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Os verdadeiros portugueses

Maio 10, 2011

 Aquele vídeo ridículo congeminado pelas cabeças da Câmara Municipal de Cascais, devia ser auditorado. Pergunta: quanto terá custado tamanha merda? Resposta: com certeza um balúrdio, mais um balde de autoflagelação patético nacionalista que só poderia ser engendrado pelo governo sombra, em vias de gerir o país, do PSD. Para ser justo, aquilo não é apenas uma tentativa canhestra de mostrar aos finlandeses – e à restante Europa! – a “grandeza” nacional, como é também um belo pedaço de revisionismo histórico para atrasados mentais salazarentos. O Brasil! Aquele quinhão de terra imperial com que, segundo reza o propagandístico vídeo, os portugueses teriam sido bafejados pela grande e inescrutável ordem da providência. E logo o melhor pedaço de terra!, acrescenta ainda tão sumida empresa intelectual. Juntar Brasil e Napoleão em dez segundos de tempo de antena, é uma tentativa arriscada. Aprendemos que Napoleão veio cá por três vezes, e por três vezes levou raspas. Não se tivesse dado o caso de o rei de Portugal se ter posto a cavar mal se aproximavam as tropas do maneta Junot e que dessa fuga intempestiva, conquanto totalmente justificável, o destino que nos unia ao Brasil tivesse conhecido desenlace inteiramente diferente do planeado. Daí que se possa concluir que entre Napoleão e Brasil há um elo indissociavél e que este constitui uma parte significativa das máculas na identidade nacional que seriam doravante representadas das mais diversas maneiras. Para sermos totalmente honestos teríamos que dizer que apesar de sermos os inventores do pastel de massa tenra, que segundo o vídeo deu origem à tempura japonesa, aquele que seria o legítimo sucessor à coroa de Portugal, fez um grande manguito do outro lado do atlântico, e por lá ficou a ressacar com os restantes donos de plantações e negreiros de orgulhosa colheita portuguesa. Mas isso ainda é o mínimo. Porque não apenas nos orgulhamos de ter dado uma tosa em Napoleão, como de partir o mundo em dois com nuestros hermanos espanhóis. Que isso tivesse significado dois impérios coloniais que submeteram, escravizaram, chacinaram e até recentemente (no caso português) combateram os habitantes das terras que nós “dividimos”, não vem com certeza à colação nas entrelinhas da lição à Finlândia.

Claro que a Finlândia não se recomenda. Como dizia Luís Delgado nas ondas hertzianas, os finlandeses são um povo que devia ter vergonha visto que se aliou à Rússia de Estaline. Mas quais finlandeses? Os que votam actualmente nos Verdadeiros Finlandeses ou os restantes? A resposta é, nem uns nem outros. Assim como para os portugueses este “nós” soa fantasticamente exdrúxulo, como se nós, os tipos que vivemos com a corda na garganta e com um medo terrível da descapitalização dos bancos, os tipos que vivem no tempo presente, na entrada do século XXI, fossem responsáveis pela introdução do pastel de massa tenra no Japão. Esta extensão de uma história supratemporal, esta invocação de um adn dos povos, coloriu muito dos fascismos dos anos 30 na Europa. É hoje ressuscitado pelos movimentos de extrema-direita dessa mesma Europa, pode ser identificada na reivindicação de um folk no FPO austríaco, um folk que se mede sempre contra um estranho, neste caso o islâmico; pode ser surpreendida na defesa de um catolicismo puro e ancestral (putativamente ancestral) na Lega Nord de Fini, e pode igualmente ser encontrado no être français c’est la se mérite, que deu o mote à campanha de Le Pen e reaparece com novas roupagens nas mensagens políticas da filha. Por aqui também podemos ver como a vitória do Verdadeiros Finlandeses não constitui uma aberração numa suposta Europa unida onde os nacionalismos de antanho tivessem perdido o poder de atracção. Esta pequena tentativa de afronta aos finlandeses recorrendo à simbologia nacional, na verdade, reinterpretando essa simbologia, amalgamando conquistas napoleónicas com jogadores e treinadores de futebol, como se tudo não fosse mais do que exemplos de um continuum de grandeza nacional passível de ser dectado numa história cultural que se lê como adn, mas dizia, esta brincadeira digitilizada diz mais nas entrelinhas do que aquilo que quer ser enquanto resultado da recepção imediata. Diz-nos que a invenção da grandeza nacional é ainda operativa nas porfias políticas. E isto é absolutamente sintomático de uma ideologia para quem o estado-nação é ainda axial.

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