Lampedusa

As marés de gente que têm dado à costa em Lampedusa constituem nem mais nem menos do que a face material das chamadas “revoluções do Norte de África”. Quem achar que o problema (ou os muitos e variados problemas) daqueles países se resolveria com o advento de uma sociedade democrática que se demita imediatamente de o afirmar. A causa do descontentamento vai muito para além da existência de regimes ditaturiais e corruptos e radica em questões sociais mais graves e estruturalmente consolidadas. Era previsível portanto que os espíritos humanistas da sociedade ocidental começassem de repente a sentir-se irrequietos perante a derrocada de tais regimes. É que muito objectivamente, esses tais (e tão odiados!) regimes serviam de tampão entre a escassez africana e abundância europeia. Retirado o tampão, a maré humana bate-nos à porta.

Neste sentido, a preocupação expressa pelo Ministro Luís Amado, apelando a um plano Marshall para o Norte de África, não faz mais do que amplificar a preocupação que anda pelas cabeças decisoras dessa Europa por estes dias que correm. Lembremos, que na altura do original plano Marshall a preocupação que então se auscultava pelos (grandes) políticos de então, era a de conter o avanço soviético mediante uma Europa vergada pela crise económica. Mas por outro lado, tinha pretensões económicas bastante concretas. Uma delas era criar uma zona de exclusividade comercial com os Estados Unidos, reinstituindo o velho parceiro comercial de antes da guerra. A consequência directa e expectável era criar um gigantesco mercado para os produtos americanos que já desde os anos vinte andava a ser cobiçado pela sua pujante economia. Podemos, por conseguinte, traçar o paralelo entre estas duas condicionantes económicas e sociais e a intenção de repetir a história com os países árabes como beneficiários. A primeira expectativa é bem evidente: assegurando uma dependência económica por parte das novas democracias árabes, a Europa afasta assim o fantasma do fundamentalismo islâmico. A outra, de recorte mais economicista, diz que a criação de uma zona comercial privilegiada com o Norte de África assevera uma posição cimeira à economia europeia e pode bem constituir o impulso imprescindível contra os ataques ao euro por parte dos mercados internacionais. Resta saber, contudo, onde arranjaria a Europa o dinheiro para um plano Marshall de salvação de países produtores de petróleo? Teria que se dar ao trabalho de justificar perante as suas populações porque razão não tem dinheiro para capitalizar o sector estatal ou para socorrer as economias em declínio da sua periferia, mas conseguiria reunir vários biliões de euros para reconstituir as débeis economias árabes. Isso é um enredo que ainda está para ser desfiado.

O outro lado, o aspecto mais demográfico da questão, não se colocava de maneira sequer similar na altura do original plano Marshall. Mas coloca-se com grande acuidade à Europa actual. É aqui que esbarram todos aqueles edulcorados discursos sobre o enriquecimento das sociedades europeias através das vagas migratórias e da sua importância para a saúde demográfica de uma Europa envelhecida. Retórica e nada mais do que retórica. Como fica bem patente pelo pânico demonstrado pelas autoridades europeias e italianas em particular, ninguém está disposto a abrir as fronteiras para o rejuvenescimento da população autóctone. Bem pelo contrário: à chegada de contingentes de desgraçados a implorarem por ajuda, soam de pronto todas as sirenes de alarme de invasão por parte de esfomeados e da ralé africana. Lampedusa mostra bem a hipocrisia do governo (e dos seus governantes) europeus.

A melhor análise do problema vem de um think tank conservador britânico e diz em termos muito simples aquilo que as boas consciências apenas pensam nos corredores privados do poder. É assim: a Europa deixou de ter uma economia industrial; a aposta é no terceiro sector; e este por sua vez exige competências que os novos despojados da economia mundial não possuem. Repare-se que no boom industrial do após-guerra a questão das competências dos trabalhadores nem sequer se colocava. Pretendia-se mão-de-obra disponível e barata e não era preciso saber a língua do país ou tão-pouco a sua cultura para operar com uma máquina numa qualquer fábrica da Lorraine. Actualmente as coisas são radicalmente diferentes. O terceiro sector exige bem mais do que repetição e destreza manual; exige compreensão, conhecimento simbólico e destreza cognitiva. Tudo coisas que geralmente se declinam numa língua específica e que levam pessoas a contactarem umas com as outras ao contrário do isolamento comunicacional da linha de montagem. Este é o problema da imigração na Europa. Mais nada. E o pânico experimentado mediante os acontecimentos de Lampedusa traduz esse medo. Desenganem-se aqueles que acham que a Europa é ciosa das sua tradições democráticas e que vê com reservas a incorporação de um contingente islâmico anti-democrático e com valores às avessas. Esse não foi o problema em sociedades que emergiam de sangretos conflitos coloniais, porque haveria de ser agora quando o terrorismo faz a sua aparição esparsa e intermitentemente e ultimamente apenas lá para os lados do temível bastião islâmico?

