Contos da misogenia

A entrevista de Miguel Sousa Tavares a Dilma Rousseff, a presidenta do Brasil, pautou-se por um misto de provincianismo arrogante com sexismo aberrante. Do primeiro sobressaiu pelas piores razões o ar condescendente com que MST media as palavras e intenções da presidenta da quinta economia mundial. Alinhando com uma certa elite brasileira, geralmente associada à Revista Veja, MST replicou aquela condescendência petulante com que a comunicação social de direita conservadora olhou para Lula e olha agora para Dilma. Pontuando a entrevista com comentários de descrédito que MST nunca se atreveria a fazer a outro presidente, ficou em evidência o provincianismo da elite portuguesa “leblonesca” que partilha com a sua congénere brasileira o desprezo por Lula agora transferido para Dilma.

Do segundo, MST deu uma demonstração do mais epidérmico sexismo, que se já era suficientemente mau em qualquer outra mulher o que dizer da presidenta do Brasil. Revelou-se este em particular quando MST confrontou Dilma com a acusação de “mau feitio”. Para além do mal entendido cultural e linguístico que gerou, levando Dilma a pensar que o entrevistador se referia à sua farpela, observação que MST se prontificou a desmentir com ar trocista e marialva, sublinhando que não se referia à toilet, para além disso, e como se isso não fosse suficientemente mau, é difícil imaginar MST a acusar qualquer outro presidente (homem!) de mau feitio. Ninguém imagina MST a insinuar que Obama tem mau feitio, nem a sugeri-lo a José Eduardo dos Santos, nem tão-pouco a David Cameron… não, ninguém imagina, como era aliás inimaginável fazer a insinuação a Dilma Rousseff. Logo de seguida, mal logrado o faux pas do “mau feitio”, MST faz uma pergunta que parece saída da cartilha de Carlos Castro: porque razão se emocionara a presidenta no momento da sua tomada de posse? Cum caraças, só mesmo por ser mulher é que o gajo manda uma destas! Como quem diz, coitadinha da mulherzinha que nem se sabe comportar como um homem em momentos de gravidade estatal. Os homens não choram, porra! Cavaco pode dizer atoardas que nem uma peça de artilharia de infantaria 1, mas chorar?, isso é pás dondocas!

A coluna vertebral do caracol

Foi assim que Miguel Portas definiu hoje a rectidão de Passos Coelho. E acrescentou: um homem que chumba o PEC porque não está de acordo com os sacrifícios que ele impõe aos portugueses, e que passado 24 horas vem a Bruxelas dar o seu apoio a todos os compromissos assumidos por Portugal nesta matéria, é um “farsolas”. É claro que farsolas tanto se presta a uma etimologia que supostamente derivaria a expressão da palavra farsa, como do calão que remete para um pintas, um tipo sem estilo, um gajo sem panache, etc.

Imaginemos, como certamente aconteceu, que Miguel Portas não se refere à indumentária de PCoelho, tão-pouco ao modo como arranja o cabelo (já de si suficientemente farsola) e que tem em mente o logro político que Passos Coelho é. Logro esse que o levaria a dar por certo retumbante derrota eleitoral.

Duas coisas a dizer sobre o caracol. O movimento de defesa mediante o anunciado ataque aos pensionistas colhe a sua lógica nos arcanos do mais estafado populismo. Passos sabe, que apelar para o sentimento de insegurança de praticamente 3 milhões de portugueses pode render nas próximas eleições; e esta é uma base de recrutamento eleitoral muito sensível às orientações políticas. Miguel Portas parece não ter isso em conta; parece negligenciar que Portugal é um país envelhecido, de gente velha nos lugares de poder, de uma elite velha em quase todos os domínios institucionais. Certamente, Passos leva um puxão de orelhas europeu e não fica bem na fotografia em Bruxelas; mas em campanha eleitoral vai poder arvorar a sua solidariedade para com os idosos e pensionistas deste país. Será coincidência o facto de esta simbólica do país solidário com os pensionistas coincidir tão estreitamente com o discurso populista de Paulo Portas? Não creio.

