A brasileirização do ensino

Os Ladrões de Bicicletas têm andado numa azáfama para debilitar a legitimidade do protesto do grupo auto-denominado SOS Ensino. Concordo com tudo o que por lá se diz: que as parcerias eram chupistas; que os resultados das escolas devem-se mais à origem social dos alunos do que ao funcionamento e excelência das mesmas; que estas escolas vivem na subsídio-dependência do Estado, etc, etc.

E no entanto, há uma coisa que me encanita neste programa. É que por mais que bradem que “a supremacia” deste ensino é uma farsa, ela é desmentida pela preferência que os agregados familiares lhe concedem. Daí que a crítica às escolas privadas e à força que o protesto tem adquirido está simplesmente mal equacionada. Não interessa que estas escolas prosperem no ranking à conta dos capitais das famílias dos alunos. Interessa sim, perceber por que razão são justamente as famílias detentoras de maior volume de capital – económico e cultural – a preferirem o ensino privado… secundário?

Neste domínio assistimos a uma brasileirização do ensino em Portugal. Assim como no Brasil o trajecto das famílias ricas é feito da escola privada para a universidade pública; também em Portugal a mesma tendência começa a verificar-se. O desinvestimento no público não pode nem ser assacado à ineficácia do Estado nem tão-pouco às regalias do privado. Ambas têm uma razão subjacente: a preferência das famílias.

Existe um leque de razões, para além da mera qualidade do ensino, que presidem a esta preferência. Da parte das famílias detentoras de volumes de capital elevado, a representação do público como uma arena indistinta onde as origens sociais se misturam comportando nesta mistura todos os vícios e desassossegos que estas famílias temem, leva a que os seus filhos sejam desde cedo carreados para escolas mais conotadas com a disciplina e ethos da classe alta. Naturalmente que, assim como no Brasil, o desvio dos bons alunos para os colégios privados terá por efeito indesejado a deterioração do público. A escola não é só feita do esforço dos professores – a qualidade dos alunos conta sobremaneira nas dinâmicas de aprendizagem que nela se verificam. Torna-se então uma professia autorealizadora: pelo facto de os melhores alunos serem canalizados para as escolas privadas, estas tornar-se-ão realmente melhores que as públicas, como tem vindo gradualmente a acontecer.

Por trás disto existe um fenómeno de dimensão mais representacional, se quisermos. As famílias detentoras de maiores capitais têm desenvolvido uma especial desconfiança relativamente à capacidade do ensino público ser factor de mobilidade. Mas esta desconfiança limita-se à escolaridade obrigatória, para rapidamente ser abandonada nos graus habilitacionais elevados. Assim temos, tal como no Brasil, que uma cada vez maior proporção de alunos do ensino privado do primeiro e segundo ciclos chegam à universidade pública. Aqui a preferência das famílias é objectivamente unívoca e a universidade pública – salvo uma ou outra excepção – é preferida em relação às suas congéneres privadas. Em contrapartida, são justamente os alunos de famílias desprovidas de tais volumes de capitais que recorrem às privadas. Os piores alunos portanto, muitos deles vindos do público. A segmentação está em marcha (como no Brasil) e a única maneira de salvar o ensino público secundário seria inverter as preferências das famílias. Ora, nada parece estar mais longe de acontecer. Primeiro, porque as famílias de classe alta e média-alta estão apostadas em garantir a mobilidade da sua prole através dos canais que anteveem como mais eficazes. Segundo, porque a um ethos de maior distribuição e justiça social, respondem estas famílias com projectos estrategicamente individualistas. Trata-se sem dúvida de um enviesamento pronunciado da lógica do público pelas intenções privadas. Mas não nos enganemos: a maior ou menor deterioração do ensino público depende apenas das estratégias destas famílias.

O rescaldo

O título é pouco original e anuncia igualmente a falta de originalidade do que a seguir se vai dizer. Nobre captou os votos de Soares e temos assim que uma fatia considerável do eleitorado PS sente arrepios conservadores na espinha perante a proximidade da sombra de Louçã. Esta leitura é possibilitada pela constatação de que os 14% de votos obtidos por Soares em 2006 caíram direitinhos na candidatura de Nobre. Eram votos que Alegre nunca conseguiria mobilizar pela simples razão que provêm da direita do PS e, como tal, encontram-se estruturalmente impedidos de apostar num candidato, mesmo que moderado, apoiado por uma facção de esquerda.

