Globos oculares

(os amigos esfomeados de Futre)

O momento alto da noite: quando Paulo Futre, como um recém investido tribuno da nação e como tal fazendo uso da sua recém adquirida Tribunícia potestas chamou à razão os políticos admoestando-os para se concentrarem porque “havia gente que estava a passar fome”. Dentre esta, continuou a tribunícia figura do futebol, amigos seus enfileirariam o rol dos despojados de alimento. A malta imagina que a fome que os amigos de Futre devem passar deve ser aquela larica que lhes consome o estômago entre uma jantarada no Gambrinus e a ceia no Elefante Branco. De outro tipo, torna-se difícil de imaginar.  

Mas o peido regougado pela túrgida garganta de Futre ganha toda a sua dimensão graviolenta quando contrastado com aquele areópago de ostentação, cagança e militante pedantismo, a que convencionalmente se chama o jet set português. Que Futre tivesse ousado falar em fome perante uma tal plateia, e assacado os políticos pela sua existência, só mostra a filha da putice descarada e sem rebuço de certas pessoas que, por razões irreconhecíveis ao próprio exercício da parcimónia, ocupam o espaço público e mediático da nossa bela coelheira. Recebida a admoestação com forte ovação da plateia, é contar cabeças de filhos da puta e extrapolar em simples exercício estatístico para o mais vasto universo da filha da putice portuguesa.

Porque olhar aquela gente, enrolada de ademanes pirosos, espiraladas elas em vestidos furta-cores, engomados eles em solenes fatos cinzentos, e achar que a culpa da fome em Portugal se deve aos políticos, dá vómitos irremitentes. Desde logo, porque o que Futre enunciou – com o correspondente aplauso dos atrasados mentais dos globos de ouro – parte daquele senso comum viscoso que vê com particular desconfiança tudo o que é político e políticos; daquela verborreia labrosta e sonsa tão cara ao povão que gosta de arranjar bodes expiatórios para descanso da sua alma. Mas o descaso de uma tal atitude, pode ser imediatamente aferido pelo preço das farpelas por ali usadas, algumas a ascenderem mais do que certos rendimentos anuais desse povo que “passa fome”.

Futre lá terá ido molhar o bico para um daqueles bares da Duque de Loulé onde os cartões de crédito pingam com a incontinência de slots machines em noite aziaga para os donos dos casinos. O resto da maralha, elas a arrastarem deslumbrantes caudas pela merda de cão que junca a calçada, eles a despregarem o nó da gravata do pescoço tolhido pela celebridade, dirigiram-se com certeza para os seus bólides de última geração – que matariam a fome a várias centenas de portugueses – e rumaram para os seus condomínios privados, quiçá, em gesto de reflectida invectiva contra estes políticos, esta corja que nos governa e outra tanta que anda à procura de tacho, levando consigo um pobrezinho numa vontade caritativa de santos e milagres deixando-o assim dormir numa qualquer bela varanda com vista para o Tejo.    

 

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Cegueira colectiva?

Há uma burrice instalada na opinião pública (se tal coisa existe) que passa por acusar tudo o que é público ou relacionado com ele de ser chupista.

A estupidez relapsa de alguns comentários a este post do arrastão, que revela que 20 macacos concentram 1000 lugares de administração, aponta para que o escândalo seja a possibilidade de serem gestores públicos e não o facto de serem simplesmente tipos que ganham mais valias de representação – ou seja, é gente que não faz nenhum na maioria dos conselhos de administração (a média seria de 50 empresas por bico) mas que apenas lá está porque se encontra noutros conselhos de administração.

Quem achar que há 1000 conselhos de administração públicos que paguem ordenados destes, então ganha o prémio da cretinice contumaz e da má-fé.

Dentre estas empresas estarão com certeza as grandes públicas e muitas outras privadas. E isto só mostra a imbricação entre o grande capital e as empresas públicas, o que explica por que razão pagamos tanto pela gasosa, eletricidade, etc, etc. Mas os ganhos de representação são reais, e têm um valor de troca bastante assinalável. Estar no Conselho de Administração da Sonae abre as portas a não sei quantos conselhos de administração, públicos e privados. Dias Loureiro serve de exemplo. Ainda no governo de Cavaco e já fazia parte de uma vintena de conselhos de administração importantes. Paulo Teixeira Pinto, o poeta e erudito da bolsa de valores, é outro. Desmultiplica-se por Conselhos de Administração e ainda tem tempo para dizer umas tretas compenetradas à SIC.