Segundo, a alta política europeia, se bem que divulgada e comentada pelo Jornal de Negócios ou o Público, não é directamente transferível para o horizonte do quotidiano político nacional, e ainda menos para as respectivas interpretações individuais desse mesmo horizonte. A derrota de Passos em Bruxelas não se traduz necessariamente num golpe na sua popularidade entre portas. Passos mostra que é uma personagem sem coluna vertebral, mas disso já suspeitava quem estivesse estado atento à sua carreira política. Mostra também que cede perante os ditames de Merkell. Mas isso já tínhamos em José Sócrates, e nesse sentido, a natureza da vassalagem não é qualitativamente diferente. Do ponto de vista do Bloco, esta postura é desprezível. Porém, do ponto de vista do eleitorado português, o que conta é afastar Sócrates, seja a que preço for. E isso foi Passos Coelho que acabou por desencadear.

Estas duas manifestações, mal ou bem, convergem no essencial para a definição de um espaço político alternativo (ou para a representação deste) que consegue ofuscar as sistemáticas contradições de Passos. Aliás, como escrevi num post abaixo, estas opções aparentemente irreconciliáveis só o eram em virtude da opacidade retórica. No comunicado feito pelo PSD, em inglês, nunca esquecer, estava lá tudo dito.

Adeus Liz Taylor

Where now? Who now? When now? Unquestioning. I, say I. Unbelieving. Questions, hypotheses, call them that. Keep going, going on, call that going, call that on.

Estas primeiras linhas do Unamable servem bem para ilustrar qualquer coisa a que se convencionou chamar a situação de crise política nacional. Vamos fingir que sim, que temos caminho pela frente, que o que vem aí é um começo, um novo começo. Vamos fingir que sim, que não tarda muito e a vida mudará radicalmente, com manhãs gloriosas e solarengas, e dias e dias e dias sorridentes e desassombrados. ´Bora fingir que sim.

Passos e Cavaco, inquestionavelmente, grandes estrategas. Sócrates lá teve que assumir o lugar do cordeiro sacrificial. O ECB vai-nos entrar pela porta adentro, como se não tivesse já colocado as estacas para as suas tendas de campanha, bem no interior da cidade sitiada. Como se. Mas o remédio que Sócrates engolirá hoje e amanhã, saberá a fel e será difícil de deglutir. Só um gajo suficientemente teimoso, de uma teimosia forjada e reforçada em ilusões e deficientes interpretações, iria novamente a jogo. Sócrates é esse gajo. Gostam de lhe chamar a batalha perdida. Como se a guerra não tivesse perto do seu desfecho e mais não faltasse do que arrumar as armas e limpar as garrafas e copos de plástico do campo de batalha. E no entanto, o animal cru que Sócrates terá que engolir entre hoje e amanhã, será vomitado, regurgitado, no seu regresso. A boa-nova que virá de Bruxelas será a da formalização do pedido de ajuda ao FMI. Passos Coelho livrou-se de boa. O governo implodiu; e ele ficou sentado a ver. Com Cavaco a deixar a coisa arrastar-se; vento de feição para o psd alcançar o poder. Não importa. O que aí vem, tanto pode ter a cara do psd como do ps – não está nas mãos deles. Mas Sócrates foi entalado. “Xadrezisticamente” entalado. Temos jogador. Se a este somarmos o rei da demagogia Paulo Portas, temos governo…

Ontem, uma rapariguinha falava com um amigo: ele tem razão, o Paulo, com os seus dentes muito alvos, a dizer que enquanto os lugares de Estado fossem distribuídos pelos dois partidos do centro, nada mudaria… Pois não, é preciso um terceiro para que a distribuição seja mais equitativa. A rapariguinha esquecia, com a memória fraca e dada a arroubos momentâneos da adolescência, que Portas já esteve num governo, e a sua actividade predilecta era distribuir cadeiras de acessoria pelos seus muchachos do cds-pp, aqueles jovens garbosos de melenas soltas e compridas. Começaram a invadir gabinetes, e aquelas melenas compridas e bem cuidadas passaram a ser quase que ornamentos necessários nos corredores dos ministérios. As melenas estarão de regresso. Pouco falta. E como dizia Vitorino na manifestação do fim-de-semana passado “já estou a protestar contra o próximo governo psd-cds”. Haverá grandes diferenças? Não, não há. Assim como não há qualquer diferença entre o PEC IV e a agenda de encargos do fundo de estabilização. Aux revoir Sócrates; aux revoir Liz Taylor.

