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O rescaldo

Janeiro 25, 2011

O título é pouco original e anuncia igualmente a falta de originalidade do que a seguir se vai dizer. Nobre captou os votos de Soares e temos assim que uma fatia considerável do eleitorado PS sente arrepios conservadores na espinha perante a proximidade da sombra de Louçã. Esta leitura é possibilitada pela constatação de que os 14% de votos obtidos por Soares em 2006 caíram direitinhos na candidatura de Nobre. Eram votos que Alegre nunca conseguiria mobilizar pela simples razão que provêm da direita do PS e, como tal, encontram-se estruturalmente impedidos de apostar num candidato, mesmo que moderado, apoiado por uma facção de esquerda.

Alegre, como tantas vezes foi repetido, ao vincular-se a partidos perdeu a sua autonomia. A esquerda não lhe perdoou o apoio do PS, e o PS não lhe perdoou o descaramento de arvorar a bandeira simbólica da esquerda. Os 19% que granjeou são eventualmente mais do BE e de algum PCP do que do partido que fez sua a candidatura de Alegre, o próprio PS. A situação de Alegre foi desde cedo ferida pela insustentabilidade: se fazia um discurso para arregimentar a esquerda maculava o partido do qual provém, o que seria incompreensível, visto que aceitou o seu apoio; se moderava o discurso contra o PS – o que acabou por acontecer, sobretudo quando se compara com a sua prestação em 2006 – aceitando tacitamente a destruição do Estado-social do qual este se tornou o principal fautor, perdia o eleitorado da esquerda. Ficou portanto numa terra de ninguém.

Os 14% de Nobre mostram que há um eleitorado do PS que é no fundo apolítico. Se bem que isto não constitui novidade para ninguém, é talvez interessante salientar que este é um eleitorado fundamentalmente católico, que se revê numa lógica assistencialista do Estado e da sociedade em geral. Para estes, o discurso neoliberal é demasiado ofensivo, mas sendo estruturalmente de direita, eventualmente ainda mais conservadora do que a direita assim como esta se apresenta no espectro político oficial, a retórica vazia da cidadania cabe perfeitamente num eleitorado que se encontra basicamente satisfeito com o estado das coisas e que vê no voluntarismo do cidadão comum a solução para os nossos problemas terrestres – ou não se reflectisse este nos problemas da outra vida.

O resultado de Manuel Coelho não é minimamente surpreendente. Até porque, a não existir Manuel Coelho, a abstenção somaria mais uns pontos – os correspondentes aos que a sua candidatura obteve. Coelho arregimentou os desafectos do partidarismo, os insatisfeitos da política de gabinete, e alguns idealistas de esquerda. O mesmo não conseguiu Francisco Lopes, representante de um partido que cada vez menos alicia os idealistas e que obteve o segundo pior resultado numas eleições presidenciais e o terceiro pior da sua história eleitoral em democracia. Devemos por conseguinte descontar as declarações de Francisco Lopes, dizendo que foi a candidatura do PCP que evitou uma maioria ainda maior a Cavaco Silva, como resultado de um certo sentido de humor deslocado.

Chegamos a Cavaco. O homem confere uma nova dimensão para o carisma; uma dimensão despojada de qualquer dos traços clássicos que foi atribuído a este fenómeno quase sempre inexplicável. É difícil compreender o que justifica o efeito que exerce sobre o eleitorado, mas a verdade é que quase sempre resulta. É certo que Cavaco perde praticamente meio milhão de votos, o que não é de modo nenhum negligenciável. Todavia, faz o pleno distrital, algo que não acontecia desde 91 com as presidenciais que deram a vitória a Soares. Tem por isso razão para estar satisfeito. E a satisfação em Cavaco revela-se normalmente num azedume sacana que só ele sabe expressar. Entronizado pela segunda vez, o que se lhe viu foi o seu lado pidesco, pedindo para a comunicação social revelar os nomes de quem tão vilmente o caluniara. Nunca tal se ouvira de um presidente da república na noite das eleições. E isto indicia o que nos espera nos próximos cinco anos.

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