O dia em que a realeza se tornou show

O grande Shills, há uns largos anos atrás (no século passado, mais propriamente), enlevado por aquela coisa do centro e da periferia, deixou para a posteridade um belíssimo texto sobre a coroação de Isabel II. Aquela coisa funcionava que nem ginjas: centro simbólico que como uma força centrípta impõe o padrão moral onde o povo se revê em abnegação de súbditos. Ora, é sabido que esta força centrípeta do centro tem por função a integração social. No caso da coroação de Isabel, Shills chamava a atenção para a função integrativa de tal ritual enquanto constitutivo da unidade nacional, neste caso em torno da coroa britânica.

Lukes, mais esperto que um gato em noite de reprodução, saltou em cima do assunto e disse: alto lá, quisso é aquilo que o poder quer que nós pensemos! O poder, quer que nós acreditemos que de facto possui o centro impositor do padrão moral; nesse sentido, o ritual político impõe a visão de um determinado paradigma social dominante! Era uma visão radical, a de Lukes. E este, bem mais esperto que Shills, cedo percebeu que havia ali uma função cognitiva da ideologia do centro que justamente se tornava operativa pela sua ritualização. Neste sentido, as eleições não significavam propriamente o exercício de uma escolha popular, mas antes um ritual que criava a crença no exercício dessa escolha. Lukes tinha em mente o texto de Shills sobre a coroação e apressou-se a dizer que, se alguma coisa, toda aquela pompa e circunstância da coroação, aquela solenidade, aquela …O poder do ritual, pois claro, a recriação do centro, e quanto mais elaborado, mais estudado, mais normativizado, maior a sua acção sobre a imposição dos limites, do que pode ou não pode ser feito, e de como se estrutura a hierarquia dos padrões morais que dimanam do centro ritualizado.

Mas hoje em dia, helas (ou nem por isso) estas certezas heurísticas desmoronaram-se como um castelo de cartas (um bem pouco sólido baralho, para dizer a verdade). Se tónica houve no casamento de Kate e William foi a da transgressão. Alguma, para ser preciso; nenhuma transgressão de tal ordem e magnitude que fizesse derruir por inteiro a instituição da monarquia. Aliás, esta continua a ser perfeitamente conservadora, atávica, e de direita, como bem mostra a exclusão dos líderes trabalhistas da lista de convidados ao real acontecimento.

Acontece que a tradição já não é o que era, e que pequenas transgressões podem igualmente ser ritualizadas para definir um novo padrão moral. Desta forma, a identificação com os súbditos deixa de ser feita através do estrito cumprimento da tradição e passa, em antinomia declarada, a elaborar-se através da quebra desta. É claro que não nos pode passar despercebido um certo processo de humanização da realeza, a criação de um efeito de proximidade que, de autómatos ritualizados, oferece-nos uma imagem de príncipes e princesas all too human, com os seus desejos não programados, as suas escapadelas ao protocolo, mas que de pronto se vem a saber que são tão protocolares – porque ensaiadas, reflectidas e cronometradas – como as mais estritas regras da velha tradição monárquica. Ritualizar a transgressão é, de certa forma, fazer implodir o centro; estilhaçá-lo em miríades de pontos de vista; torná-lo imprevisível, no sentido em que a probabilidade de um acontecimento não é mais definida pelo parâmetro da conduta esperada. Ou talvez não. O segundo beijo de Kate e William aconteceram rigorosamente no minuto em que estavam programados para acontecer. Sabendo isto, sabendo que houve trabalho de bastidores para criar a transgressão, ficamos cientes que estamos apenas em presença da aparência de uma transgressão. Neste jogo de reflexos, de refracções entre o que é deliberadamente ritualizado, e aquilo que, recriando a aparência de ser espontâneo, é-o igualmente; este jogo em que apenas os envolvidos na jogada conhecem a regra que estão a utilizar; a este jogo, chama-se espectáculo. Esta aparência de espontaneidade é actualmente a epítome do mundo do espectáculo, ou, igualmente verdadeira, da espectacularização do mundo. Vêmo-la ser recriada, esta fórmula, esta preparação deliberada da espontaneidade, vezes sem conta, pelos actores da política – nos discursos, nas aparições públicas, nas cerimónias oficiais, etc, etc – pelos actores tout court – cantores, actores de cinema, estrelas da televisão, etc, etc. John Stewart pode aparentar ser um prodígio da espontaneidade, mas podem ter a certeza que o show é ensaiado ao milímetro. Lady Gaga, pode parecer um avatar ambulante, mas eu quase que aposto que não vem a público sem o trabalho de uma equipa de imagem que vive para a tornar original. E finalmente, o segundo beijo de Kate e William pode parecer que foi um arroubo de uma paixão tão arrebatada que levou à quebra de um protocolo secular… Mas não. O espectáculo vive disto: de ensaiar o espontâneo.   