As hipertextualidades

Esta redoma de hipocrisia onde as duas primas-donas Sócrates e Passos Coelho nos enfiaram terá que estoirar por algum lado. E não me refiro à mais que provável (e anunciada) queda do governo. Refiro-me à ideia segundo a qual há uma alternativa às reformas sanguinárias do fundo de estabilização na agenda da oposição de direita. A escolha de palavras do comunicado do PSD é quase enternecedora “A broad coalition for change”. Bela tirada, digna da assinatura de um qualquer acordo de partilha de territórios, declaração de conquista ou apelo às armas por parte dos aliados. Soa imediatamente a OTAN ou a UNIFOR. E o que vem a seguir, ou antes, na verdade da sequência textual, primeiro,

“Yet PSD is unable to support the announced new measures, not only because of their likely limited and ineffectual implementation but also due to the sacrifices that they impose on the most vulnerable members of society.”

Os portugueses meu deus, os portugueses – quem os poderá sacrificar ainda mais na ara da atroz consolidação económica? Para depois

 “The final outcome of the process initiated with this surprise announcement could be favorable if political parties and social partners are more supportive than they have been in the last two years of a well designed program of fiscal consolidation and structural reforms.”

Passámos da impossibilidade de apoiar sacrifícios desnecessários, para a necessidade de os impor com legitimidade política. Os portugueses e os seus sacrifícios que se fodam; é preciso é dourar a pílula ou então mostrar ao povoléu que isto aqui tem dono.

A mensagem é clara, mesmo em inglês. E lá fora há com certeza quem a esteja a ouvir: isto não vai lá sem “suspensão de qualquer coisa” que seria a democracia caso esta ainda estivesse em vigor, porém desconfio que não esteja, e que por esta altura o que é mesmo preciso é criar a smoke screen política que leve a pensar que o comprimido, por mais amargo que seja, está a ser ministrado com legitimidade.

Nada é dito sobre o facto de o FMI, quer seja com Sócrates quer com o previsível próximo primeiro Passos Coelho, há muito ter franqueado as portas da cidade, e os bárbaros já se regalarem a beber do nosso vinho e a comer as nossas mulheres. Forma eufemística de dizer que nos fodem de todas as maneiras e ohne Vanzeline.

The medium is the message – but you must pay for it!

É interessante que na altura em que o Ipad começa a circular, os conteúdos outrora de acesso livre dos jornais mais importantes, passaram a ser pagos. Querem operação mais concertada do que esta? Pois, não encontram.

Os senhores da comunicação social que ganham rios de dinheiro acharam que estavam pobrezinhos e pensaram que os milhões da publicidade não chegavam, logo era preciso privatizar de uma vez por todas os conteúdos online. Interessa que estejamos em tempo de crise, que a malta ande a ser esbulhada por todos os lados, ou que aquilo que por lá se escreve sob a rúbrica Opinião tenha por vezes menor qualidade do que se escreve gratuitamente nos blogues? Não, não interessa puto. Aliás, se se conseguir capitalizar o que se vai escrevendo em blogues no salto publicitário para um diário ou um semanário, melhor ainda. Os nomes vão já somando umas quantas caras que aparecem com o seu espaço pago nos jornais de maior circulação.

