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Anti-sistémico

Julho 15, 2011

Um após outro caem como dominós os regimes ainda assim estatizantes da velha Europa. A mensagem europeia é clara: não queremos mais estado – ou sistema, como uma vulgata política utilizada por laicos e especialistas com a mesma frequência não se cansa de repetir. Este “sistema”, entidade obscura que aparentemente a todos governa e manipula equivale, nas idealizações do destino comum, ao deus ex machina de outros tempos. Basta invocar o “sistema” e os seus malefícios para ficarmos tranquilos numa modorra afiada de desconfianças mediante um ente enigmático que a todos afecta, mas que ninguém sabe exactamente onde começa e, consequentemente, como pode acabar.

O sistema tem diversas conotações. Por vezes é a “democracia” enquanto sistema rotativo e bipolarizado, essa mesma democracia da qual os jovens espanhóis se queixavam nas suas longas vigílias na Plaza del Sol. Outras, é o Estado e a sua tentacularidade. Outras ainda, é o governo e as suas oligarquias políticas. Mas apesar da diversidade de imagens que possam ser atribuídas ao “sistema” o que elas partilham entre si é esta estranha noção de que o sistema existe para além das pessoas. Pensamento reconfortante, que cai no imaginário social como uma espécie de paleativo da responsabilidade individual. Ou não se tratasse de recodificar uma amnésia colectiva em tempos de individualização persistente. O “sistema” surge assim como a réstea de um fantasma colectivo que se torna permanentemente ameaçador perante a possibilidade de limitação da explosão individualizadora. Neste sentido, a fantasmagoria “sistema” é a caução necessária ao falhanço da ideologia individualizante. Falhanço em diversos níveis. Primeiro, constrói-se segundo uma lógica de supermercado, ou seja, as adesões e identificações são escolhidas como tantos outros produtos num supermercado, ponderando entre marcas e imagens. Por isso é que a moral actual se viu reduzida a uma “marcadologia”, na qual, em vez de pessoas com as suas necessidades substantivas, temos consumidores com os seus caprichos e adesões hipersubjectivos. O “sistema”, abstração castradora, surge aqui como preciosa injunção de uma cultura que deixada a si própria, pelas forças flutuantes da “marcadologia”, da adesão e desvinculação caprichosa, consoante tantas vezes soundbites e impressões fátuas, tolheria de alguma forma uma qualquer liberdade prometida no âmago deste frenesim consumista. Na realidade, verberar o “sistema” torna-se a consequência necessária quando a relação com o outro e com os objectos se assemelha a uma lista de compras, a passeios ávidos pelos corredores dos supermercados, onde pesamos preços e marcas, promessas e ilusões…

Segundo, porque esta aparente liberdade das escolhas combinatórias, conjugações infinitas que permitem transformar o compromisso social numa questão de mais ou menos elementos com os quais me identifico, gera uma perversão irracional que se traduz na desresponsabilização desse mesmo acto de escolha. A escolha pela escolha torna-se epicêntrica; e a mutabilidade das possibilidades é o jogo que avalia as potencialidades da acção humana, em última análise, o único e possível horizonte da liberdade individual.

Sucede que o “sistema” é a abstracção que contraria de facto esta tendência. No seu carácter abstracto tende, apesar ou por causa disso mesmo, a ordenar, a sequenciar, a gerar equilíbrios ou desequilíbrios, em geral, a criar topologias que guiam escolhas não livres e cujo horizonte de possibilidade é sempre referido aos constrangimentos sistémicos. Em suma, a nossa condição real.

Isto porque o “anti-sistemismo” que encontramos nos desabafos quotidanos, referindo-se aos mais diversos contextos e esferas sociais, sobrevive precisamente através dessa ilusão colectiva de que vivemos numa esfera total “marcadológica”. Esta hegemonia individualizante – hegemonia aparentemente enganadora, dado que aquilo que ela reproduz é justamente um princípio contra-hegemónico que dita que a potência individualizante, ou a potenciação dessa mesma capacidade, só pode existir fora de qualquer espartilho totalizante – existe como um fim em si próprio. Quer dizer, a imaginação social, temerária de colectivismos de toda a espécie, produz o maior colectivismo, na realidade o colectivismo total, a afirmação de um princípio de unidade absoluto: a de que somos aquilo que escolhemos. Por conseguinte, podendo a escolha ser ilimitada, só e apenas nas representações dos indivíduos, o seu princípio é absolutamente ditatorial.

E, todavia, liberdade de escolha não pode nunca significar obrigação de escolher. O livro é a Escolha de Sofia de W. Styron. Um livro que não ficou para a história porque também não merecia ficar. Mas o seu dilema é fundamental para ilustrar aquilo que aqui pretendo dizer. Como é sabido, a Sofia é dado escolher entre qual dos filhos quer enviar para Aushwittz. E isto revela-se infinitamente pior do que perder os dois filhos para o campo de concentração. A escolha é, nesta situação, a opção mais cruel que lhe é dada; escolha essa da qual Sofia não mais se libertará. Daí que a liberdade de escolha não seja nunca intrinsecamente positiva. Essa é uma das melhores e mais eficazes operações ideológicas engendradas pela sociedade de consumo. A liberdade de escolher entre ficar desempregado ou manter o emprego, não é nem escolha, nem livre. E todavia, diríamos que a única coisa que separa a crueldade da imposição da escolha e o sentido de liberdade efectiva, encontra-se na persistência da sistematicidade, ou seja, é inerente à limitação da escolha. É apenas através da limitação da escolha que se institui a liberdade. Por isso a sociedade consumista neoliberal, com o seu panegírico à liberdade de escolha, é aquela que é mais indiferente ao sofrimento de quem não tem ou não consegue escolher.

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