Chapada com luva

A rábula elaborada pelo May Day, mostra um FMI compreensivo, com preocupações sociais, aquilo que seria um FMI ideal não vivêssemos num mundo de neoliberalismo desenfreado. O rapaz é convincente e quase que acreditamos que aquilo que ele vai relatando poderia ser verdade. Mas é obviamente uma rábula; e as rábulas, exageram, ridicularizando assim a situação, e daí retiram o seu efeito cómico. Tanto maior quanto as situações ou declarações dos intervinientes são exageradamente deslocadas em relação ao expectável.

Por isso, dar com Carrapatoso a dizer que é preciso proteger o serviço nacional de saúde e que a redistribuição deve ser justa, e sendo esta redestribuição algo que assumia um carácter genérico, portanto universalista, logo invocativo dos pergaminhos mais caros à esquerda, imprime um efeito de comicidade imediato àquilo que acaba de ser proferido. Há vinte anos atrás, neoliberal que proferisse a palavra redistribuição em público, corria o risco de ser açoitado no pelourinho do curso de economia da Católica. Hoje em dia, vá lá saber-se para onde torce a porca o rabo.

No caso de Carrapatoso, um exemplo comezinho, porventura sem a latitude política de uma grande teoria revolucionária, vale mais do que uma tese de filosofia política. Enquanto Carrapatoso se diz, na televisão, preocupado com a redistribuição, exigiu – sei-o de fonte bem próxima ao empresário – do chofer que usasse luvas para não lhe estragar os couros preciosos dos seus vários bólides. Um bom couro, portanto, me saiu este Carrapatoso, ou como diz o povo, um coirão. Eu sei. Obstem por favor que isto não é razão suficiente para tirar qualquer tipo de ilação sobre as verdadeiras intenções de uma pessoa. Eu responderei que, au contraire, que são as únicas razões para tirar as únicas ilações posíveis sobre as verdadeiras intenções. Se depois disto me vierem dizer que Carrapatoso está realmente preocupado com a “redistribuição” eu penso imediatamente que só se tiver a ver com negócios de luvas.

LLourinho

A resposta ao asco que Mourinho diz ter pelo mundo foi dada por um adepto do Barça em momento de perspicaz felicidade – e o asco que o mundo tem por Mourinho? A verdade é que Mourinho, por muito bom treinador que seja, que é, leva sempre para os jogos com o grande Barça a estratégia do chico esperto. Fico à retranca durante 90’ e tento aproveitar um momento menos feliz do adversário. Se Mourinho fosse minimamente objectivo, teria que concordar que na primeira parte o Real apenas chegou à baliza do Barça em virtude das inúmeras faltas forjadas pelo génio de Di Maria. Muito parecido com o que aconteceu na taça do rei. Aliás, nada de mais gritantemente ilustrativo do que uma diferença de posse de bola de 71 contra 29 a favor do Barça ao intervalo. O Real praticamente não jogou  na primeira parte. E se Mourinho não arriscou, como sempre faz frente ao Barça, teve o que merecia. Mourinho bem pode chorar lágrimas de crocodilo pela expulsão de Pepe, mas por bem menos viu Crouch há semanas atrás o caminho do balneário. Suponho que aí não restasse dúvidas a Mourinho quanto ao acerto da decisão do árbitro.