Do New York Times ao Expresso – salvaguardando as distâncias – a voragem parece ser a mesma. O NYT vai colocar os seus conteúdos online acessíveis mediante uns modestos trezentos e qualquer coisa dólares por mês, e o Expresso, se bem que nos antípodas, começa por barrar as “opiniões” livres – como já fizera o Público – mas pouco tardará para que Expresso, Público, DN e o mais que seja se apercebam da galinha de ovos de ouro que andam a matar. O que terá consequências imprevistas, visto de uma perspectiva global, porque como as notícias circulam em escadinha, quer dizer, os mais pequenos alimentam-se dos maiores que por sua vez se alimentam das grandes agências noticiosas, o preço terá tendência a subir cumulativamente como numa apropriada economia de escala para custos. Queixava-se um jornalista que se os principais jornais dos quais ele fazia uso diariamente para se “inspirar” começassem a fazer-se pagar pelos seus conteúdos, não haveria orçamento que chegasse. Mas esta acumulação em cascata terá sempre que ser paga, e invariavelmente será o desgraçado do leitor, último destinatário, que estará cá para saldar as contas.

Apocalypse Now

Dou por mim a pensar como o amor pela guerra de que falavam alguns heróis da Ilíada forja-se em sentimentos ambíguos. Depois de muito zurzir a intervenção norte-americana no Iraque, não encontro os mesmos argumentos para criticar a intervenção internacional, liderada pela América, na Líbia. A questão de quem lidera o quê, se importante para as diatribes de um Nuno Rogeiro e para as espasmódicas convulsões do direito internacional e dos seus agentes principais, não tem qualquer relevância quando as bombas caem e os corpos carbonizados ficam esmagados debaixo de toneladas de betão. Por isso é que é terrível deslizar fagueiramente para o pior do pereirismo (de Pacheco Pereira) ou seja a crença de que existem bombas justas que tanto se aproxima, em verdade, é-lhe consubstancial, à doutrina da guerra justa.

E no entanto não consigo disfarçar um frémito de felicidade justiceira perante a intervenção dos novamente aliados na Líbia. De tal maneira que até o nome da operação bélica – a belíssima Odisseia ao Amanhecer – me deixa estranhamente tranquilo, assoberbado até, perante o sublime das suas homéricas invocações. E no entanto são os compagnons de route do costume, o mesmo é dizer, os suspeitos do costume: lá estão os norte-americanos e o seu super potencial bélico; lá estão os franceses e o seu projecto colonial redivivo, e os não menos colonialistas britânicos e o seu projecto de uma pax britânica para o Norte de África. Estão lá todos, portanto; todos os que contracenaram naquele maléfico bailado da invasão do Iraque. E no entanto não me sinto revoltado. Bem pelo contrário: anseio por ver as bombas dos “aliados” começarem a despenhar-se sobre as tropas de Kadafi e quero que as suas guarnições sejam desmembradas num tempo ainda mais fantasticamente célere do que aquele que levou a pôr o exército de Sadam de rastos.

Concluo: também eu tenho as minhas bombas justas. Mesmo que, é quase certo, estas matem mulheres e crianças, destruam lares e recursos, desfigurem edifícios e monumentos. E perante isto, nem um remorso, nem um esgar – quero ver Kadafi morto e o seu cadáver arrastado pelas ruas. E sinto-me bem quando vejo na CNN o festival pirotécnico dos mísseis a dardejarem os céus. E não contive o contentamento quando soube que diversas frotas de guerra se deslocavam para a costa da Líbia. E quando Kadafi, num dos seus acessos de alucinação – que vão sendo cada vez mais frequentes -, declara guerra à Europa e diz que todos os ditadores caíram às mãos do povo, espero confiante que a Europa lhe faça engolir essas palavras beijando na queda da morte as areias ressequidas do deserto. Por que razão Kadafi e não Saddam? Nesta altura… nem sei que diga. De tal forma o sentimento é insidioso (perigosamente insidioso) que dou por mim a copiar um tema fílmico que tantas vezes foi usado para glorificar a guerra do Iraque na blogosfera.