Na verdade, não existe nenhum equivalente objectivo entre a sua produtividade e o facto de ocuparem tantos lugares nas administrações. É uma casta, não é uma classe. Como casta, é endógama e autoreproduz-se segundo regras fixas. Na maioria das vezes o que fazem nos conselhos de administração é jogarem golf uns com os outros e concertar operações de mercado. Pois, porque os ganhos de representação resultam precisamente da passagem de informação de um lado para outro; no fundo estas pessoas funcionam como go-betweens, correias de transmissão e de angariação de consensos. Não confundamos um tal papel com espionagem industrial ou outra. Estes senhores não são delatores, não likam informação. O jogo é bem mais simples, mas também mais complicado do que isso.

Os mercados movem-se a informação, é um lugar comum nos dias que correm. Quem ocupa diversos conselhos de administração simultaneamente, de grandes empresas e conglomerados, claro está, possui informação de uma maior quota das tendências do mercado. Por isso é natural que rapidamente vejam a sua competência reconhecida por outros conselhos de administração. Estes senhores são procurados, não pela sua capacidade de trabalho, que de qualquer das formas, fosse ela medida em trabalho objectivo, ninguém teria capacidade para tanto. Mas antes pela sua capacidade em transformar informação em network capital. É preciso ser muito bom para isso? Não sei. Tendo na mão a informação cobiçada é relativamente fácil expandir a rede e os seus ganhos associados. Não me refiro apenas ao sentido estrito de rede, ou seja, aquele que conhece o outro que por sua vez conhece outra, até chegar a fulano de tal… Esta é apenas uma parcela do network capital. A maior delas cabe à possibilidade de ser móvel, de estar em diversos sítios ao mesmo tempo, como se de um dom de ubiquidade se tratasse, estar em Portugal e simultaneamente nos mercados estrangeiros, ter informação dos investimentos privados e concomitantemente das grandes opções do plano, e outras tantas combinações que revertem em network capital acumulado. Por conseguinte, estes senhores não têm propriamente que trabalhar para uma única empresa, segundo a concepção tradicional de trabalho enquanto filiação laboral numa unidade produtiva. O que eles produzem é passagem e troca de informação. E para isso apenas precisam de se encontrar conectados com os nódulos cruciais por onde essa informação passa. São gestores, mas não de empresas. São gestores de negociações, tendo estas como central o processamento e disseminação, ponderada e filtrada, de informação.

É justamente este papel que lhes dá o dom da ubiquidade. Não apenas porque apenas têm o nome pintado na porta dos seus gabinetes estando a maior parte das vezes o sinal de incomodar pendurado na maçaneta da porta; mas porque não precisam de lá estar. As suas vidas confundem-se frequentemente com os fluxos informativos que eles próprios gerem: são difíceis de localizar espacialmente, estando a(s) sua(s) presença(s) em constante desmultiplicação. O seu espaço tem o mínimo de inércia. E por isso mesmo as consequências que por vezes resultam dos seus actos, são igualmente sentidas como imateriais. Acções imateriais para um mundo imaterial – assim poderíamos classificar a sua importância.

Pensar que isto é um mecanismo típico do Estado, onde a inércia é suposta ser estrutural, é não perceber o que se passa à nossa volta.  

A semana dos prodígios

 

Utilizo aqui semana num sentido livre, perto da liberdade poética, posto que nem esta semana dos prodígios coincide com a semana que começa na segunda-feira e acaba no domingo, de acordo com o calendário religioso, nem é balizada por dias fixos, mas antes por acontecimentos.

E destes, sabemos que houve vários que desafiaram o senso comum. Primeiro foi a sodomização aprés Dominique Strauss-Khan. Preso por ter sodomizado (alegadamente) uma empregada do hotel, é certamente irónico, quando pensamos que deveria ter sido preso por sodomizar países. Mas enfim, a sodomização de povos e economias nacionais não está tão alta no ranking do puritanismo moralista da justiça norte-americana. Quer isto dizer que eu estou de acordo com o historial de abusos sexuais que tudo indica Strauss-Kahn deixa para trás como o rastro de um cometa? Não. Quer simplesmente dizer que a haver justiça para Strauss-Kahn seria por coisas bem piores. Infelizmente, no que toca a sodomizar povos e economias nacionais a justiça é mais que cega, é igualmente muda.

