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Pessoas que não têm lugar

Fevereiro 2, 2011

No fabuloso conto “A fera na selva” de Henry James, um homem vê a vida passar-lhe ao lado, e mesmo no momento em que poderia inverter a sua situação, mudar tudo abruptamente, aventurar-se para um outro oceano de emoções e vivências, falha o salto – assim como o poeta falhou o golpe de asa – e fica parado no tempo, com o tempo, porque este não pára, a passar-lhe ao lado. O conto nada tem a ver com a selva, não evoca brenhas intemporais de Kippling nem tão-pouco negritudes morais como em Conrad. A Fera simboliza apenas o salto falhado.

“Something or other lay in wait for him, amid the twists and the turns of the months and the years, like a crouching Beast in the Jungle.  It signified little whether the crouching Beast were destined to slay him or to be slain.  The definite point was the inevitable spring of the creature

O maior émulo do conto de James vem em registo cinematográfico e chama-se Mary, a personagem principal do último filme de Mike Leigh. Comecemos por aí: porque razão considero que é Mary a personagem central do filme, e não o casal Tom e Gerry, como a generalidade da crítica parece assumir? Tem tudo a ver com distintas leituras que se fazem sobre o filme. Para mim, o filme é sobre gente que não tem lugar; não tem lugar em famílias, em bairros, em relações amorosas, etc. Gente que podendo viver o essencial do seu quotidiano, trabalhando, cultivando rotinas nos reiterados movimentos de deslocação da casa para o trabalho, não entram no cálculo de mais ninguém: gente cuja solidão é a face última da existência. Este entendimento está em franca contradição com aquela leitura que vê no casal Tom e Gerry o oráculo de uma série de satélites que gravitam em torno dele e dele recolhem a sua absolvição (ver crítica do I, por exemplo). Se assim fosse, seria difícil explicar a cena final do filme, onde somos deixados com o olhar perdido de Mary consumindo-se num silêncio acabrunhante que ocupa com gradual voracidade a conversa dos comensais. Mary abandonada na solidão mais terrífica, entre pessoas que supostamente são o seu círculo de amizade.

Ken é outra das pessoas que não tem lugar. Vive sozinho, consome-se num trabalho para o qual deixou de ter utilidade, condenado a ver-se ultrapassado pelos jovens que entretanto vão substituindo os seus velhos colegas de laboração, apagando desta forma os últimos resquícios de um mundo reconhecível. É verdade que quer Ken quer Mary procuram conforto no seio do casal Tom e Gerry, em tudo diferente destes dois. Mas podemos levar a analogia mais longe, e pensar que Tom e Gerry são, como o seu nome indica, personagens de desenho animado, que existem apenas para assegurar que ninguém se magoa, que assim como nas suas velhas animações, o mundo é suficientemente plástico para satisfazer todas as ilusões. Mas não Mary, nem Ken. E se a ausência de sentido da vida de Ken é secundária, em Mary esta faz-se o seu principal atributo. Querendo agarrar o tempo através da fantasia de uma eterna juventude, é “Mais um ano” que passa sem nada mudar na sua vida. Qualquer tentativa de Mary, qualquer forma de construir ilusões a que se agarrar, de inventar romances, saem sistematicamente goradas. Mary foi traída pela vida. É alcoólica; bebe para esquecer; bebe para ganhar coragem para se levantar no dia seguinte. As escolhas que fez (ou deixou por fazer) não são obliteradas de maneira automática ou voluntarista. Têm consequências. Mas colocar o burden of proof apenas do lado de Mary seria injusto quando não macabro. A vida assim como ela é, foi funesta para Mary. O que lhe aconteceu foi feito por outros e não há razão nenhuma que assista uma acusação inflexível contra Mary. Dizer que esta estaria numa encruzilhada seria eufemizar o buraco sem fundo onde se encontra. E Mary bem que esperneia, bem que quer saltar como a Fera de James… E é apenas mais um ano que passa, e é apenas a solidão que lhe dita a forma, a carne, o futuro.  

Tom e Gerry saem ilesos do contacto com estas vidas perdidas. Eles são, com efeito, um pólo aglutinador da desgraça, um íman que tem a particularidade de desmagnetizar o infortúnio alheio, e nessa capacidade são quase que angelicais, divinos, soberanos na sua redoma de amor e compaixão. Mas nem sempre. A família tem prioridade. E quando Mary tem a veleidade de colocar em risco a tão prezada harmonia familiar, as garras são exibidas com a verocidade de leões a protegerem a prole. E Mary, embora perdoada, é colocada no seu lugar: o lugar das pessoas que não têm lugar.

A imagem final, regressemos lá: Mary envolta pela harmonia familiar de uma família que não lhe pertence, que por mais que ela tente, permanecerá sempre uma outra família. Se o personagem de James falha a vida pelo seu egoísmo; Mary falhou-a pela sua inépcia. Pessoas que não têm jeito para a vida, estão condenadas a não ter lugar nela. Mais um ano passa e apenas a solidão fica. Mary olha em redor; o silêncio instala-se no seu interior; os olhos parecem perguntar insistentemente: Quem sou? Fade out. Mary desaparece das nossas vidas.    

“It was the truth, vivid and monstrous, that all the while he had waited the wait was itself his portion.”
Henry James The Beast in the jungle

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