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O holocausto dos “outros”

Maio 10, 2011

Depois do sinistro e invocativo episódio do comboio que não chegou a atravessar a fronteira francesa, surge a notícia de que 61 pessoas foram deixadas à morte numa embarcação que se encontrava à deriva no Mediterrâneo. Suspeito que a revisão de Schengen pedida por diversos países europeus aquando do episódio do comboio italiano pretenda basicamente dar o direito de matar, para além daquele que estava adquirido de expulsar, perseguir, coagir. É preciso gerir os fluxos migratórios, gritam os tecnocratas da imigração, difíceis de distinguir da polícia da imigração. Está correcto. É preciso gerir os fluxos migratórios, inclusivamente no sentido de poupar vidas humanas. Porém, constata-se um desrespeito fundamental pela vida destas pessoas. Um desrespeito desumanizado e desumanizador.

Tinha dito noutro post que os refugiados do Magrebe serão um dos problemas mais difíceis de gerir da política migratória Europeia. Desde logo porque ninguém os quer. Pesam nos sistemas de segurança social, num período em que o seu emagrecimento compulsivo se tornou obrigatório para a maioria dos estados europeus. Pesam culturalmente, porque rapidamente identificados com aquela margem desconhecida do islamismo que estando contido do outro lado do mar, de repente rebenta a represa e entra de supetão pelas nossas fronteiras. Antes deixá-los morrer, parece ser a orientação vinda de cima. Assobiar para o lado e dizer que não, que não tínhamos conhecimento. Mas não fomos a correr todos contentes salvar estas populações dos regimes tirânicos que as subjugavam? E não seria normal, e consequentemente lógico, que mostrássemos que as nossas benditas democracias se regem por padrões mais elevados? Que lição tirarão os recentemente libertados do Magrebe? Que a Europa fala com a língua bífida como a das víboras. Estas duas caras da Europa não são novas. Foram a sua real face bicéfala relativamente à maioria dos programas migratórios. Enquanto houve fábricas e esgotos para concertar, venham os imigrantes, sejam islâmicos sejam da transcaucásia. Assim que as necessidades infra-estruturais estavam satisfeitas, damos-lhe um chuto no cu, e auf widersehen!

A estratégia parece entretanto ter mudado. O chuto no cu pressupunha que os deixássemos instalar – por temporário que fosse, eles passavam as fronteiras. Agora, tudo indica que a guerra volta a estar na fronteira; a fronteira retomou o seu papel tradicional de contenção de pressões, quer exteriores quer interiores. A fronteira recupera gradualmente a sua delimitação da pureza contra a ameaça exterior. E deve esta ser protegida, mesmo que o preço seja a aniquilação da ameaça. Como isto contrasta com um discurso celabratório dos Direitos Humanos que os estadistas europeus gostam de envergar na lapela.

Se a fronteira renasce desta forma tão franca e tão dura, nada nos impede de pensar que o seu espaço de separação venha cada vez a ser mais restringido. Hoje os refugiados italianos de Lampedusa; mas amanhã, quem sabe, os portugueses. A ameaça à fronteira pode sempre ser alargada, a distância desta encurtada, e os motivos que a tornam ameaçadora, transformados. É esta mutabilidade da fronteira (de qualquer fronteira, na realidade) que faz com a ideia de cidadania europeia seja uma construção bem frágil…e porventura efémera.

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