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Amourinhar pelas paredes

Janeiro 11, 2011

Em mais uma manifestação de babado orgulho nacional, a primeira página da Bola reconforta-nos assinalando que mais um português ascendeu ao Olimpo mundial. O português é José Mourinho. O facto de ter chegado a tão inalcançáveis alturas pela mão de um dos mais ricos clubes italianos e posteriormente pelo clube mais caro de sempre (O RM foi considerado o clube mais dispendioso de sempre) não deve perturbar o nosso ímpeto para a ilusão identificatória. Mourinho é português, e com essa matriz às costas, carrega o nome de Portugal, projectando-o para lonjuras universais. Esta confusão entre os feitos de um e o wishful thinking de muitos tem um nome que por diversas vezes já ficou gravado nas páginas da história: falsa consciência.

E no entanto, tenho para mim que Mourinho nem sequer merecia ganhar. Primeiro, por razões estritamente do foro individual, do próprio Mourinho bem entendido – um homem que diz não ter dúvidas que merece ganhar o prémio e que só não acontecerá porque tem sido preterido por inconfessáveis razões, não merece ganhar o prémio. Um prémio é uma dádiva, e só deve ser atribuído a quem acredita na sua contingência.

O segundo motivo prende-se com o facto objectivo de o Barcelona jogar melhor, mais bonito, mais empolgantemente, etc. E se provas faltassem a cabazada de 5-0 no Camp Nou infligida ao RM chegava e sobrava para desfazê-las.

E terceiro, porque Guardiola não apenas ganhou tudo o que havia para ganhar em 2009 como ele é o legítimo vencedor do Mundial que sagrou Espanha campeã do mundo. Não nos iludamos, Del Bosque nada teve a ver com aquela equipa espectáculo que se apresentou na África do Sul – aquilo era Barcelona puro, com uma maioria de jogadores do Barcelona a fazerem a festa. Por conseguinte, foi a mão de Guardiola, e não a de Deus nem a invisível, que levaram Espanha à conquista da Copa do Mundo. Por isso Guardiola não só conta no seu palmarés tudo o que é taça europeia como soma uma taça do mundo que foi recebida por interposta pessoa.

Assim sendo, por que ganhou Mourinho? Porque ao contrário daquilo que ele vaticinou – a saber, que pressões e lobis iriam enjeitá-lo novamente como se passara em Itália com um prémio congénere – foi justamente a sensação lobística que ficaria a pairar no ar caso Guardiola ganhasse que ditou a prudência de dar o galardão a Mourinho. Estou a ser injusto: na realidade Mourinho ganhou um prémio com o qual Guardiola nunca sonhou a ser injusto: o Prémio Revelação Artur Agostinho, como é apregoado pelo Record, prémio esse concedido pelo próprio Record.

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