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Corre-nos nas veias

Junho 3, 2011

Mas isso, cara F., só corrobora aquilo que o bloco e o pcp andam a dizer há carradas de tempo: que o ps e o psd distribuem lugares conforme ora se senta um, ou o outro, nas cadeiras do poder.

Um poder centralizado que suga o país há uma porrada de tempo. Porém, isto tem a ver com uma espécie de acordo de cavalheiros há muito estabelecido entre os dois partidos. O CDS por exemplo costuma ficar de fora, excepto quando entra a reboque com o psd.

o ps, com essa pressão para a vassalagem aos grandes grupos nacionais que lhes corre nas veias, tem sido sucessivamente anjinho e ingénuo. Veja-se o Guterres a correr atrás dos independentes. Desde logo, porque independentes só o são da militância, mas têm preferências políticas, e agem consoante essas mesma preferências. A ilusão que o centro criou segundo a qual ser independente de partidos equivale a ser independente politicamente, é dos maiores engodos que por aí se atiraram. O isco é prontamente mordido por jornalistas e senhores e senhoras da comunicação social. E adoram refastelar-se nessa estranha e absurda ideia de independência, como se isso significasse um governo mais perto da sociedade civil, como se a sociedade civil não fosse ela também profundamente politizada. Essa era uma das  lições de Marx, ignobilmente esquecida por liberais e admiradores.

Por isso – e nisso dou-lhe razão – pensamos que há uma espécie de pureza na independência partidária. O que é um absurdo, evidentemente. Desde logo, porque assim como não é apolítica, a sociedade civil não é pura. A nossa ingenuidade vai ao ponto de outorgar poderes salvíficos aos independentes, como se estes não fossem igualmente movidos por interesses – corporativos, pessoais, familiares, etc – e como se estes não viessem de círculos eles próprios poluídos por outras lógicas que não sejam a da meritocracia e competência técnica. A meritocracia só interessa a quem estabelece os critérios do mérito. Por isso haverá tantas meritocracias quantos os jogos de interesse que se digladiam para estabelecer esses mesmos critérios.  Pensar que a sociedade civil é o úbere primacial de onde apenas emergem almas não contaminadas, é uma ideia altamente sedutora para uma sociedade ideologicamente contaminada pela pressão liberalizadora. Os liberais conservadores são peritos nessa equação. Dizem: o estado cerceia-nos as liberdades, portanto o que vem do estado contamina um direito absoluto primordial. O que vem fora do estado, exibe orgulhosamente a sua natureza mais livre. A sociedade civil é uma espécie de totalidade abstracta onde nada se passa para além de pessoas a vindicarem os seus próprios direitos e vontades. Mas a sociedade civil não é nada disso. É palco de lutas, de derrotas, de esmagamentos, de açambarcamentos, como a hegemonia do mercado prova à saciedade.

O fenómeno mais interessante da actual configuração político-ideológica – aqui e no resto do mundo – é essa característica inflamação anti-política e políticos orquestrada por aqueles que se querem alcandorar a lugares políticos. Neste sentido, a estratégia de Passos e de Portas não anda longe da populismo raso do PNR ou dessa invenção fantástica chamada PDA (Partido do Atlântico – se é norte se é sul, não o sabemos) Fenómeno esse que não foi, em minha opinião, suficientemente escalpelizado, e que passa pela  sistemática capacidade de instrumentalização pelos partidos de extrema-direita europeus desse ódio à política e aos seus actores. Haider (e depois dele Strasse) tinha o mesmo discurso anti-políticos; Pym Fortuim igualmente. E quem melhor do que Berlusconi para servir de figura emblemática a essa tendência: o homem que se fez na sociedade civil e que chega sem estar contaminado pelo Estado? Contradição significativa, mas que colhe em multidões embriagadas pela beleza da sociedade civil.  Por que razão as pessoas (nem todas obviamente, mas cada vez mais) aceitam isto como normal? Por que razão políticos que vociferam contra o ser político captam tamanha audiência? São questões a meu ver da maior pertinência e a pedirem resposta urgente.

 

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