A quinta coluna

O governo está em vias de cair. O FMI bate insistentemente à porta, e dir-se-ia que o pec IV é um antecipação política daquilo que o FMI virá cá fazer assim que instalado. Aqueles que dizem que o FMI é preferível às medidas de austeridade, brincam com as palavras: o FMI implica as medidas de austeridade. Uma forma mais suave de as impor é, como tem feito José Sócrates e o governo PS, a conta-gotas. Se alguma lição os líderes europeus extraíram do exemplo grego e irlandês, terá sido a de que é preferível distribuir as responsabilidades políticas de medidas impopulares. Para o Fundo de estabilização e os seus técnicos não lhes interessa de maneira nenhuma serem os alvos de todo o ódio e hostilidade da parte das populações. Isso era no tempo da retórica do imperialismo norte-americano simbolizado económicamente nas duras medidas de reajustamento estrutural impostas aos países em bancarrota.

Actualmente, e fora do clima da guerra-fria, o FMI não tem qualquer interesse em ser visto como o mau da fita. Neste sentido, o governo português, ao protelar a entrada do fundo, não se escusando por isso de aplicar as impopulares e violentas medidas de reajustamento que o FMI tem na agenda, pretende essencialmente duas coisas. Por um lado, ganhar tempo. Tempo político, bem entendido. Tempo para respirar sem entregar em debandada uma situação insustentável; qualquer coisa entre o descalabro e o crime de cidadania que em tempos Durão Barroso acusou António Guterres de ter cometido. Por esta bitola, o que Sócrates fez seria avaliado como um crime contra a humanidade! Por outro lado, o protelar da entrada do fundo pretende alijar as responsabilidades que lhe seriam imputadas. Por mais que a Europa goste das suas contas sólidas e inequivocamente superavitárias, não lhe interessa minimamente que o descontentamento popular seja todo direccionado para as suas acções. Alguém, através dos acontecimentos gregos e irlandeses, terá pensado, algures nos muitos salões da comitologia europeia, que o remédio teria que ser dado em doses mais leves, as injecções teriam que ser espaçadas, o doente teria que se ir habituando à posologia paulatinamente, antes que lhe fosse administrada a dose de cavalo que ou o mata ou o espicaça até à exaustão.

Porque em boa verdade, ninguém acredita que, caso a Alemanha e a França quisessem o fundo de estabilização imediatamente em Portugal, o governo português teria argumentos para os dissuadir. Não. O que quer que tenha sido congeminado entre Bruxelas e o Bundestag teve com certeza a ver com redistribuição de responsabilidades políticas, mais do que monetárias. Se as sublevações na Grécia e na Irlanda após entrada do fundo impuseram um preço político negativo na acção europeia, em grande parte, é certo, direccionado para os respectivos governos enquanto os responsáveis por essa entrada; no caso português uma considerável tranche da impopularidade terá sido absorvida pelo governo. O resultado será o mesmo, quanto a isso não há que ter ilusões. Governos que caem, altamente impopulares (Irlanda), ou que ficam, moribundos na sua impopularidade crescente apenas à espera de um momento de transição (Grécia). Descontentamento expresso na rua com manifestações de protesto com previsível intensidade crescente. O que muda no caso português, é que muitas das medidas que nos dois outros casos foram tomadas em paralelo com o recurso ao fundo de estabilização, estão já a ser tomadas como cenário preparatório para a entrega e aplicação da agenda de reajustamentos desse mesmo fundo.

Sócrates, ao protelar o inevitável, não está apenas a ser teimoso nem tão-pouco a tentar salvar a sua imagem política. A primeira seria facilmente debelada, caso Merkel considerasse essa teimosia contraprodutiva para a segurança do euro; quanto à segunda, nada há que reste para salvar – Sócrates corre o risco de ser o político mais impopular desde o Cavaco das cargas policiais. Nada que o tempo não cure.

A benevolência da grande Europa resulta de uma estratégia de diffusing effects, o que neste caso equivale a disseminar responsabilidades políticas. É isso que leva a que a Europa tenha sido bem mais paciente connosco do que com a Grécia ou a Irlanda, e não qualquer diferencial apreciável na robustez da economia dos três países.