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Europa

Julho 7, 2011

Foi geral a comoção criada pela notação de LIXO atribuída à dívida portuguesa pela Moody’s. O desalento perpassava pelos rostos dos nossos comentadores de economia; o desencanto aflorava nas palavras dos banqueiros; e até António Peres Metelo, geralmente composto e sóbrio, apelava aos céus reiterando a velha frase bíblica – Pai porque nos abandonaste?

Todos se interrogavam: afinal de contas, mostrámos que íamos ser tão bem comportados, que estávamos dispostos a cumprir o programa da troika, inclusivamente a sermos mais troikistas que a troika, e é isto que levamos? Porra, assim não é justo!

Nesta reacção está contida a história de um país. O sentimento de injustiça que carregamos desde pelo menos Alcácer Qibir. E está também contida a exdrúxula estupidez dos nossos governantes! A certeza absurda exibida com petulância de negreiros de que a nossa situação era completamente diferente da grega, mostra bem como as pessoas que decidem e opinam neste país são uns sacanas.

Pois não é tão curioso que depois da demonstração de aplicação canina, somos rigorosamente cotados com o mesmo Lixo com que galardoaram a Grécia? O que se passou então?

Há quem ingenuamente afirme que o problema é não haver uma agência de rating europeia que contrariasse os pareceres das agências norte-americanas. Deveria justamente interrogar-se por que razão ela não existe e por que razão nenhum dos grandes europeus alguma vez quis implementá-la. Porventura, e apesar do dinheiro que os países europeus têm enterrado nos seus congéneres cuja dívida se tornou insustentável (?), os grandes da europa não estarão assim tão insatisfeitos com o agudizar das crises nos países periféricos, porque permite-lhes antever o momento em que largarão o excessivo lastro que estes países representam para o Euro. Já se percebeu que a unidade europeia apenas existe naqueles documentos engraçados que diariamente são produzidos por Bruxelas. Percebeu-se igualmente que a unidade europeia pára precisamente no conflito dos interesses capitalistas. Era uma bela história, essa da Europa. E mais bela ainda porque nascera na Grécia… e é por lá que vai partir. Os americanos, através da voz de John Stewart, colocaram bem o problema: o touro começou a foder a Europa em grande estilo. Não se percebe é se esse touro é os Estados Unidos.

Em minha opinião há touros mais que suficientes no interior da própria Europa para a foderem. Mas estejam à-vontade para ver touros transatlânticos. E no entanto fico com a sensação que esta situação era mais que esperada, dado que nunca existiu uma real vontade de aprofunda a dimensão política da Europa, a única que teria algum efeito estruturante dessa tão almejada, quanto aviltada, unidade. Almejada por alguns que viam a Europa como o grande bastião do cristianismo e da tradição judaico-cristã. Aviltada por outros que sempre viram a Europa como um estorvo que obrigava os países do norte desenvolvido a serem sugados pelos países periféricos.

Numa primeira leitura julgou-se que a rejeição da Constituição europeia representava uma dura crítica aos caminhos mercadorizadores da Europa. Uma interpretação acalentada pela esquerda tão estúpida como tantas outras que a esquerda já apadrinhou.

Era uma reacção sim, mas contra a própria ideia de Europa. Um repto aos sentimentos nacionalistas de antanho que se revestiam agora do poder do dinheiro substituindo confortavelmente o poder dos mitos. Era também o prenúncio de uma Europa que virou à direita de forma radical e, por enquanto, irreversível.

É esta Europa que não vê qualquer interesse em criar os alicerces institucionais passíveis de fazer frente aos ataques às economias mais debilitadas. É esta a Europa que já não se pensa como Europa (se alguma vez acreditou verdadeiramente sê-lo) mas sim enquanto conjugação de interesses perfeitamente dissociados das preocupações e sufrimentos dos seus cidadãos. Aliás, o conceito de cidadão europeu começa a roçar o ridículo e devia ser banido para sempre. Porque não há nenhuma cidadania europeia para além daquela que permite a livre circulação de pessoas e bens, ou seja, a livre circulação do mercado. Por esse facto, devíamos abandonar a ideia de Europa de uma vez por todas. Que interesse tem viver numa ilusão de unidade quando seria bem mais honesto termos consciência das tendências divisas e excludentes?

Conclua-se que as crises das economias do sul só vieram colocar à superfície – para além da fachada do europês institucional –as deficiências de um projecto que nunca esteve alicerçado na vontade comum. Um projecto que quis criar e criar-se em torno de uma putativa identidade europeia, negligenciando simultaneamente os aspectos materiais da construção dessa mesma partilha. Um projecto que nunca definiu concretamente os limites das ambições nacionais e nunca quis abraçar verdadeiramente esquemas decisórios intrinsecamente democráticos.

De um projecto assim só poderiam surgir ditaturas robustecidas. E é nisso que a europa, essa miragem institucionalizada em torno de um parlamento sem poderes, se começa a transformar: uma constelação de espaços económicos onde os direitos têm vindo a ser gradualmente subtraídos.

Não restem dúvidas: a Europa morreu. Mas caso continue a ter fôlego para sobreviver, a que cidadão interessará manter uma Europa assim?

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