Não, o problema é económico e só económico. O problema é que o terceiro sector não é compatível com baixas qualificações (mesmo que uma parte crescente dos jovens do mundo islâmico cada vez mais se qualifique, estas qualificações não são directamente convertíveis às necessidades do terceiro sector) e carne para o canhão industrial já há que chegue na China e na Índia. Aliás, a solução óptima, como indicia a tese do plano Marshall para os árabes é justamente a de revivicar o sector industrial por lá, mantendo as populações presas aos seus territórios e deslocando as indústrias para países onde a mão-de-obra não tem direitos nem regalias. Um mercado gigante de consumo e de força de trabalho para concorrer com a China e com os restantes brics.   

Que parvos que somos

Os Deolinda lançaram um hino da nova geração. Foi um lançamento não premeditado. Agarrado por um telemóvel no concerto do Coliseu, rapidamente pegou pela internet afora como o fogo no mato. Políticos de renome, glosaram o tema da parvoíce e aplicaram-no em analogias parvas. Uma esquerda ruminante de blogs e de intervenções pressurosas em qualquer esfera comunicacional tomou-o de empréstimo e tem vindo a fazer dele honroso hino. A plasticidade da musiquinha é de tal ordem, que a direita mais intelectual, igualmente ruminante de blogs, não quis perder a ocasião e filou-lhe os dentes abraçando-o, eventualmente, como ersatz de um “descontentamente descontente”.

O problema começa justamente aí: o hino (ou lá o que seja) é de tal forma oco que pode ser agarrado por qualquer um dos lados. Pela direita, de forma mais atípica, adaptado hipocritamente a um protesto anti-socratismo. Como se os protestos anti-socratismo dos jovens da direita blogueira tivessem pontos de contacto com os legítimos protestos da geração dos 500. Pela esquerda, como relação automática a uma crítica social que de tão batida esqueceu os seus pressupostos. Desde logo, porque a rapaziada que aplaudia, e portante se identificava, com os contornos do que na música ia sendo desenhado, esqueceu que por alguma razão tinha arranjado dinheiro para ir ao Coliseu ver os Deolinda. A geração dos estagiários e mal pagos não falha um concertezinho, mesmo que para isso tenha que cravar os paizinhos. Claro que o concerto dos Deolinda não constitui a epítome deste comportamento. Ele pode ser visto como uma lógica mais extensiva de uma geração que tendo dificuldades económicas não deixa por isso de participar na cultura de consumo.

Mas bem para além disso o hino dos Deolinda sugere dois erros que são indícios de como é difícil ler politicamente a exclusão a que alguns estão sujeitos. O primeiro é esta noção que existe uma classe capitalista sem rosto que se aproveita dos jovens sem futuro que a nação vai parindo cada vez mais a custo. Nada mais enganador. Se alguma coisa, acontece que dentro da articulação entre cultura consumista, privatização e ideologia neo-liberal, alguns safam-se e outros não. Os que se safam não são um grupo sem rosto, espécie de plutocracia orgânica que entrenha a natureza das coisas capitalistas. Bem pelo contrário, é muitíssimo natural que o chefe que hoje te “faz o favor” de oferecer um estágio não remunerado na sua empresa tenha sido ontem teu colega da universidade. A geração dos estágios não é um bloco: é uma geração fracturada, cuja fissura é alargada pelas práticas quotidianas de adesão a uma lógica gestionária e de privatização de comportamentos e hábitos. Pois em certa medida é por aí que tudo passa. E nada disto confina sequer com as tradicionais geometrias de divisão entre esquerda e direita. O estágio não remunerado é o reverso do lucro desproporcionado que por sua vez se traduz em consumo ostentatório. Isto não tem a ver com uma geração lixada, senão teríamos que admitir (por absurdo, obviamente) que haveria um recorte geracional perfeito entre explorados e exploradores. Ora nada é menos evidente actualmente.