Mas tudo isto é fait divers. O que importa reter é que quem cita Einstein a propósito da sua filosofia de futebol corre o risco de ficar a morder a corda com os dentes rilhados e o olhar foribundo. Desde logo, porque não é preciso ser nenhum Einstein para ter uma equipa plantada no seu meio-campo e que só de lá sai quando o adversário perde o controlo da bola. A isto chama-se jogar pelo seguro, ou para sermos mais contundentes, a estratégia do rato.     

Os verdadeiros europeus

A vitória dos Verdadeiros Finlandeses – dado que os verdadeiros vencedores foram estes Verdadeiros Finlandeses – ilustra uma tendência irreversível que se instalou na Europa, mas que há muito nela se encontrava latente. A forma como jornalistas e comentadores se têm referido a esta vitória é equívoca: omite sistematicamente que não foi apenas a vitória de uma franja conservadora e ultranacionalista, mas sim de aproximadamente 19% da população de eleitores que neles votaram. Daí que se comece a esboçar uma espécie de hecatombe nórdica que soa a toque de finados europeu.

Para quem tem ou teve alguma experiência de trabalho nas catacumbas da burocracia europeia, rapidamente se apercebe que o projecto europeu não é mais do que uma imensa farsa, embrulhada em retórica estridente de europeísmos vagos e irrisórios, e que mais não faz do que alimentar essa imensa burocracia europeia, recrutada das elites nacionais e que se pensa e representa como uma elite transnacional completamente divorciada do comum dos cidadãos. Todavia, esta não é uma elite verdadeiramente transnacional (se alguma existe) porque traz constantemente no seu bojo o peso dos respectivos projectos nacionais. É neles que inscreve as suas estratégias de recrutamento e de perpetuação; é também nesse indissociável elo entre o povo a que se “pertence” e a nação com que se é recebido e identificado que se jogam as “feudalizações” dentro dos próprios organismos da união europeia. É por isso que a vitória dos Verdadeiros Finlandeses, bem assim como outros tantos projectos políticos ultranacionalistas que tanto apoio têm granjeado por essa Europa não se opõe a um qualquer projecto supra-nacional cuja base material e simbólica pudessem ser as instituições europeias e as pessoas que nelas trabalham. Não existe qualquer contradição entre a subida ao poder de partidos nacionalistas conservadores e a construção europeia.

O caso paradigmático foi o das economias de Leste onde a coincidência entre acesso à união europeia e fortalecimento dos nacionalistas mais se fez notar. Aqui o processo pode levar a pensar – como tantas vezes foi aventado – que se tratava de uma reacção natural de povos recentemente libertados do comunismo, povos que, amarfanhados sob a indiferenciação soviética, vissem agora, e finalmente, os seus desideratos nacionalistas obterem canais de expressão. Na prática o que aconteceu foi justamente o contrário. Foram as elites desses países, subitamente enriquecidas pela adesão ao euro, os processos de privatização e financiarização das suas economias, que conduziram estratégias nacionalistas de afirmação política. Na Húngria, na Eslováquia, na Polónia, a adesão à comunidade fez-se acompanhar de um retorno da retórica nacionalista. Reacção contra a perda de soberania que a adesão à UE faria impender sobre as jovens democracias? Não creio.

A luta é alegria!