Alegre, como tantas vezes foi repetido, ao vincular-se a partidos perdeu a sua autonomia. A esquerda não lhe perdoou o apoio do PS, e o PS não lhe perdoou o descaramento de arvorar a bandeira simbólica da esquerda. Os 19% que granjeou são eventualmente mais do BE e de algum PCP do que do partido que fez sua a candidatura de Alegre, o próprio PS. A situação de Alegre foi desde cedo ferida pela insustentabilidade: se fazia um discurso para arregimentar a esquerda maculava o partido do qual provém, o que seria incompreensível, visto que aceitou o seu apoio; se moderava o discurso contra o PS – o que acabou por acontecer, sobretudo quando se compara com a sua prestação em 2006 – aceitando tacitamente a destruição do Estado-social do qual este se tornou o principal fautor, perdia o eleitorado da esquerda. Ficou portanto numa terra de ninguém.

Os 14% de Nobre mostram que há um eleitorado do PS que é no fundo apolítico. Se bem que isto não constitui novidade para ninguém, é talvez interessante salientar que este é um eleitorado fundamentalmente católico, que se revê numa lógica assistencialista do Estado e da sociedade em geral. Para estes, o discurso neoliberal é demasiado ofensivo, mas sendo estruturalmente de direita, eventualmente ainda mais conservadora do que a direita assim como esta se apresenta no espectro político oficial, a retórica vazia da cidadania cabe perfeitamente num eleitorado que se encontra basicamente satisfeito com o estado das coisas e que vê no voluntarismo do cidadão comum a solução para os nossos problemas terrestres – ou não se reflectisse este nos problemas da outra vida.

O resultado de Manuel Coelho não é minimamente surpreendente. Até porque, a não existir Manuel Coelho, a abstenção somaria mais uns pontos – os correspondentes aos que a sua candidatura obteve. Coelho arregimentou os desafectos do partidarismo, os insatisfeitos da política de gabinete, e alguns idealistas de esquerda. O mesmo não conseguiu Francisco Lopes, representante de um partido que cada vez menos alicia os idealistas e que obteve o segundo pior resultado numas eleições presidenciais e o terceiro pior da sua história eleitoral em democracia. Devemos por conseguinte descontar as declarações de Francisco Lopes, dizendo que foi a candidatura do PCP que evitou uma maioria ainda maior a Cavaco Silva, como resultado de um certo sentido de humor deslocado.

Chegamos a Cavaco. O homem confere uma nova dimensão para o carisma; uma dimensão despojada de qualquer dos traços clássicos que foi atribuído a este fenómeno quase sempre inexplicável. É difícil compreender o que justifica o efeito que exerce sobre o eleitorado, mas a verdade é que quase sempre resulta. É certo que Cavaco perde praticamente meio milhão de votos, o que não é de modo nenhum negligenciável. Todavia, faz o pleno distrital, algo que não acontecia desde 91 com as presidenciais que deram a vitória a Soares. Tem por isso razão para estar satisfeito. E a satisfação em Cavaco revela-se normalmente num azedume sacana que só ele sabe expressar. Entronizado pela segunda vez, o que se lhe viu foi o seu lado pidesco, pedindo para a comunicação social revelar os nomes de quem tão vilmente o caluniara. Nunca tal se ouvira de um presidente da república na noite das eleições. E isto indicia o que nos espera nos próximos cinco anos.