Esta geração “parva” tem por conseguinte dois modos de estar na parvoíce – dois modos que são adequadamente replicados pelas apropriações que o hino sofreu pela esquerda e pela direita. Por um lado, um sector que se safa, e bem. Não é menos jovem, nem tão-pouco menos dado ao grito geracional, por mais vazio que ele seja. É um sector que tem facilidade no mercado de trabalho – em grande medida, em virtude das áreas que escolheu, das redes que herdou e da posição privilegiada donde proveio. Este sector vive bem e gosta de o exibir. Enchem as grandes superfícies comerciais com os seus bebés e carros da gama alta; invadem os bons restaurantes da capital, tendo uma definida preferência pelas novidades, e acabam as noites nas discotecas mais na moda da orla ribeirinha. Não há nada de “geração 500 euros” nas suas práticas e comportamentos. E em larga medida devem a sua posição de privilégio ao desprivilégio dos outros. Estes outros também não constituem uma massa sem rosto, espécie de lumpen agrilhoado à relação laboral capitalista.   

O desafio analítico (como alguém disse) encontra-se na explicação das novas formas de exploração que têm vindo a ser articuladas dentro da estrutura de classes de uma sociedade industrial em mutação e desaparecimento. Uma das coisas a que importa dar uma relevância que não é acomodável a uma linguagem estritamente classista é a dimensão oportunista de certos actos. Dimensão que só pode ser equacionada dentro de uma concepção de privatização das acções e negligência de um qualquer bem colectivo. A fissura social desloca-se assim de uma luta permanente entre os possidentes e os despossuídos em condições rotineira e perenemente partilhadas, para um jogo flexível de manobras oportunistas que não exclui – antes constitui-se como seu principal móbil – que o sujeito da despossessão hoje possa ser o agente da exploração amanhã. Saiba ele aproveitar a oportunidade.

O que isto significa em última análise é que as solidariedade grupais podem ser ensaiadas como efeitos meramente performativos sem maior consistência do que as estratégias de mobilização e desmobilização oportunista em torno de avanços e recuos na ordem de distribuição dos privilégios. Exemplo disso, a conversão imediata do hino da geração explorada em objecto de apropriação e uso consumista onde esgota justamente todo o seu potencial. Não enuncia por conseguinte nenhum princípio de identidade colectiva nem nenhuma luta através da qual este se possa constituir. Pelo contrário, transforma-se rapidamente num ícone de consumo que potencia a projecção da banda e que foi justamente entendido como tal pelos agentes que a comercializam. Mais um exemplo perfeito de uma estratégia oportunista.

Do Egipto com amor

O desenrolar dos acontecimentos do Egipto mostra bem como os excitados do twitter e das redes sociais têm uma visão confortável do que seja fazer uma revolução ou protestar contra um poder hegemónico. Seguramente que estes novos suportes comunicacionais possuem implicações significativas nas performances dos protestos; para além disso, mantêm uma visão de conjunto, em tempo real, que de outra maneira seria impossível. Desde aí até dizer que eles são os motores da revolução vai um passo gigantesco.

Talvez a lição mais esclarecedora a retirar da violência no Egipto é que uma comunidade comunicacional pós-moderna pode perfeitamente conviver com irrupções de barbárie e da mais extrema violência. Este é um signo dos tempos turbulentos que vivemos. Mostra, por outro lado, que as revoluções não são coisas confortáveis, feitas no recesso do lar, entre o dedilhar fervilhante do black berry e o esquadrinhamento obsessivo do twitter. Isso é para os profissionais da informação e para os comentadores que gostam de usar a sua verbosidade para dizer coisas grandiloquentes como “a revolução do twitter” ou “o poder da internet”. Não, o que o Egipto mostra é que as revoluções têm sangue; e têm-no tanto mais quanto mais fundas e inamovíveis são as raízes do poder corrupto.

Revela, paralelamente, que nem toda a saída de tanques para a rua origina um 25 de Abril. Tudo depende de quão bem pagos se encontram os militares e quão fundo vai a sua situação de privilégio na geral distribuição de prebendas a grupos apaniguados do poder. O comportamento dos militares na noite passada foi disso claro exemplo. A sua inacção, provou que não estão ainda (?) dispostos a tomar o lado do povo.

Das imagens que vi na CNN, a ruptura entre a população começa a assumir a configuração de uma guerra civil. E diz-se que muitos dos apoiantes de Mubarak são recrutados nas fábricas e instruídos a semear o caos pelos próprios chefes. Este é um indício que um erro muito comum entre os nossos (cegos) comentadores tende a negligenciar. É que por detrás de poderes absolutos encontram-se sempre grupos económicos absolutos – fazendo estremecer os primeiros, provoca-se, ipso facto, o sobressalto dos segundos.

