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Lampedusa

Fevereiro 23, 2011

As marés de gente que têm dado à costa em Lampedusa constituem nem mais nem menos do que a face material das chamadas “revoluções do Norte de África”. Quem achar que o problema (ou os muitos e variados problemas) daqueles países se resolveria com o advento de uma sociedade democrática que se demita imediatamente de o afirmar. A causa do descontentamento vai muito para além da existência de regimes ditaturiais e corruptos e radica em questões sociais mais graves e estruturalmente consolidadas. Era previsível portanto que os espíritos humanistas da sociedade ocidental começassem de repente a sentir-se irrequietos perante a derrocada de tais regimes. É que muito objectivamente, esses tais (e tão odiados!) regimes serviam de tampão entre a escassez africana e abundância europeia. Retirado o tampão, a maré humana bate-nos à porta.

Neste sentido, a preocupação expressa pelo Ministro Luís Amado, apelando a um plano Marshall para o Norte de África, não faz mais do que amplificar a preocupação que anda pelas cabeças decisoras dessa Europa por estes dias que correm. Lembremos, que na altura do original plano Marshall a preocupação que então se auscultava pelos (grandes) políticos de então, era a de conter o avanço soviético mediante uma Europa vergada pela crise económica. Mas por outro lado, tinha pretensões económicas bastante concretas. Uma delas era criar uma zona de exclusividade comercial com os Estados Unidos, reinstituindo o velho parceiro comercial de antes da guerra. A consequência directa e expectável era criar um gigantesco mercado para os produtos americanos que já desde os anos vinte andava a ser cobiçado pela sua pujante economia. Podemos, por conseguinte, traçar o paralelo entre estas duas condicionantes económicas e sociais e a intenção de repetir a história com os países árabes como beneficiários. A primeira expectativa é bem evidente: assegurando uma dependência económica por parte das novas democracias árabes, a Europa afasta assim o fantasma do fundamentalismo islâmico. A outra, de recorte mais economicista, diz que a criação de uma zona comercial privilegiada com o Norte de África assevera uma posição cimeira à economia europeia e pode bem constituir o impulso imprescindível contra os ataques ao euro por parte dos mercados internacionais. Resta saber, contudo, onde arranjaria a Europa o dinheiro para um plano Marshall de salvação de países produtores de petróleo? Teria que se dar ao trabalho de justificar perante as suas populações porque razão não tem dinheiro para capitalizar o sector estatal ou para socorrer as economias em declínio da sua periferia, mas conseguiria reunir vários biliões de euros para reconstituir as débeis economias árabes. Isso é um enredo que ainda está para ser desfiado.

O outro lado, o aspecto mais demográfico da questão, não se colocava de maneira sequer similar na altura do original plano Marshall. Mas coloca-se com grande acuidade à Europa actual. É aqui que esbarram todos aqueles edulcorados discursos sobre o enriquecimento das sociedades europeias através das vagas migratórias e da sua importância para a saúde demográfica de uma Europa envelhecida. Retórica e nada mais do que retórica. Como fica bem patente pelo pânico demonstrado pelas autoridades europeias e italianas em particular, ninguém está disposto a abrir as fronteiras para o rejuvenescimento da população autóctone. Bem pelo contrário: à chegada de contingentes de desgraçados a implorarem por ajuda, soam de pronto todas as sirenes de alarme de invasão por parte de esfomeados e da ralé africana. Lampedusa mostra bem a hipocrisia do governo (e dos seus governantes) europeus.

A melhor análise do problema vem de um think tank conservador britânico e diz em termos muito simples aquilo que as boas consciências apenas pensam nos corredores privados do poder. É assim: a Europa deixou de ter uma economia industrial; a aposta é no terceiro sector; e este por sua vez exige competências que os novos despojados da economia mundial não possuem. Repare-se que no boom industrial do após-guerra a questão das competências dos trabalhadores nem sequer se colocava. Pretendia-se mão-de-obra disponível e barata e não era preciso saber a língua do país ou tão-pouco a sua cultura para operar com uma máquina numa qualquer fábrica da Lorraine. Actualmente as coisas são radicalmente diferentes. O terceiro sector exige bem mais do que repetição e destreza manual; exige compreensão, conhecimento simbólico e destreza cognitiva. Tudo coisas que geralmente se declinam numa língua específica e que levam pessoas a contactarem umas com as outras ao contrário do isolamento comunicacional da linha de montagem. Este é o problema da imigração na Europa. Mais nada. E o pânico experimentado mediante os acontecimentos de Lampedusa traduz esse medo. Desenganem-se aqueles que acham que a Europa é ciosa das sua tradições democráticas e que vê com reservas a incorporação de um contingente islâmico anti-democrático e com valores às avessas. Esse não foi o problema em sociedades que emergiam de sangretos conflitos coloniais, porque haveria de ser agora quando o terrorismo faz a sua aparição esparsa e intermitentemente e ultimamente apenas lá para os lados do temível bastião islâmico?

Não, o problema é económico e só económico. O problema é que o terceiro sector não é compatível com baixas qualificações (mesmo que uma parte crescente dos jovens do mundo islâmico cada vez mais se qualifique, estas qualificações não são directamente convertíveis às necessidades do terceiro sector) e carne para o canhão industrial já há que chegue na China e na Índia. Aliás, a solução óptima, como indicia a tese do plano Marshall para os árabes é justamente a de revivicar o sector industrial por lá, mantendo as populações presas aos seus territórios e deslocando as indústrias para países onde a mão-de-obra não tem direitos nem regalias. Um mercado gigante de consumo e de força de trabalho para concorrer com a China e com os restantes brics.   

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