Mãe natureza

Nas imagens vemos um cenário de catástrofe e assim de repente parece-nos que estamos em presença de mais um morro soterrado pela fúria das águas: um daqueles amontoados de casebres de favela, indistintos e lúgubres. Porém, quando nos aproximamos, começamos por distinguir um pináculo de uma igreja aqui, metade de um coreto ali, um prédio de habitação acolá, e o nosso gps vai lentamente desenhando a imagem como se de um puzzle ao qual peças fundamentais tivessem sido engolidas. É Petrópolis que emerge dentre o caos de escombros, fieiras de água turbulenta, e aquilo que se adivinha como sendo corpos atirados nas suas correntezas. Visto daqui, ou seja, das iamgens que nos chegam copiosas como a chuva que se abateu sobre a pequena cidade, não a distinguimos da mais miserável das favelas, ou do mais insalubre morro carioca. E no entanto, Petrópolis era conhecida como a Suíça da região do Rio de Janeiro; e, é bem verdade, fazia inteira justiça ao seu epíteto.

Das casas coloniais em fileiras paralelas que bordejavam com majestade provinciana o pequeno rio que se desloca pelo meio, restam apenas telhados destruídos, aparecendo a espaços por entre um solo indistinto de lama e de calhaus. Das suas pequenas e floridas avenidas, unidas por pontes a imitarem as pequenas pontes de Liubliana ou de Estraburgo  – mais modestas é certo, mas com aquela delicadeza de importação chique da Europa – restam apenas esqueletos, ossos quebrados que juncam águas revoltas e apodrecidas. De uma cidade que um dia era considerada a pérola da região serrana, passámos para um inferno de abjecção. Os habitantes parecem agora seres da favela. Descalços, sujos, esfarrapados; rostos apreensivos, com uma apreensão semelhante aquela que fica depois de perdermos as referências a que nos habituámos quotidianamente – aquele estupor insólito que nos quebra a vontade.

Há dias engalanava-se bela nas faldas da serra e abria aos turistas as portas coloniais do palácio de verão de D. Pedro, a quem o nome lhe assentava como uma luva. Petrópolis – a cidade de Pedro: feita por Pedro e para Pedro. Também ali se aventurou a pequena corte que com o imperador se deslocava para fugir ao estio insuportável do Rio. Também por ali nasceram mulatos e mulatas de olhos azuis, resultado das surtidas da família austríaca do imperador às senzalas próximas. Manteve a cidade de Pedro aquele ar majestático que lhe conferia a igreja moldada na tradição dos presbiterianos suíços, sendo ela embora católica. Daí que misture uma certa austeridade no talhe da pedra com a ostentação dos ouropéis e debruados. Na praceta fronteira a sensação inescapável de estarmos algures num pedaço da Mittle Europa enxertado para selvas brasileiras: o pequeno rio sustentado pela repetição das pontes a culminar numa fonte exuberante que enquadra a igreja em moldura de cartão postal.

Agora, quando se olha do alto, a acompanhar sinuosidades de voos de helicópteros, dificilmente se diria que ali estava, ainda há pouco tempo, a jóia do imperador. Não admira que as imagens que nos cheguem possam ser facilmente confundidas com morros, e que o Brasil se multiplique mais uma vez na nossa percepção como aquela terra de barracos e indigência.  

Carlos castrado

Tenho o maior respeito pelas pessoas que morrem. Quando morrem, morrem: desaparecem, desvanecem-se na memória – não deixam rasto. Devemos-lhe respeito porque partiram e não nos importunam mais como faziam enquanto eram vivos. Por isso, todo o respeito por aqueles que morrem. Pouco, ou nenhum respeito, por aqueles que enquanto vivos roçavam o execrável. Como seres humanos? Não, isso não existe. Como seres humanos só os recordamos depois de mortos; é aí que adquirem a sua verdadeira humanidade. Enquanto vivos, sabemos deles como pessoas; o que os distancia incomensuravelmente da ideia de seres humanos que temos deles depois de mortos.

Carlos Castro é um desses casos. Enquanto pessoa poderei apenas dizer que detestava aquilo que fazia. Numa espécie de ironia poética (cruel, sem dúvida) Carlos Castro foi vítima do seu modus operandi – a castração imagética. Dedicou grande parte da sua vida a construir e destruir imagens… do jet set, dos aspirantes ao jet set, dos penetras no jet set. Aquilo que fazia, sejamos concretos, não era jornalismo e revelava o pior que há no hedonismo actual e na sua girândola de criação de talentos espectaculares ocos. Carlos Castro era, em certa medida, o criador de Renatos Seabras, com toda a avidez e frustração que dessa criação nos for permitido deduzir. Por isso, a morte de Carlos Castro tem qualquer coisa de dr. Frankenstein, o homem que morre às mãos da própria criatura que criou. Só que esta morte teve contornos peculiares; assombrosamente macabros.

