas últimas que nos elevam o juro da dívida tornando o quinhão do produto nacional a ser aboncanhado cada vez maior; e por isso, cada vez mais distante a possibilidade de pagar essa mesma dívida.

O misto de ironia – façam mas é o trabalho de casa e deixem de se queixar – e sobranceria – as nossas agências estão acima das questiúnculas de um pequeno país – enuncia na perfeição que a retórica do império militar está a ser paulatinamente substituída pela retórica do império económico. Certamente que elas sempre andaram de mãos dadas, e que sempre se reforçaram mutuamente. Porém, considerando que actualmente a retórica do domínio militar deixou de ter eco no mundo globalizado pós–Bush, parece igualmente ter perdido a centralidade que dantes lhe era atribuída nas manifestações de americanismo para o exterior. Todavia, a América não deixou de falar através das suas “teorias fundacionais” e um país habituado a pensar-se enquanto totalidade – professia prática do absoluto da liberdade humana – dificilmente deixará de projectar-se enquanto império.

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