No caso do FMI, esta (in)justiça fala pela boca dos fascistas de renome internacional. Geralmente denominados “ortodoxos”, é bastante educativo ver os nomes dos pontenciais sucessores de Strauss-Kahn, agora que este se demitiu. Vêm de países, e dos respectivos bancos, como México, Israel, Singapura, Turquia, África do Sul e Itália e os concorrentes da praxe, como o homem do Bundesbank, ou o braço direito de Sarkozy, a ministra Christine Lagarde. O que estes países têm todos em comum, sobretudo os da primeira lista, é o seu invejável palmarés em matéria de democracia.

O segundo acontecimento, ainda está quente. Praticamente saído do forno; é por isso que podemos, com propriedade, falar de rescaldo. O jogo da final da Taça Europa, pois claro. Se houve jogo combinado, esse foi aquele que assistimos anteontem no Estádio Aviva em Dublin. O jogo em si, suscitou a excitação de um potente suporífero. Porém, aquelas cortesias (inacreditáveis em qualquer discussão de uma final, seja ela qual for) entre os jogadores do Porto e do Braga, chegando ao cúmulo de Helton asseverar ao árbitro que não tinha sofrido falta, só podem ser, até pensadas, num jogo que está combinado. Nem o Marquês de Queensberry seria tão solícito com as regras do melhor desportivismo. E esta cortesia, como é sabido, contrasta lapidarmente com o estilo portista do qual, melhor do que ninguém, Domingos Paciência foi emblema relapso. Nunca o Porto fez aquilo com outros adversários. Bem pelo contrário: a fita e a teatralização foram a imagem de marca de jogadores como Falcão ou Hulk ao longo desta competição. Acresce que ninguém acredita que o Porto habituado a dar cabazadas a clubes bem superiores ao SPB (Villareal, Spartacus, etc) ficaria contente com um magro 1-0. Mérito do Braga? Não creio. O Braga nem sequer jogou que se visse para fazer o Porto tremer. Mas o que foi anteontem evidente, é que o Porto estava deliberadamente a evitar a tradicional cabazada. E não é de estranhar. Foi o Braga que arredou de vez o Benfica da possibilidade de perseguir o Porto na liga zon/sagres.

Excessos das novas tecnologias

O que mais me alegra em ter o Professor Marcelo acessível no Ipad é poder disfrutar onde quer que eu esteja, como um verdadeiro nababo – acrescente-se – das suas sugestões literárias . Posso assim encantar-me com os magníficos trabalhos sobre azulejaria portuguesa, com as fascinantes obras sobre as estações de caminho de ferro na linha Entre Douro e Minho, ou então com acutilância sempre renovada daquela exegese de badana que a todos espanta pela sua pressentida voracidade literária.

Mas talvez devessemos inverter a lógica interna ao comentário de Marcelo, recusando-nos a ver a sua rubrica literária como um acontecimento menor, nota de fim de página, na qual o Professor, pressuroso de minutos que se esgotam, coloca uma velocidade repentina, e observar com atenção, se na verdade não é o comentário literário que revela a verdadeira natureza da sua análise política.

Servidores e vendedores

Uma das características mais originais do actual processo de privatizações, seja em Portugal seja em qualquer outro país, é a facilidade com que este é consumado. Certamente que existem protestos, conquanto fugazes, e erupções sociais, por vezes em defesa do status quo de certos corporativismo, outras alicerçadas em reivindicações objectivas de defesa da igualdade e da justiça redistributiva. Todavia, o processo tem-se dado sem desvios de maior, e parece ser recebido por todos como uma inevitabilidade. A tese corrente é que os governos impõem a sua agenda neoliberal a seu bel-prazer e que as pessoas têm-se visto ajoujadas sob essa imposição draconiana. Julgo que esta tese apenas explica parcialmente o fenómeno. Podemos sempre perguntarmo-nos porque razão é essa tal agenda neoliberal tão avidamente perseguida por tantos e tão variados sectores da sociedade?

A minha resposta é que a semente da liberalização há muito que foi plantada dentro das próprias organizações do estado, e esta corporizada pelos próprios funcionários públicos. Temos que recuar um pouco para ver um tal fenómeno em toda a sua amplitude.