No momento em que escrevo as cenas de batalha campal urbana sucedem-se. Na praça Tahrir blocos de apoiantes e contestantes de Mubarack lutam com pedras e petardos, desempenhando uma coreografia bélica de avanços e recuos. Outras, mais tenebrosas imagens, revelam que prisões improvisadas estão a ser construídas de ambos os lados das barricadas onde os capturados de uma e outra facção são exibidos – espancados e manietados -, como troféus. Isto, reconheçamos, nada tem a ver com revoluções comunicacionais. E as revoluções são isto. O que começou como um protesto pacífico, tem vindo a ganhar corpo e a tornar-se numa sangrenta batalha urbana.

VERGONHA!

 

Talvez a euforia resultante da vitória do Benfica tenha levado comentadores e jornalistas a passarem ao lado do óbvio. Talvez a vitória ofusque aquilo que, fosse outro o contexto, seria gritantemente patente. Mas a verdade é que me custa não ouvir, ver, surpreender, comentador ou jornalista a berrar que aquilo – aquilo que se passou ontem – foi uma vergonha! Como estamos todos contentinhos, tendemos a passar ao lado do essencial. E o essencial foi a brutal manipulação do resultado por parte do árbitro da partida. Bem cedo – tão cedo quanto os jogadores do Porto se aperceberam que não iriam ter controlo sobre a partida -, os atilados dragões começaram a simular faltas. Valha-nos que a vergonha não chegou ao ponto de embarcar em pénaltis fingidos e que o árbitro teve tomates para mostrar os amarelos devidos. Sucede, que há uma regularidade nos jogos cruciais para o Porto que os árbitros cumprem com esmero não aleatório. Nas segundas partes das partidas mudam radicalmente os critérios da arbitragem. Ontem, então, foi por demais evidente. Não pode ter sido coincidência a expulsão do melhor jogador em campo do Benfica. E a única razão para uma tal expulsão só pode ser encontrada na tentativa de impedir que o resultado se dilatasse…Porque, não haja dúvidas, era isso que iria acontecer.

Sem Coentrão, uma peça fundamental na estratégia de ataque do Benfica, afastada, repito, com critério deliberado e judicioso, o Benfica viu-se acossado, gerindo apenas a defesa o melhor que soube e pôde – que foi muito e bem!

Se tantas e tantas vezes ouvimos aquele lugar-comum dos árbitros que se querem substituir aos jogadores ao interferirem no jogo com decisões descabeladas, por que razão não foi ele repetido agora? Porque estamos todos satisfeitinhos com a vitória (e sabemos o quanto do jornalismo nacional tem as cores encarnadas, o que eu acho bem e aplaudo, até porque no jornalismo desportivo não deve existir tal coisa como imparcialidade – estou convencido que no outro também não, mas isso seria outra discussão).  Mas não se deixem cegar pelas luzes momentâneas da ribalta, homens de pouca fé! O monstro portista anda à solta e deixou ontem mais um testemunho das suas pegadas pelos relvados nacionais. É difícil não ver que o árbitro tinha instruções, ao intervalo, para evitar a todo o custo que o resultado fosse mais expressivo. É difícil não ver que o critério de amostragem de cartões amarelos foi totalmente desequilibrado. É difícil ficar sereno perante o facto de as duas faltas que Coentrão fez em todo o tempo que jogou terem sido punidas com dois amarelos; o que mereceu protesto veemente do jogador – e bem.

Jesus está obviamente com o rabo preso pelo inquérito da federação, e por isso nada disse. Foi esperto. Mas os comentadores nada devem à federação portista que preside os destinos do futebol português nem a Villas Boas. Ou será que devem? Porque, bem para além da vitória do Benfica, do saber tático de Jesus, da concentração dos encarnados, este jogo fica para a história como mais uma vergonha da arbitragem.  

Pessoas que não têm lugar

No fabuloso conto “A fera na selva” de Henry James, um homem vê a vida passar-lhe ao lado, e mesmo no momento em que poderia inverter a sua situação, mudar tudo abruptamente, aventurar-se para um outro oceano de emoções e vivências, falha o salto – assim como o poeta falhou o golpe de asa – e fica parado no tempo, com o tempo, porque este não pára, a passar-lhe ao lado. O conto nada tem a ver com a selva, não evoca brenhas intemporais de Kippling nem tão-pouco negritudes morais como em Conrad. A Fera simboliza apenas o salto falhado.