Existem duas razões fortes (imaginemos!) para a mutilação perpetrada pelo jovem modelo Renato Seabra, e nenhuma delas é compaginável com o quietismo típico dos psicopatas que Lili Caneças prescrutou no jovem quando o conheceu. Um psiquiatra dizia ontem em animado exercício de diagnóstico televisivo que era provável que se tratasse de ciúme: as pessoas mutilam as genitálias por ciúme. E acrescentava que o ciúme centrava-se geralmente no físico e na relação física. Nada me parece mais aberrante como interpretação do ciúme. Mas aceitemos com reservas que a razão poderia ser o ciúme. Por que razão um modelo jovem e à beira de uma carreira de sucesso teria ciúmes de um velho de 65 anos, à beira da senescência? Repare-se que ele, o modelo, foi confirmado por diversas pessoas do círculo da fofoca cor-de-rosa como heterossexual; até se expenderam considerações mais ou menos inteligentes sobre o facto de heterossexuais poderem “dar o cu”. Is missing the point: a questão não é saber que se dá, a questão aqui é saber porquê. Obviamente que o jovem modelo não iria partilhar um quarto de hotel com um reconhecido homossexual da nossa praça julgando que iam passar uns belos momentos de franca e descomprometida camaradagem a verem jogos dos NY Nicks. Uma das hipóteses é obviamente a de que esse velho de 65 anos tinha um poder invulgar sobre a vida do jovem; um poder material e não sentimental. Podemos levar a especulação mais longe: tendo Carlos Castro o poder de fazer e desfazer carreiras, não estaria esta relação baseada justamente nessa simbiose interesseira? Daqui podemos inferir, continuando a recorrer a uma espécie de imaginação criminal, que qualquer coisa que fizesse perigar esse arranjo levaria a uma reacção exacerbada por parte do jovem amante. Ciúme sim; mas de uma outra natureza: ciúme de uma carreira prometida que entretanto foi colocada em questão. Mas isto lança alguma luz sobre a morte, mas pouca sobre a mutilação.

A chave aqui está na forma da mutilação: a castração. Terá Renato Seabra transferido o seu desejo latente de castração para a figura do pai assumida temporariamente por Carlos Castro? Terá, desta maneira, consumado uma passagem pragmática do complexo de Édipo para o acto da castração infligido noutro? Se o rapaz tem medo de ser castrado pelo pai pelo facto de desejar copular com a mãe, a autoridade do pai impõe-se pela castração simbólica que este exerce sobre ele. Normalmente, a ansiedade em torno da castração resolve-se, desintegrando desta forma o complexo de Édipo, e dando origem a uma personalidade maturada e preparada para a vida adulta. O complexo resolve-se quando é reprimido, ou seja, quando a rivalidade em relação ao pai pelo amor da mãe passa a ser a rivalidade em relação ao pai pelo lugar de autoridade que este ocupa. 

Mas o que acontece no caso de Renato Seabra é que a figura do pai está ausente – é a mãe que ocupa todo o espaço de investimento libidinal (não por acaso é a mãe que anda numa azáfama desgraçada para safar o filho da prisão perpétua que eventualmente o espera; não por acaso é a figura da mãe que ocupa o ecrã de televisão). O amor que tem pela mãe, o amor de mãe, etc… O resultado seria o rapaz castrar o pai (simbolicamente) num acto de assunção do seu próprio pénis. Renato Seabra levou a injunção psíquica à letra.

Amourinhar pelas paredes

Em mais uma manifestação de babado orgulho nacional, a primeira página da Bola reconforta-nos assinalando que mais um português ascendeu ao Olimpo mundial. O português é José Mourinho. O facto de ter chegado a tão inalcançáveis alturas pela mão de um dos mais ricos clubes italianos e posteriormente pelo clube mais caro de sempre (O RM foi considerado o clube mais dispendioso de sempre) não deve perturbar o nosso ímpeto para a ilusão identificatória. Mourinho é português, e com essa matriz às costas, carrega o nome de Portugal, projectando-o para lonjuras universais. Esta confusão entre os feitos de um e o wishful thinking de muitos tem um nome que por diversas vezes já ficou gravado nas páginas da história: falsa consciência.