A ideologia do estado baseava-se num princípio de funcionalismo enquanto servidor da comunidade. Não interessa se este modelo era basicamente factício, e que o que encontrávamos no Estado polícia eram meras estratégias de controlo biopolítico. A um nível mais fenomenológico, o padrão comportamental do funcionário de estado era compaginável com o do servidor. Um servidor do público, entendo este como o conjunto de utentes que participam dessa calibração das necessidades operada pelo estado social. Significa, em concreto, que a função do empregado estatal era a de providenciar (literalmente) um serviço, baseava-se por conseguinte num ethos de servidor.

Porém, existe actualmente uma tendência irreversível para sermos moldados segundo a lógica e estratégia do vendedor. A sociedade grita-nos que devemos vender, utilizando para isso as mais elaboradas, ou nem tanto, técnicas de convencimento. Seja vendermo-nos a nós próprios, com a curricularização obsessiva da maioria dos sistemas laborais, seja vendermos qualquer outra coisa para benefício próprio ou de outrém. Somos portanto formatados segundo o modelo da persuasão. Integramo-nos nas organizações adoptando o ethos do vendedor. Não existe actualmente nenhuma fronteira definida entre o que é um ethos do privado e do público. Na verdade, as gramáticas institucionais das organizações públicas são praticamente indistinguíveis das suas congéneres privadas. Um ethos de vendedor assumiu a dianteira, substituindo inapelavelmente o velho ethos de servidor.

Ora o primeiro, como anteriormente referido, pressupõe um padrão comportamental baseado na persuasão, enquanto o segundo pressupõe exactamente o contrário, i.e., um padrão comportamental baseado no altruísmo. Um altruísmo instrumentalizado, dirão. Seja. Mas pelo menos criava uma aparência de altruísmo à qual o funcionário deveria ser fiel. Servir o público com idoneidade, conforme o código de conduta do funcionário público.

O que é que acontece quando o funcionalismo público é invadido por vendedores? Primeiro, desaparece, ou escamoteia-se, o ethos de servidor. E neste sentido, a técnica da venda instala-se dentro do estado-providência. Vender, é obviamente, o contrário de providenciar. Porém, hoje em dia os funcionários são obrigados a mostrar resultados, ou seja, a persuadir que a actividade que lhes cabe é vendável. Nada é mais paradigmático do que as sistemáticas campanhas de publicidade das diversas instituições do Estado, com particular relevo para as câmaras municipais. As câmaras deixaram de ver os seus munícipes como constituintes, para passarem a arrolá-los a uma lista de clientes. Assim, a forma de aferir a eficácia de um serviço consiste em pedir-lhe os níveis de adesão de um determinado tipo de cliente para o qual esse serviço deve supostamente funcionar. Tratar os munícipes como clientes é uma inversão completa da lógica do serviço público. Dentro de cada departamento, os responsáveis têm que vender uma imagem de eficácia aos seus superiores hierárquicos, e para o fazerem a técnica é precisamente a da venda. Noutros serviços públicos esta reformulação do habitus do funcionalismo está também cada vez mais presente. Há um suporte simbólico generalizado que assiste à actividade do vendedor, chama-se publicidade. Dentro dos departamentos, e servindo a hierarquia interna da instituição, e depois, relacionando-se com o exterior através deste mesmo meio. As sistemáticas apresentações, que são no fundo publicitações, dos serviços, dos seus objectivos, e em última análise do papel da instituição, são a forma como o serviço público passou a relacionar-se com o seu utente-cliente. Caso paradigmático, o incremento assinalável de verbas para publicidade e relações públicas. Podendo parecer a face de uma eficácia comprovada, quando desmontada verifica-se que um tal registo implica justamente o contrário. Ou seja, estas inúmeras demonstrações simbólicas de eficácia encobrem por vezes uma total inoperância. Uma das respostas que sustenta este estado de coisas prende-se com o direito de escrutínio que assiste aos cidadãos. Também aqui se labora numa ilusão. O excesso de informação passada cá para fora em miríades de convocações e de aereópagos públicos funciona como um rastro da incapacidade de aferir objectivamente resultados obtidos segundo princípios universais que estariam na base da lógica do serviço público. Princípios como redistribuição, integração, equanimidade, igualdade, correcção, etc. Tudo orientações que se declinam enquanto substantivos e que não se esgotam na prática do assistencialismo enquanto acção imediata. Pois a retirada dos princípios do público e a sua imersão na lógica de privatização implica a multiplicação de inúmeros e fugazes assistencialismos que nunca correspondem exactamente à totalidade implicada nos princípios enunciados. Mas porque as instituições são feitas por pessoas e só através delas funcionam, esta retirada deve ser assacada não apenas à compressão do público pelo privado decorrente das políticas neoliberais implementadas, mas igualmente, ou ainda mais, ao ethos de vendedor que estas (pessoas) transportam para dentro dos seus papéis organizacionais. Constatando que hoje em dia os gabinetes de comunicação e relações externas são dos mais activos dentro das organizações públicas compreende-se que a lógica de privatização há muito germina no seu interior. Trata-se do ethos de vendedor que nelas impera. E nada mais é preciso.  

