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A luta é alegria!

Abril 27, 2011

 Sucker Punch!, algures na cabeça dos críticos da cidade branca passou ao lado o significado do idiomático, slangático, vernacular, Sucker Punch. Um golpe que deixa um tipo arrumado! Pode ser anunciado, ou à traição. O que interessa é que o inimigo é supreendido por um golpe desferido de tal forma que o deixa fora de jogo. Por aqui já se vê que o filme de Snyder comporta diversos níveis de leitura e que um deles, para que se proceda a uma interpretação correcta de tão heteróclito objecto cinematográfico, encontra-se bem no centro simbólico daquilo que Zizek teve a felicidade de cognominar como sendo “the real Hollywood left”. Falhado ou não (e eu acho que sim) o filme de Snyder is deeply political. Desenganem-se, portanto, aqueles que só o vêem como exercício gratuito de pirotecnia computorizada. Primeiro temos os contextos, o imbricamento entre o hospício para locos (o Lenox institute for the mentaly insane) e o bordel onde o show must go on. Dois níveis de subjugação da capacidade de agência; dois retratos auspiciosos da instituição total. Num pratica-se a subjugação da mente; no outro a subjugação do corpo. Dois níveis de subjugação internamente relacionados nos quais o único acto verdadeiramente livre só pode ocorrer dentro da imaginação. A tradução portuguesa de “mundo surreal”, título arranjado à pressa para sossegar os incautos e os adolescentes atrasados mentais, está para o filme de Snyder como a fuga radioactiva de Fukushima está para o sashimi. É que não se trata do surrealismo dos mundos, que são vários, trata-se de saber para onde fugimos quando o controlo sobre o nosso destino é absoluto. Sim, tem por lá umas evocações soft porn manga comic trash fanzine, mas isso faz parte de um universo de resistência. A palavra-chave (e key tem uma importância desproporcionada no filme) é resistência. Claro que aqui podemos sempre interrogar o filme, e Snyder por arrastamento, quanto ao propósito da simbólica da resistência escolhida. E podemos chegar à conclusão que a bitola desceu relativamente aos dois anteriories produtos saídos da cabeça de Snyder (300 e Os Guardiões). Talvez o nível de puerilidade deste Sucker Punch seja incomportável para uma mensagem que se pretende de resistência absoluta (contra um controlo absoluto). Talvez a colagem demasiado explícita ao universo Manga, com o recurso tão típico à colegial de collants em golpes de karaté, seja demasiado apócrifa para a inscrição de uma mensagem de resistência consequente. Porém, não deixa de fazer sentido, o grito pungente, que quanto a mim está subentendido, de recuperação dos velhos chavões de “imaginação ao poder”. Snyder, vai-se notando, é um realizador que anda a par das inovações filosóficas e políticas. Não apenas a temática do sacrifício aparece uma e outra vez na sua filmografia, como esta é sempre apresentada como acto último, final – o verdadeiro acto é aquele que baralha as coordenadas do que existe e assim fazendo desfere um golpe certeiro no coração do poder. Para além disso, e é aqui que eu acho que devemos olhar com alguma detença, sugeriria que os três níveis nos e entre os quais o enredo se desenrola terão algo a ver com a tríade lacaniana-zizekiana imaginação-simbólico-real. Não será seguramente por acaso que a transição entre o momento do asilo de loucos e o bordel se dá durante uma experiência de regressão operada pela psiquiatra a uma das pacientes. Também não será coincidência que esse mesmo momento psicanalítico se desenrole num palco, onde o acto da violação é recriado mas apenas no que diz respeito ao contexto dessa mesma violação. Se assim for – e eu estou tentado a acreditar que sim – o que temos é o Real real (o hospício) o simbólico (o bordel) e o imaginário (as fantasias de super-heroína onde a protagonista mergulha cada vez que quer agir no real). Nem será estranho que a acção prática, empírica, tenha sempre que ser despoletada no domínio do simbólico…. Mas Sucker Punch deve ser lido também como um momento de desalento. Surge depois da crise de 2008, e sobretudo depois da decepção de quem esperou grandes mudanças e foi brindado com mais do mesmo. No meio da alucinação digital, quase se pode ouvir esse suspirar desanimado e o seu corolário imediato que é nem mais nem menos que o facto de a batalha só poder ser travada no virtual.

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