E no entanto, tenho para mim que Mourinho nem sequer merecia ganhar. Primeiro, por razões estritamente do foro individual, do próprio Mourinho bem entendido – um homem que diz não ter dúvidas que merece ganhar o prémio e que só não acontecerá porque tem sido preterido por inconfessáveis razões, não merece ganhar o prémio. Um prémio é uma dádiva, e só deve ser atribuído a quem acredita na sua contingência.

O segundo motivo prende-se com o facto objectivo de o Barcelona jogar melhor, mais bonito, mais empolgantemente, etc. E se provas faltassem a cabazada de 5-0 no Camp Nou infligida ao RM chegava e sobrava para desfazê-las.

E terceiro, porque Guardiola não apenas ganhou tudo o que havia para ganhar em 2009 como ele é o legítimo vencedor do Mundial que sagrou Espanha campeã do mundo. Não nos iludamos, Del Bosque nada teve a ver com aquela equipa espectáculo que se apresentou na África do Sul – aquilo era Barcelona puro, com uma maioria de jogadores do Barcelona a fazerem a festa. Por conseguinte, foi a mão de Guardiola, e não a de Deus nem a invisível, que levaram Espanha à conquista da Copa do Mundo. Por isso Guardiola não só conta no seu palmarés tudo o que é taça europeia como soma uma taça do mundo que foi recebida por interposta pessoa.

Assim sendo, por que ganhou Mourinho? Porque ao contrário daquilo que ele vaticinou – a saber, que pressões e lobis iriam enjeitá-lo novamente como se passara em Itália com um prémio congénere – foi justamente a sensação lobística que ficaria a pairar no ar caso Guardiola ganhasse que ditou a prudência de dar o galardão a Mourinho. Estou a ser injusto: na realidade Mourinho ganhou um prémio com o qual Guardiola nunca sonhou a ser injusto: o Prémio Revelação Artur Agostinho, como é apregoado pelo Record, prémio esse concedido pelo próprio Record.

Um provinciano passeia-se por Paris

É engraçado como o termo identidade causa engulhos quando é aplicado a outros que convivem connosco em situação minoritária, porém enverga-se com um orgulho faminto quando é invocado por “nós”.

Ouvir Pedro Rosa Mendes a falar da importância de vincarmos uma identidade “nossa” em França – e quem diz França, diz o mundo! – elencando diversas contribuições culturais que por lá são cada vez mais apreciadas, como se fossem pedaços da alma nacional trasladados para o marketing cultural, fez-me pensar na irredutibilidade desse termo incómodo.

Primeiro, porque estando sob o fogo cerrado dos antifundacionalismos metodológicos, a identidade passou a querer dizer isto e aquilo, sendo que critérios para defini-la escasseiam. Mas a identidade resiste às análises, mesmo as mais desconstrucionistas, e persiste nas invocações. É aliás aí que ela medra, sem necessitar de recorrer a fundamentações lógicas ou analíticas.

Por exemplo, Gonçalo M. Tavares passa, através desta alquimia da invocação, a ser um representante da identidade nacional lá fora, nas terras de França, onde, segundo PRosa Mendes andaria ela – a identidade nacional – amesquinhada em virtude das gentes da imigração. Portanto, a uma identidade amarfanhada que não se usa na lapela pelos esconsos do Quartier Latin, contrapõe-se um émulo erudito que não envergonha ninguém.