O holocausto dos “outros”

Depois do sinistro e invocativo episódio do comboio que não chegou a atravessar a fronteira francesa, surge a notícia de que 61 pessoas foram deixadas à morte numa embarcação que se encontrava à deriva no Mediterrâneo. Suspeito que a revisão de Schengen pedida por diversos países europeus aquando do episódio do comboio italiano pretenda basicamente dar o direito de matar, para além daquele que estava adquirido de expulsar, perseguir, coagir. É preciso gerir os fluxos migratórios, gritam os tecnocratas da imigração, difíceis de distinguir da polícia da imigração. Está correcto. É preciso gerir os fluxos migratórios, inclusivamente no sentido de poupar vidas humanas. Porém, constata-se um desrespeito fundamental pela vida destas pessoas. Um desrespeito desumanizado e desumanizador.

Tinha dito noutro post que os refugiados do Magrebe serão um dos problemas mais difíceis de gerir da política migratória Europeia. Desde logo porque ninguém os quer. Pesam nos sistemas de segurança social, num período em que o seu emagrecimento compulsivo se tornou obrigatório para a maioria dos estados europeus. Pesam culturalmente, porque rapidamente identificados com aquela margem desconhecida do islamismo que estando contido do outro lado do mar, de repente rebenta a represa e entra de supetão pelas nossas fronteiras. Antes deixá-los morrer, parece ser a orientação vinda de cima. Assobiar para o lado e dizer que não, que não tínhamos conhecimento. Mas não fomos a correr todos contentes salvar estas populações dos regimes tirânicos que as subjugavam? E não seria normal, e consequentemente lógico, que mostrássemos que as nossas benditas democracias se regem por padrões mais elevados? Que lição tirarão os recentemente libertados do Magrebe? Que a Europa fala com a língua bífida como a das víboras. Estas duas caras da Europa não são novas. Foram a sua real face bicéfala relativamente à maioria dos programas migratórios. Enquanto houve fábricas e esgotos para concertar, venham os imigrantes, sejam islâmicos sejam da transcaucásia. Assim que as necessidades infra-estruturais estavam satisfeitas, damos-lhe um chuto no cu, e auf widersehen!

A estratégia parece entretanto ter mudado. O chuto no cu pressupunha que os deixássemos instalar – por temporário que fosse, eles passavam as fronteiras. Agora, tudo indica que a guerra volta a estar na fronteira; a fronteira retomou o seu papel tradicional de contenção de pressões, quer exteriores quer interiores. A fronteira recupera gradualmente a sua delimitação da pureza contra a ameaça exterior. E deve esta ser protegida, mesmo que o preço seja a aniquilação da ameaça. Como isto contrasta com um discurso celabratório dos Direitos Humanos que os estadistas europeus gostam de envergar na lapela.

Se a fronteira renasce desta forma tão franca e tão dura, nada nos impede de pensar que o seu espaço de separação venha cada vez a ser mais restringido. Hoje os refugiados italianos de Lampedusa; mas amanhã, quem sabe, os portugueses. A ameaça à fronteira pode sempre ser alargada, a distância desta encurtada, e os motivos que a tornam ameaçadora, transformados. É esta mutabilidade da fronteira (de qualquer fronteira, na realidade) que faz com a ideia de cidadania europeia seja uma construção bem frágil…e porventura efémera.

