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Os trabalhos de Gaspar

Julho 15, 2011

Um desvio colossal foi entretanto transmudado para “um trabalho colossal”: é a bela e imorredoira alquimia das palavras! Imorredoira porque sempre andou pelos beirais das lides políticas; bela porque permite quem detém o poder fazer uso dele através do artifício da legitimação. Haverá coisa mais linda na retórica?

Se a retórica era aquele cadáver esquisito que se insinuava entre a palavra e o discurso da verdade, ela viceja que nem um flamejante nenúfar (embora os nenúferas sejam qualquer coisa que desejarmos que sejam menos flamejantes) no discurso dos neoliberais. O esforço concentrado que o ministro Vitor Gaspar teve que aplicar para apagar aqueles empecilhos intermédios, palavras soltas, que ficaram entre o desvio e o colossal? É d’homem! É d’homem esperto que nem um alho!

O desvio colossal tomado ad literam obrigaria a uma auditoria colossal… que se arrastaria por anos pretéritos, farejando, aprofundando, espiolhando e acumulando em legislaturas do PSD e CDS que não interessam minimamente serem desenterradas.

Por isso, ao desvio colossal de Passos seguiu-se-lhe prontamente o trabalho colossal de Gaspar – e ainda dizem que os neoliberais são pouco imaginativos.

Um pouco de biografia: o ministro Vitor Gaspar sempre esteve de braço dado com o PSD – mais um daqueles independentes que são assimptoticamente independentes: sempre à tangente! Primeiro foi como secretário de Estado de Cavaco (e ele lá deve saber quando e como se começou a preparar o maior descalabro financeiro da história nacional); depois, no BP durante o governo Barroso; e finalmente, catapultado para Bruxelas por esse mesmo Barroso e introduzido no grupo de estudos de economia europeia. Não se julgue que nego autoridade e conhecimento ao ministro Vitor Gaspar. Longe disso! E, da mesma forma, não lhe nego reconhecidos dotes de demagogo. Se o homem consegue transformar um colossal de desvio, para um colossal de trabalho, então é porque estamos perante um colosso desviante. Desvia as palavras, as expressões, para caminhos subjectivamente comprovados de inércia lógica. Não é a primeira vez. Na apresentação do governo à Assembleia da República, quando interrogado pelo deputado do bloco porque razão não se encontravam dentre as medidas do programa de governo a tributação das mais-valias bolsistas, ele respondeu candidamente que se tratava de matéria de tal forma complexa e delicada que não poderia ali responder cabalmente. Não voltou a fazê-lo em qualquer outra sede. Mas entendamos as mais-valias como matéria de delicadeza ao mesmo nível que o colossal passou a qualificar o trabalho e não o desvio. Matérias de igual delicadeza, certamente.

Ontem, um economista do regime, daqueles que tem lugar cativo nos programas de economia da SICn, acusando de demagogia a quem está contra as medidas do governo, utilizava com desenvoltura assinalável os trejeitos mais primários da mais clara demagogia: ora se referia à inelutabilidade das “regras do jogo” ora falava de “equações que não fecham” ora exprimia o seu desalento perante aqueles que não queriam servir de émulos ao cordeiro sacrificial apostilando-os de “falta de realismo”. Todos os exercícios da mais célere retórica servem para justificar o que “não tem tamanho nem nunca terá” como diria esse grande cantor visionário.

Uma equação que não fecha é por exemplo o facto de a desigualdade ter vindo a crescer sustentadamente desde que aderimos ao Euro. Equação que nunca é lembrada por estes economistas do regime. Ah, é verdade: dizem eles que é pela baixa produtividade. Com baixa produtividade, so the story goes, o país não consegue crescer, e logo delapidar a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres. Mas depois, ocorre-nos pensar que apesar de termos a mais baixa produtividade dos 27 da Europa, temos dos gestores que melhor ganham ao nível dessa mesma Europa. Ora o que é que nós, estúpidos mortais, somos forçados a concluir: que os nossos gestores são dos mais produtivos da Europa, mas que infelizmente, quem lhes coube em sorte gerir são uma cambade de ineptos e madraços. Pobres gestores – com esta massa humana não conseguem fazer nada. Gestores com altíssima produtividade e auferindo a remuneração correspondente contra trabalhadores com baixíssima produtividade e pagos proporcionalmente. Mas que raio de gestores tão eficazes que não conseguem pôr os seus trabalhadores a funcionarem ao mesmo nível de eficácia? Mais uma equação que não fecha. Porventura, VGaspar diria que se trata de matéria delicada cuja complexidade deve ser encarada com a sensibilidade com que se maneja um fino cristal. A economia dos economistas do regime está pejada de matérias delicadas.

E regressemos ao desvio colossal que afinal de contas era um trabalho colossal. A única coisa que não parece ser colossal nestas deambulações demagógicas é a honestidade política.

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