E todavia, se escritor há que menos se vincula a uma (putativa) identidade nacional esse será com certeza M. Tavares. Tirando o facto de ser português, de escrever em português, e de editar primeiro os seus livros nesta língua, nada na obra de M. Tavares remete para uma identificação lusa inequívoca. Diria mais: M. Tavares poderia bem chamar-se Thomas Schwartz, e viver numa casinha nos arredores de Baden, ou Miroslav Krakinsky e ser professor de escrita criativa em Cracóvia, que ninguém daria pela diferença. Mas PRosa Mendes insiste que os prémios, as celebrações, as efemérides, o reconhecimento, enfim, da produção cultural de alguns (excelentes) criadores nacionais fazem mais pelo património da nação do que as “fintas no futebol”. Ora se, relativamente a um Lobo Antunes ou a um Rodrigo Leão esse património até é identificável, já em M. Tavares a ligação me parece duvidosa; tanto ou mais quanto com as “fintas do futebol” que pelo facto de serem feitas por um gajo chamado Cristiano Ronaldo não as torna mais nacionais.

Daí que, dando de barato a existência de uma coisa chamada identidade nacional e que até pode ser divulgada, nem tudo o que é produzido, praticado ou dito por um natural da nação remete para um caldo cultural identificável segundo uma qualquer especificidade histórica construída.  E isto, independentemente do reconhecimento merecido angariado em palcos internacionais.   

Cavaco – Je est un autre

A melhor defesa é o ataque. Máxima consabida que Cavaco tem elevado ultimamente aos pináculos do oportunismo político. Cavaco sempre foi uma personagem pragmática. De tal forma, que dele não sobreviverão grandes frases, discursos eloquentes, nem tão-pouco reflexões imorredoiras. Nem pela negativa – como Margaret Tatcher – nem pela positiva – como Obama ou Lula da Silva.

Cavaco é exactamente aquilo donde vem: um negociante alimentado pelo seio da promiscuidade entre negócios e política. Com a esperteza característica dos círculos plutocráticos, Cavaco tem sabido gerir a sua sobrevivência política entremeando-a com uma saudável relação com o mundo dos negócios. Sócrates, provavelmente, seguiu o mesmo caminho, mas dificilmente evitou sair maculado. Armado desta esperteza saloia que sempre lhe foi característica e que tão presente se faz na frase curta e vaga ou no silêncio arrogante e descomprometido, a última invenção de Cavaco é assacar as culpas do descalabro do BPN ao Estado português. Então não é – afirma ele – que o BPN tem uma gestão pública. E de uma gestão pública só se poderia esperar o desacerto, a desplicência, a banca rota. Para Cavaco, nosso presidente, representante máximo do Estado, mas porventura não se apercebendo disso, não foi o BPN que sugou (e suga) o Estado que ele por acaso até é legítimo representante – é o Estado que aperta o garrote ao BPN que, supõe-se, vicejava anteriormente. Nem uma palavra de desconcerto perante o buraco deixado pelos seus companhons de route. Não. O Estado, esse monstro, do qual ele se faz pela segunda vez representante máximo, é que tornou o BPN no corpo exangue que ninguém quer pegar.

Obviamente que não se chega a ser Cavaco sem uma rede de títeres a cantarem ossanas à sua infalibilidade. Como diz Eduardo Pitta, onde estão as perguntas que qualquer jornalista avisado devia colocar como imperativo investigativo? Onde estão as insistências caninas que levaram jornalistas e jornais a imiscuírem-se em vidas privadas noutras ocasiões? Pois, não estão. Até porque as insistências caninas são facilmente debeladas pela voz do dono. Os cães de fila calam rapidamente a sua autoridade rosnadora quando instados pelo dono a sentarem-se a um canto e ficarem sossegados com a cabeça molemente descaída entre as patas. Retrato fiel do jornalismo actual. O Sol quando nasce, à sexta-feira, não é para todos.

E no entanto, o caso Cavaco é intrigante, sobremaneira intrigante para não nos questionarmos porque razão não apenas o nosso estimado presidente meteu as gadanhas na pocilga da SLN, mas também a sua prole e familiares próximos. A filha, claro está, com uma maquia mais significativa. E o genro. Tenho para mim que o segredo deste imbróglio lusitano se encontra no genro. Porém, os jornalistas estão tão entretidos a seguirem a operação nariz vermelho que nem querem perder tempo com minudências como um banco que caiu no colo do Estado com um buraco de 2 mil milhões de euros que nós teremos que pagar em (pelo menos!) dez anos e  cujo conselho de administração negociava acções ficticiamente inflacionadas com o nosso presidente da república e respectiva família.