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O Al-Andaluz regressa a casa (título cheio de intonações islamofóbicas mas ao qual não consegui resistir)

Março 2, 2011

 

A tragédia humanitária que ganha contornos bem reais na fronteira entre a Líbia e a Tunísia terá repercursões necessárias na Europa. Os milhares de refugiados líbios, a que se juntarão os previsíveis milhares de tunisinos e eventualmente egípcios não têm outra saída que não seja o Mediterrâneo. Os países vizinhos estão suficientemente debilitados economicamente para os integrarem e é natural que com a permanência de contingentes crescentes, alguma conturbação social comece a emergir. Não vai haver trabalho para estes refugiados do Magrebe; e a única solução plausível será a de rumarem em direcção às costas europeias.

António Guterres, o actual Alto Comissário das Nações Unidas para os refugiados, avisou recentemente que a Europa teria que começar a tomar providências para receber estas populações. Pelo facto de o Alto Comissário ser português, é mais que natural que Portugal, mais do que qualquer outro país, seja chamado às suas responsabilidades e lhe seja exigido pelos parceiros europeus um esforço adicional na recepção destes refugiados. Para além disso, Portugal tem um cadastro relativamente sumido em matéria de recepção de refugiados. Não apenas os números de indivíduos que entram através do regime do asilo são absolutamente residuais quando comparados com a maioria dos países europeus do núcleo dos 15, como não tem sido alvo preferencial dos requerentes. Mas eu prevejo que isso vá mudar. E que as consequências serão extremamente interessantes de seguir.

A uma Europa do Norte que se sente a abarrotar (a expressão Das Bott is voll ganha uma nova actualidade) de imigrantes islâmicos, a última coisa que irá aceitar é receber mais árabes. Claro que a coisa será combinado segundo os preceitos do burden sharing, mas dado que o desequilíbrio económico é determinante nestas negociações, países como a Alemanha, a França ou a Holanda não terão dificuldade em impor a sua agenda e concepção do burden sharing mediante chantagem de socorro económico. Restam os países do Sul e do Leste. Se aos primeiros parece pacífico serem os receptores naturais, dado terem laços mais próximos e históricos com o Norte de África, para os segundos o cenário será com certeza mais complexo. O Leste Europeu tem sido até ao momento relativamente cioso das suas migrações, que abrangem sobretudo os países vizinhos numa dinâmica de mobilidade dentro do próprio bloco geográfico-político a que se convencionou chamar Europa de Leste. A ideia de receber milhares de muçulmanos não lhes deve parecer risonha. Para não falar de que é justamente ali, no espaço do velho império austro-húngaro que as mais persistentes tendências nacionalistas parecem medrar. Ou seja, são países cujo potencial xenófobo é facilmente manipulável pelas forças e retóricas políticas. Por outro lado, argumentarão que têm que lidar com o problema cigano, problema para o qual, segundo dizem, não encontram solução. Como a porosidade das suas fronteiras é assinalável, a grande Alemanha oporá resistência a que se instalem grandes contingentes muçulmanos nos territórios vizinhos, temendo que acabem por se instalar ilegalmente no seu país. A Alemanha não quer igualmente mais imigrantes islâmicos de baixas qualificações; para isso basta-lhe os turcos cujo problema de integração tem-se vindo a agudizar. Por conseguinte, o panorama para aquelas bandas não parece oferecer grande margem de manobra.

Portugal, até pelos excelentes resultados que tem obtido nos areópagos internacionais quando se trata de comparações internacionais de política migratória, parece oferecer excelentes condições para a recepção das massas muçulmanas da Tunísia, Líbia e eventualmente Egito. E isto vai colocar Portugal pela primeira vez face à “verdadeira” diferença. Até aqui, as comunidades imigrantes que habitavam em Portugal não ofereciam problemas de maior. Ou vinham directamente de espaços de fácil assimilação, como os PALOP e o Brasil, ou se confundiam facilmente com as populações rurais e nortenhas do país, como é o caso dos imigrantes de Leste. Em boa verdade, nunca a verdadeira alteridade nos tinha batido à porta em números significativos. Essa alteridade que é a crux dos velhos sistemas multiculturais europeus colocados em estudada pane pela pressuposto irredutibilidade da cultura islâmica. Nunca vimos mulheres de lenço na cabeça em quantidade antropologicamente suficiente para sentirmos os nossos usos e costumes ameaçados. É certo que existem populações islâmicas em Portugal. De ínfima expressão, todavia. Uns guineenses espalhados pela AML; uns bangladeshis concentrados no Martim Moniz e uns Ismaelitas, ricos, dispersos pelos bairros de classe média alta. Nada de parecido com o que vimos em cidades como Antuérpia, Paris, Berlim ou Viena onde essa presença se faz sentir ostensivamente no quotidiano urbano. Esse confronto com a alteridade que choca (no pressuposto de que existem expressões mais destabilizadoras de um contínuo cultural do que outras), esse nunca o conhecemos. Mas estamos em vias de o conhecer. E esse vai ser um teste interessante de seguir no país da hospitalidade genética. Este país que, como bem se pode ver pelos comentários blogoesféricos, alberga tanto islamofóbico anónimo. Como reagiremos à presença dos hijabs que num futuro bem próximo colorirá as nossas ruas?  

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