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Do Egipto com amor

Fevereiro 3, 2011

O desenrolar dos acontecimentos do Egipto mostra bem como os excitados do twitter e das redes sociais têm uma visão confortável do que seja fazer uma revolução ou protestar contra um poder hegemónico. Seguramente que estes novos suportes comunicacionais possuem implicações significativas nas performances dos protestos; para além disso, mantêm uma visão de conjunto, em tempo real, que de outra maneira seria impossível. Desde aí até dizer que eles são os motores da revolução vai um passo gigantesco.

Talvez a lição mais esclarecedora a retirar da violência no Egipto é que uma comunidade comunicacional pós-moderna pode perfeitamente conviver com irrupções de barbárie e da mais extrema violência. Este é um signo dos tempos turbulentos que vivemos. Mostra, por outro lado, que as revoluções não são coisas confortáveis, feitas no recesso do lar, entre o dedilhar fervilhante do black berry e o esquadrinhamento obsessivo do twitter. Isso é para os profissionais da informação e para os comentadores que gostam de usar a sua verbosidade para dizer coisas grandiloquentes como “a revolução do twitter” ou “o poder da internet”. Não, o que o Egipto mostra é que as revoluções têm sangue; e têm-no tanto mais quanto mais fundas e inamovíveis são as raízes do poder corrupto.

Revela, paralelamente, que nem toda a saída de tanques para a rua origina um 25 de Abril. Tudo depende de quão bem pagos se encontram os militares e quão fundo vai a sua situação de privilégio na geral distribuição de prebendas a grupos apaniguados do poder. O comportamento dos militares na noite passada foi disso claro exemplo. A sua inacção, provou que não estão ainda (?) dispostos a tomar o lado do povo.

Das imagens que vi na CNN, a ruptura entre a população começa a assumir a configuração de uma guerra civil. E diz-se que muitos dos apoiantes de Mubarak são recrutados nas fábricas e instruídos a semear o caos pelos próprios chefes. Este é um indício que um erro muito comum entre os nossos (cegos) comentadores tende a negligenciar. É que por detrás de poderes absolutos encontram-se sempre grupos económicos absolutos – fazendo estremecer os primeiros, provoca-se, ipso facto, o sobressalto dos segundos.

No momento em que escrevo as cenas de batalha campal urbana sucedem-se. Na praça Tahrir blocos de apoiantes e contestantes de Mubarack lutam com pedras e petardos, desempenhando uma coreografia bélica de avanços e recuos. Outras, mais tenebrosas imagens, revelam que prisões improvisadas estão a ser construídas de ambos os lados das barricadas onde os capturados de uma e outra facção são exibidos – espancados e manietados -, como troféus. Isto, reconheçamos, nada tem a ver com revoluções comunicacionais. E as revoluções são isto. O que começou como um protesto pacífico, tem vindo a ganhar corpo e a tornar-se numa sangrenta batalha urbana.

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