Os verdadeiros portugueses

 Aquele vídeo ridículo congeminado pelas cabeças da Câmara Municipal de Cascais, devia ser auditorado. Pergunta: quanto terá custado tamanha merda? Resposta: com certeza um balúrdio, mais um balde de autoflagelação patético nacionalista que só poderia ser engendrado pelo governo sombra, em vias de gerir o país, do PSD. Para ser justo, aquilo não é apenas uma tentativa canhestra de mostrar aos finlandeses – e à restante Europa! – a “grandeza” nacional, como é também um belo pedaço de revisionismo histórico para atrasados mentais salazarentos. O Brasil! Aquele quinhão de terra imperial com que, segundo reza o propagandístico vídeo, os portugueses teriam sido bafejados pela grande e inescrutável ordem da providência. E logo o melhor pedaço de terra!, acrescenta ainda tão sumida empresa intelectual. Juntar Brasil e Napoleão em dez segundos de tempo de antena, é uma tentativa arriscada. Aprendemos que Napoleão veio cá por três vezes, e por três vezes levou raspas. Não se tivesse dado o caso de o rei de Portugal se ter posto a cavar mal se aproximavam as tropas do maneta Junot e que dessa fuga intempestiva, conquanto totalmente justificável, o destino que nos unia ao Brasil tivesse conhecido desenlace inteiramente diferente do planeado. Daí que se possa concluir que entre Napoleão e Brasil há um elo indissociavél e que este constitui uma parte significativa das máculas na identidade nacional que seriam doravante representadas das mais diversas maneiras. Para sermos totalmente honestos teríamos que dizer que apesar de sermos os inventores do pastel de massa tenra, que segundo o vídeo deu origem à tempura japonesa, aquele que seria o legítimo sucessor à coroa de Portugal, fez um grande manguito do outro lado do atlântico, e por lá ficou a ressacar com os restantes donos de plantações e negreiros de orgulhosa colheita portuguesa. Mas isso ainda é o mínimo. Porque não apenas nos orgulhamos de ter dado uma tosa em Napoleão, como de partir o mundo em dois com nuestros hermanos espanhóis. Que isso tivesse significado dois impérios coloniais que submeteram, escravizaram, chacinaram e até recentemente (no caso português) combateram os habitantes das terras que nós “dividimos”, não vem com certeza à colação nas entrelinhas da lição à Finlândia.

Claro que a Finlândia não se recomenda. Como dizia Luís Delgado nas ondas hertzianas, os finlandeses são um povo que devia ter vergonha visto que se aliou à Rússia de Estaline. Mas quais finlandeses? Os que votam actualmente nos Verdadeiros Finlandeses ou os restantes? A resposta é, nem uns nem outros. Assim como para os portugueses este “nós” soa fantasticamente exdrúxulo, como se nós, os tipos que vivemos com a corda na garganta e com um medo terrível da descapitalização dos bancos, os tipos que vivem no tempo presente, na entrada do século XXI, fossem responsáveis pela introdução do pastel de massa tenra no Japão. Esta extensão de uma história supratemporal, esta invocação de um adn dos povos, coloriu muito dos fascismos dos anos 30 na Europa. É hoje ressuscitado pelos movimentos de extrema-direita dessa mesma Europa, pode ser identificada na reivindicação de um folk no FPO austríaco, um folk que se mede sempre contra um estranho, neste caso o islâmico; pode ser surpreendida na defesa de um catolicismo puro e ancestral (putativamente ancestral) na Lega Nord de Fini, e pode igualmente ser encontrado no être français c’est la se mérite, que deu o mote à campanha de Le Pen e reaparece com novas roupagens nas mensagens políticas da filha. Por aqui também podemos ver como a vitória do Verdadeiros Finlandeses não constitui uma aberração numa suposta Europa unida onde os nacionalismos de antanho tivessem perdido o poder de atracção. Esta pequena tentativa de afronta aos finlandeses recorrendo à simbologia nacional, na verdade, reinterpretando essa simbologia, amalgamando conquistas napoleónicas com jogadores e treinadores de futebol, como se tudo não fosse mais do que exemplos de um continuum de grandeza nacional passível de ser dectado numa história cultural que se lê como adn, mas dizia, esta brincadeira digitilizada diz mais nas entrelinhas do que aquilo que quer ser enquanto resultado da recepção imediata. Diz-nos que a invenção da grandeza nacional é ainda operativa nas porfias políticas. E isto é absolutamente sintomático de uma ideologia para quem o estado-nação é ainda axial.