 Sucker Punch!, algures na cabeça dos críticos da cidade branca passou ao lado o significado do idiomático, slangático, vernacular, Sucker Punch. Um golpe que deixa um tipo arrumado! Pode ser anunciado, ou à traição. O que interessa é que o inimigo é supreendido por um golpe desferido de tal forma que o deixa fora de jogo. Por aqui já se vê que o filme de Snyder comporta diversos níveis de leitura e que um deles, para que se proceda a uma interpretação correcta de tão heteróclito objecto cinematográfico, encontra-se bem no centro simbólico daquilo que Zizek teve a felicidade de cognominar como sendo “the real Hollywood left”. Falhado ou não (e eu acho que sim) o filme de Snyder is deeply political. Desenganem-se, portanto, aqueles que só o vêem como exercício gratuito de pirotecnia computorizada. Primeiro temos os contextos, o imbricamento entre o hospício para locos (o Lenox institute for the mentaly insane) e o bordel onde o show must go on. Dois níveis de subjugação da capacidade de agência; dois retratos auspiciosos da instituição total. Num pratica-se a subjugação da mente; no outro a subjugação do corpo. Dois níveis de subjugação internamente relacionados nos quais o único acto verdadeiramente livre só pode ocorrer dentro da imaginação. A tradução portuguesa de “mundo surreal”, título arranjado à pressa para sossegar os incautos e os adolescentes atrasados mentais, está para o filme de Snyder como a fuga radioactiva de Fukushima está para o sashimi. É que não se trata do surrealismo dos mundos, que são vários, trata-se de saber para onde fugimos quando o controlo sobre o nosso destino é absoluto. Sim, tem por lá umas evocações soft porn manga comic trash fanzine, mas isso faz parte de um universo de resistência. A palavra-chave (e key tem uma importância desproporcionada no filme) é resistência. Claro que aqui podemos sempre interrogar o filme, e Snyder por arrastamento, quanto ao propósito da simbólica da resistência escolhida. E podemos chegar à conclusão que a bitola desceu relativamente aos dois anteriories produtos saídos da cabeça de Snyder (300 e Os Guardiões). Talvez o nível de puerilidade deste Sucker Punch seja incomportável para uma mensagem que se pretende de resistência absoluta (contra um controlo absoluto). Talvez a colagem demasiado explícita ao universo Manga, com o recurso tão típico à colegial de collants em golpes de karaté, seja demasiado apócrifa para a inscrição de uma mensagem de resistência consequente. Porém, não deixa de fazer sentido, o grito pungente, que quanto a mim está subentendido, de recuperação dos velhos chavões de “imaginação ao poder”. Snyder, vai-se notando, é um realizador que anda a par das inovações filosóficas e políticas. Não apenas a temática do sacrifício aparece uma e outra vez na sua filmografia, como esta é sempre apresentada como acto último, final – o verdadeiro acto é aquele que baralha as coordenadas do que existe e assim fazendo desfere um golpe certeiro no coração do poder. Para além disso, e é aqui que eu acho que devemos olhar com alguma detença, sugeriria que os três níveis nos e entre os quais o enredo se desenrola terão algo a ver com a tríade lacaniana-zizekiana imaginação-simbólico-real. Não será seguramente por acaso que a transição entre o momento do asilo de loucos e o bordel se dá durante uma experiência de regressão operada pela psiquiatra a uma das pacientes. Também não será coincidência que esse mesmo momento psicanalítico se desenrole num palco, onde o acto da violação é recriado mas apenas no que diz respeito ao contexto dessa mesma violação. Se assim for – e eu estou tentado a acreditar que sim – o que temos é o Real real (o hospício) o simbólico (o bordel) e o imaginário (as fantasias de super-heroína onde a protagonista mergulha cada vez que quer agir no real). Nem será estranho que a acção prática, empírica, tenha sempre que ser despoletada no domínio do simbólico…. Mas Sucker Punch deve ser lido também como um momento de desalento. Surge depois da crise de 2008, e sobretudo depois da decepção de quem esperou grandes mudanças e foi brindado com mais do mesmo. No meio da alucinação digital, quase se pode ouvir esse suspirar desanimado e o seu corolário imediato que é nem mais nem menos que o facto de a batalha só poder ser travada no virtual.