“Something or other lay in wait for him, amid the twists and the turns of the months and the years, like a crouching Beast in the Jungle.  It signified little whether the crouching Beast were destined to slay him or to be slain.  The definite point was the inevitable spring of the creature

O maior émulo do conto de James vem em registo cinematográfico e chama-se Mary, a personagem principal do último filme de Mike Leigh. Comecemos por aí: porque razão considero que é Mary a personagem central do filme, e não o casal Tom e Gerry, como a generalidade da crítica parece assumir? Tem tudo a ver com distintas leituras que se fazem sobre o filme. Para mim, o filme é sobre gente que não tem lugar; não tem lugar em famílias, em bairros, em relações amorosas, etc. Gente que podendo viver o essencial do seu quotidiano, trabalhando, cultivando rotinas nos reiterados movimentos de deslocação da casa para o trabalho, não entram no cálculo de mais ninguém: gente cuja solidão é a face última da existência. Este entendimento está em franca contradição com aquela leitura que vê no casal Tom e Gerry o oráculo de uma série de satélites que gravitam em torno dele e dele recolhem a sua absolvição (ver crítica do I, por exemplo). Se assim fosse, seria difícil explicar a cena final do filme, onde somos deixados com o olhar perdido de Mary consumindo-se num silêncio acabrunhante que ocupa com gradual voracidade a conversa dos comensais. Mary abandonada na solidão mais terrífica, entre pessoas que supostamente são o seu círculo de amizade.

Ken é outra das pessoas que não tem lugar. Vive sozinho, consome-se num trabalho para o qual deixou de ter utilidade, condenado a ver-se ultrapassado pelos jovens que entretanto vão substituindo os seus velhos colegas de laboração, apagando desta forma os últimos resquícios de um mundo reconhecível. É verdade que quer Ken quer Mary procuram conforto no seio do casal Tom e Gerry, em tudo diferente destes dois. Mas podemos levar a analogia mais longe, e pensar que Tom e Gerry são, como o seu nome indica, personagens de desenho animado, que existem apenas para assegurar que ninguém se magoa, que assim como nas suas velhas animações, o mundo é suficientemente plástico para satisfazer todas as ilusões. Mas não Mary, nem Ken. E se a ausência de sentido da vida de Ken é secundária, em Mary esta faz-se o seu principal atributo. Querendo agarrar o tempo através da fantasia de uma eterna juventude, é “Mais um ano” que passa sem nada mudar na sua vida. Qualquer tentativa de Mary, qualquer forma de construir ilusões a que se agarrar, de inventar romances, saem sistematicamente goradas. Mary foi traída pela vida. É alcoólica; bebe para esquecer; bebe para ganhar coragem para se levantar no dia seguinte. As escolhas que fez (ou deixou por fazer) não são obliteradas de maneira automática ou voluntarista. Têm consequências. Mas colocar o burden of proof apenas do lado de Mary seria injusto quando não macabro. A vida assim como ela é, foi funesta para Mary. O que lhe aconteceu foi feito por outros e não há razão nenhuma que assista uma acusação inflexível contra Mary. Dizer que esta estaria numa encruzilhada seria eufemizar o buraco sem fundo onde se encontra. E Mary bem que esperneia, bem que quer saltar como a Fera de James… E é apenas mais um ano que passa, e é apenas a solidão que lhe dita a forma, a carne, o futuro.  

Tom e Gerry saem ilesos do contacto com estas vidas perdidas. Eles são, com efeito, um pólo aglutinador da desgraça, um íman que tem a particularidade de desmagnetizar o infortúnio alheio, e nessa capacidade são quase que angelicais, divinos, soberanos na sua redoma de amor e compaixão. Mas nem sempre. A família tem prioridade. E quando Mary tem a veleidade de colocar em risco a tão prezada harmonia familiar, as garras são exibidas com a verocidade de leões a protegerem a prole. E Mary, embora perdoada, é colocada no seu lugar: o lugar das pessoas que não têm lugar.

A imagem final, regressemos lá: Mary envolta pela harmonia familiar de uma família que não lhe pertence, que por mais que ela tente, permanecerá sempre uma outra família. Se o personagem de James falha a vida pelo seu egoísmo; Mary falhou-a pela sua inépcia. Pessoas que não têm jeito para a vida, estão condenadas a não ter lugar nela. Mais um ano passa e apenas a solidão fica. Mary olha em redor; o silêncio instala-se no seu interior; os olhos parecem perguntar insistentemente: Quem sou? Fade out. Mary desaparece das nossas vidas.    

“It was the truth, vivid and monstrous, that all the while he had waited the wait was itself his portion.”
Henry James The Beast in the jungle